Preparo essencial

Desde a década de 1970, a expansão do mercado farmacêutico, o crescimento da concorrência e as inúmeras exigências regulatórias foram empurrando o farmacêutico para longe do balcão e, consequentemente, para longe do contato com o consumidor.

Aos poucos, esse profissional passou a ser visto apenas como um dispensador de medicamentos que lida com questões burocráticas. Para recuperar o papel de agente de saúde que os farmacêuticos tinham décadas atrás, o Congresso Nacional aprovou a Lei 13.021/14 que resgata a prática de serviços de Atenção Farmacêutica.
Assim que as diretrizes contidas na lei começarem a sair do papel e passarem a ser aplicadas na prática nas farmácias brasileiras, a função do farmacêutico junto à população ganhará novos contornos e uma gama mais ampla de exigências.

A perspectiva de mudança gera uma dúvida: com a formação atual, os profissionais de farmácia estão aptos a atuar em prol da saúde da população, como um braço de uma equipe multidisciplinar de saúde, ou seria necessária alguma mudança na grade curricular dos cursos?

Atualmente, o conteúdo disseminado nas faculdades de farmácia é determinado a partir das Diretrizes Curriculares do Ministério da Educação (MEC), que determinam o perfil de formação do estudante de cursos superiores e quais disciplinas devem ser aplicadas.

Também são levadas em consideração as normas relacionadas ao âmbito profissional, elaboradas pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF). Periodicamente, as matrizes curriculares dos cursos precisam passar por atualizações para acompanhar as alterações das profissões, as necessidades da população e as demandas do mercado de trabalho.
“Nos últimos vinte anos, muitos novos fármacos e medicamentos foram introduzidos na terapêutica e a isto se aliam novos mecanismos de ação farmacológica e novas empregabilidades clínicas, que exigem um farmacêutico atualizado e capacitado para orientar devidamente os usuários.

Além disso, novas legislações sanitárias e de regulamentação da atuação farmacêutica são implementadas, exigindo mudanças de postura profissional e uma maior necessidade de atualização de conhecimentos técnicos e sociais”, complementa o professor do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ), Lincoln Cardoso.

Apesar da constante necessidade de atualização, o MEC informou que não estão previstas mudanças nas diretrizes que visem atender às exigências da Lei 13.021/14. De acordo com o órgão, as universidades têm liberdade para fazer ajustes, desde que se atendam às exigências de formação.

“No caso específico da formação farmacêutica, nos dois últimos anos, mudanças significativas aconteceram na regulamentação da profissão e, consequentemente, provocarão alterações na formação oferecida pelas Instituições de Ensino Superior (IESs) com cursos de Farmácia, especialmente as relacionadas com as atribuições clínicas do farmacêutico. Em muitos cursos, as alterações serão pequenas e, em outros, mais significativas”, avalia a coordenadora da Comissão Assessora de Educação Farmacêutica do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF-SP), professora Marise Bastos Stevanato.

Mesmo ciente da necessidade de certos ajustes, Marise acredita que, no modelo atual, a formação do farmacêutico na graduação já o torna um profissional de saúde apto a prestar assistência farmacêutica. E aqueles cursos que, por ventura, ainda não têm esse foco, não terão outra saída a não ser se adaptarem. “Muitos cursos de Farmácia do Brasil já formam farmacêuticos com atribuições clínicas bem delineadas; entretanto, com certeza, aprimoramentos serão bem-vindos. Para aqueles que ainda não o fazem, obrigatório será, pois serão preteridos pelos interessados em ser farmacêuticos, que vêm com esses ideais clínicos.”

Defasagem registrada

Ainda que haja excelentes cursos superiores de Farmácia no Brasil, quando comparados com os de instituições estrangeiras, nota-se certo descompasso. A carga horária do curso de graduação em Farmácia é estabelecida pela Resolução CNE/CES nº 4, de 6 de abril de 2009, que a definiu como 4 mil horas. Por ser bem menor que a grade curricular de outros países, como Estados Unidos, Canadá, algumas localidades na Europa e até mesmo na América do Sul, a brasileira, portanto, não tem tempo hábil para formação em todas as competências e habilidades estabelecidas.

“Em função disso, os cursos enfatizam aquelas que se aproximam da sua realidade loco-regional, de sua experiência institucional e dos formadores/professores, entre outros”, aponta Marise.

Bolso do farmacêutico

O piso da categoria farmacêutica é determinado pelo Sindicato dos Farmacêuticos, órgão que negocia as convenções coletivas de trabalho dos profissionais junto aos empregadores (comércio varejista e atacadista de medicamentos, indústria, hospitais e laboratórios clínicos) em cada estado. O piso salarial no estado de São Paulo é determinado por área de atuação e diferencia-se em cada região, mas, em geral, para o profissional que atua em farmácia/drogaria no estado de São Paulo, é de R$ 2.460.

Diante dessa defasagem entre o tempo de curso e a quantidade de conteúdo a ser ministrado, o farmacêutico brasileiro, que deseja ter destaque no mercado de trabalho, não pode deixar de investir na educação continuada. A velocidade das novas descobertas, da introdução de novos procedimentos, competências, habilidades e atitudes exigem a atualização. Quem não se atualiza pode até conseguir ingressar no mercado, mas não se mantém.

