
“Quase todo dia no consultório ouço algum paciente dizer que engordou 10, 15 ou 20 quilos durante a pandemia ou que ficou mais ansioso”, revela o gastroenterologista da DaVita Serviços Médicos, Dr. José Luiz Jesus de Almeida, ao trazer à tona um alarmante cenário: o aumento do número de pessoas que chegam aos atendimentos médicos com queixas referentes a dor no estômago durante este período desafiador.
Aliás, os sintomas dispépticos, que englobam esse tipo de sensação de azia e má digestão, chegam a acometer, ao menos, 70% dos brasileiros de forma eventual, segundo dados da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG).
“Como os índices de obesidade e transtornos ansiosos estão elevados, a incidência e prevalência desses sintomas na população é alta. Acredito que o isolamento social e o home office potencializaram isso, já que fizeram as pessoas comerem, beberem e engordarem mais, além de potencializarem os índices de ansiedade”, reforça o Dr. Almeida.
A opinião é endossada pela gastroenterologista do Centro Especializado em Aparelho Digestivo do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Dra. Maira Marzinotto. “Está cada vez mais frequente o aparecimento de pacientes com queixas de dor no estômago, tanto no consultório como no hospital. Isso se dá por conta das alterações na alimentação e da ansiedade gerada pela pandemia e pelo isolamento social. A ansiedade e o estresse são fatores que contribuem para uma piora sintomática desses pacientes.”
Para o cirurgião do Aparelho Digestivo do Hospital Santa Catarina – Paulista, Dr. Fernando Bray, além da expansão crescente do consumo de alimentos ditos não saudáveis, o aumento da obesidade e o sedentarismo são os principais causadores disso. “Há também um agravante: a elevação de transtornos psicológicos e psiquiátricos, como transtorno de ansiedade e depressão, que foram intensificados pela pandemia”, completa.
Hábitos preventivos
Eventualmente, após de uma boa refeição, a sensação seguinte pode não ser tão boa quanto o sabor que ela trouxe. Quando o cardápio escolhido é recheado de gorduras ou condimentos marcantes, é natural que se inicie uma sensação de desconforto, caracterizada por sintomas como azia e má digestão. Mas como evitar que esse problema aconteça?
Segundo o gastroenterologista do Hospital Edmundo Vasconcelos, Dr. Eduardo Berger, é necessário, primeiramente, evitar recorrer ao mais fácil, ou seja, a ingestão das refeições industrializadas, pois é um hábito que ajuda a evitar a azia e má digestão, já que estes alimentos processados e recheados de condimentos são nocivos para o organismo como um todo”, diz.
Outra boa prática que evita a azia e má digestão é garantir a correta ingestão de líquidos, de 2 a 3 litros por dia. Como terceira dica, está beber com moderação café e algumas bebidas nocivas, como as alcoólicas. Para ele, no caso de algumas pessoas, é necessário até mesmo eliminá-las.
“Também é válido utilizar fibras alimentares, que estão presentes em grãos, verduras, legumes, frutas, farinhas e alimentos integrais. Por fim, como é necessário comer com consciência e não exceder, a sugestão é realizar refeições com no mínimo três horas de intervalo e reduzir a ingestão de alimentos”, ensina.
O Dr. Bray traz outros hábitos importantes, como comer devagar, mastigar bem, evitar jejum prolongado e deitar-se somente duas horas após a refeição.
“Manter o peso em nível adequado, controlar o estresse e ansiedade também são hábitos que auxiliam a combater a azia e má digestão”, completa o Dr. Almeida.
Medicamentos que podem ajudar
Como as pessoas tendem a ceder a algumas tentações e, consequentemente, ao ingerir alimentos e bebidas que podem não cair bem no estômago, é fundamental que as farmácias estejam sempre abastecidas com Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs), que tratam a azia e a má digestão, especialmente em épocas com picos de incidência, a exemplo da pandemia. Confira as principais opções listadas pela Farmacêutica responsável pela Farmácia Universitária da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FARMUSP), Maria Aparecida Nicoletti.
Antiácidos: são medicamentos que aumentam o pH gástrico, neutralizando, assim, o ácido clorídrico presente no estômago. Os antiácidos são bases fracas e sua maioria possui componentes que normalmente estão associados a sais de magnésio e de alumínio, bicarbonato de sódio ou de cálcio.
Salicilato de bismuto: atua como um suave efeito revestidor e protetor da mucosa gástrica, proporcionando rápido alívio da irritação gastrintestinal.
Alginato de sódio: atua por ação mecânica, sem absorção pelo organismo, com pH aproximadamente neutro. Ele age por meio da flutuação sobre o conteúdo estomacal, impedindo o refluxo e proporcionando alívio aos sintomas de azia, regurgitação ácida e queimação. A barreira formada é também capaz de proteger a mucosa esofágica.
Dimeticona e cimeticona: junto com a azia e má digestão poderá correr a produção de gases (flatulência) e é nestes casos que estes fármacos são indicados. Eles diminuem a tensão superficial dos líquidos digestivos, levando ao rompimento das bolhas responsáveis pela dor e distensão abdominal.
Sobre as classes de medicamentos, Maria Aparecida lembra que algumas delas podem estar envolvidas no tratamento. Além dos fitoterápicos, como a espinheira-santa, que atua como reguladora das funções estomacais, e os chás (camomila, alecrim, chá verde, hortelã, boldo, entre outros), também estão disponíveis os antroposóficos e homeopáticos.
Nestes casos, geralmente, são utilizadas soluções dinamizadas, contendo Nux vômica, China officinalis, Grafites e Sulphur. No entanto, os medicamentos antroposóficos e os homeopáticos têm uma filosofia específica por tratarem o indivíduo como um todo, observando as diferentes características de cada pessoa1.
Contudo, se persistirem os sintomas, é hora de consultar um médico. “O acompanhamento especializado é essencial. Não só para o diagnóstico correto, mas também para a indicação do melhor tratamento para cada paciente, já que nem sempre apenas um medicamento será suficiente. Nos casos em que a dor de estômago aparece junto com outros sintomas, como náusea, vômitos, fraqueza, perda de peso ou alteração do ritmo intestinal essa avaliação se torna ainda mais necessária”, lembra a Dra. Maira.
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Fonte: Guia da Farmácia