Cientes dessa necessidade, diversas instituições investem em cursos para capacitação farmacêutica. As opções são variadas: existem os de pós-graduação Lato sensu (especializações e residências), Stricto sensu (mestrado, doutorado e pós-doutorado), cursos livres e os essenciais oferecidos pelas próprias entidades de classe, como os conselhos regionais e federal, que são gratuitos ao farmacêutico e abordam temas fundamentais ao exercício diário da profissão, com conteúdos teóricos e práticos, discussões de casos clínicos e dinâmicas de grupo.

Há ainda cursos que visam aprimorar o conhecimento do farmacêutico em uma patologia específica, a fim de que o profissional possa dar um atendimento mais preciso à população. É o caso do curso de Aprimoramento em Diabetes para Farmacêutico (Aprifarma), criado pela ADJ Diabetes Brasil, a partir de uma solicitação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

“A Agência nos pediu que chamássemos entidades farmacêuticas dos 27 estados brasileiros para ministrar um curso presencial sobre Diabetes, já que a presidente Dilma Rousseff tinha acabado de lançar o programa Saúde Não Tem Preço, em que todos os medicamentos para diabetes eram disponibilizados à população”, conta o coordenador-geral do Aprifarma, Sérgio Metzger.

Durante dois anos, a entidade promoveu uma edição do curso em cada capital. Devido ao sucesso alcançando, a ADJ iniciou uma parceria com uma empresa de tecnologia e criou o curso via internet. Hoje, por meio remoto, o farmacêutico consegue fazer um curso de nove horas, divido em oito módulos. Atualmente, cerca de 900 farmacêuticos realizam o curso por mês.

Capacitação ideal

De acordo com Cardoso, professor do ICTQ, o varejo está carente de profissionais farmacêuticos especializados e capacitados, que sejam capazes de implementar projetos exequíveis e viáveis que transformem farmácias e drogarias em verdadeiros estabelecimentos de saúde.

“Não basta fidelizar clientes, uma vez que este procedimento muitas vezes custa muito caro por envolver promoções, descontos ousados, premiações, material gráfico de divulgação, entre outros custos. A grande diferença consiste em estabelecer relacionamentos com o cliente. Os estabelecimentos farmacêuticos, independentemente do seu porte e capital econômico, precisam estreitar o relacionamento com o seu público-alvo por meio de soluções concretas de saúde”, acredita.

Diante do novo momento do mercado, os cursos que incluem a Atenção Farmacêutica, com foco em farmacoterapia e prescrição farmacêutica, são os que mais vão de encontro às necessidades atuais. “Busque tornar-se um profissional capacitado em habilidades gestoras e clínicas. É aí que está o gargalo: nossas faculdades não formam farmacêuticos com esse perfil. Por isso a capacitação, por meio de especialização de qualidade, se torna uma escolha fundamental para o sucesso do profissional.”

Confira alguns cursos de educação continuada do setor

ADJ Aprifarma é um curso on-line de capacitação em diabetes, com duração de nove horas, dividido por oito módulos. O profissional ainda conta com suporte de 20 horas/mês para consultar livremente o conteúdo disseminado.
O curso Marketing do Varejo Farma possui aulas presenciais, voltadas para a capacitação de profissionais da indústria e do varejo, que atuem na área de marketing. Entre o conteúdo ministrado, estão conceitos sobre comportamento dos shoppers, gerenciamento por categorias e ações no ponto de venda (PDV), incluindo novos conceitos como Varejo 3.0. ESPM
SENAC Desde 1962, a entidade trabalha um portfólio de cursos no segmento, que vai desde aulas para inserção do profissional no mercado, como o de Capacitação de Balconista de Farmácia, passando pelo curso Técnico em Farmácia, além dos de aperfeiçoamento e pós-graduações lato sensu/especializações.
Ambas as entidades assinaram um termo de cooperação técnica que prevê uma série de ações para capacitar as micro e pequenas empresas (MPEs) do segmento de drogarias e farmácias do estado. O objetivo da parceria é orientar farmacêuticos empreendedores ou com interesse em abrir seus próprios negócios sobre como fazer a gestão de farmácias e drogarias. CRF-SP e
SEBRAE
ICTQ Com cursos em diversas regiões brasileiras, a entidade se propõe a formar especialistas, por meio de uma metodologia ativa e dinâmica de ensino de pós-graduação. O objetivo é que esse profissional se torne peça-chave para os resultados da empresa farmacêutica que representa, seja ele proprietário ou colaborador.
Presente no mercado há mais de 20 anos, a Contento Comunicação, antiga Editora Price, é especializada no desenvolvimento, na gestão e na produção de conteúdos customizados para o varejo farmacêutico. A experiência adquirida trouxe a certeza de que é preciso conhecer a fundo o público-alvo para oferecer informação única e relevante. O objetivo central é disseminar informação, cultura e entretenimento, contribuindo para o desenvolvimento da livre iniciativa e para a melhoria da educação e da qualidade de vida no País. Entre os títulos estão: Guia da Farmácia, Essencial, o programa de capacitação profissional Treina PDV Farma e diversos cursos customizados voltados aos gestores farmacistas e profissionais farmacêuticos. CONTENTO

Marise, do CRF-SP, ressalta que, embora exista uma tendência de ampliação da formação clínica para o farmacêutico, esta não a única área importante. A formação tecnológica do farmacêutico é e deverá continuar sendo tão importante quanto, e isto significa que ampliar uma especialidade não determina o enxugamento das outras, inclusive das análises clínicas.

Autor: Flávia Carbó

Trabalho integrado

Edição 268 - 2015-03-01 Trabalho integrado

Essa matéria faz parte da Edição 268 da Revista Guia da Farmácia.

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