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De olho nos preços abusivos

Procons de todo o País estão na cola das farmácias que cobram preços abusivos dos consumidores. A precificação correta é fator determinante entre o fracasso e o sucesso de uma loja 

Como acontece todos os anos, a diferença abrupta de preços cobrados dos consumidores de farmácias de todo o País voltou às manchetes da imprensa nacional, expondo a forma predatória de precificação de alguns varejistas brasileiros. O novo levantamento aponta diferenças de até 2.000% nos preços cobrados em diferentes estados e cidades do Brasil, jogando mais desconfianças na percepção dos consumidores brasileiros em relação ao mercado de farmácias Brasil afora.

Realizado em 433 farmácias de todo o País, o estudo apurou que um único medicamento genérico da Aspirina pode custar R$ 0,98 em João Pessoa, na Paraíba, e R$ 19,97 em um estabelecimento de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. A diferença de 2.038% é a mais alta já apurada numa pesquisa de preços de medicamentos nacional e acende um sinal de alerta aos comerciantes brasileiros sobre qual é a forma correta de estabelecer preços para os produtos comercializados.

Feita em 18 diferentes capitais do País, a pesquisa revela o maior e o menor preço de substâncias como paracetamol (Tylenol), dipirona (Novalgina), Ácido Acetilsalicílico (Aspirina), diclofenaco de potássio (Cataflam), nimesulida (Nisulid) e clonazepam (Rivotril). Entre esses seis itens, os similares e genéricos da Novalgina, utilizada no tratamento de dores e febres, são os que mais registram diferenças de preços no País, inclusive entre produtos do mesmo laboratório.

No caso da dipirona 500 mg, por exemplo, o produto em Belo Horizonte (MG) pode ser encontrado por R$ 8,70, mas, na capital paulista, pode chegar a R$ 46,50. Diferença de mais de 535%, segundo a pesquisa. Outro exemplo está no Tylenol 750 mg em que a pesquisa encontrou uma variação de quase 418,6%, com preço de venda de R$ 10,00 no Recife (PE) e R$ 41,86 em Brasília (DF).

“A percepção de preços de uma farmácia pelo consumidor pode prejudicar qualquer loja. Embora a precificação tenha um ingrediente que o cliente não conhece, que é o preço de custo que a indústria cobra para rede X ou Y – que não são os mesmos –, o varejista tem de tomar muito cuidado nessa fórmula para não colocar todo o negócio a perder”, alerta o presidente da Associação dos Farmacêuticos Proprietários de Farmácia do Brasil (AFPFB) e do grupo Farma & Farma, Rinaldo Ferreira.

“Pouca gente sabe, mas os descontos que a indústria dá a uma rede são diferentes. Para o fabricante, a quantidade de produtos e o tamanho do negócio gerado é o que conta, para balancear o desconto médio operacional que ele mesmo tem de limite. Então, se de uma grande rede, o fabricante cobra menos 2X, de alguma outra rede, ele vai ter de cobrar os 2X, porque o limite da empresa é dar apenas 1X de desconto a todos os varejistas e continuar tendo lucro. Somado aos custos fixos de tamanho de loja, aluguel e número de funcionários, por exemplo, já é possível perceber que os varejistas precisam praticar preços diferenciados a fim de não pagarem para trabalhar”, explica Ferreira.

O presidente do Farma & Farma lembra que essas dificuldades não justificam a sangria pela cobrança de preços abusivos e justifica que o bom varejista é aquele que sabe encontrar o equilíbrio entre as necessidades dele e dos clientes, na tentativa de viabilizar uma parceria comercial duradoura.

O pensamento é compartilhado pelo consultor do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, de São Paulo (Sebrae-SP), Fabiano Nagamatsu: “Mesmo com o avanço da tecnologia, a diversificação de produtos e operações e o crescimento do setor de serviços, o preço continua entre os principais fatores analisados pelo cliente na escolha de um produto”, afirma. “O empreendedor deve analisar dois fatores no planejamento da sua empresa: custos fixos da empresa, que é realizar um planejamento de redução de custos que aumentam o valor final do produto ou serviço. O segundo ponto é a agregação de mais valor: elaborar um plano de ação para padronizar e agregar mais valores aos serviços e produtos oferecidos, como deixar o ambiente mais agradável e de fácil acesso, capacitação dos funcionários, etc.”, argumenta.

Falta de padrão

A supervisora de pesquisas da Fundação Procon-SP, Cristina Martinussi, é todos os anos a responsável pela pesquisa setorial da entidade sobre preços de medicamentos. A pesquisa é divulgada no primeiro semestre de cada ano, mostrando a disparidade de preços cobrados pelas farmácias e o ranking das drogarias onde se cobra preços acima ou na média do mercado.

Neste ano, a equipe da Fundação pesquisou 68 medicamentos, sendo que 34 eram de referência e os outros 34, genéricos. Os resultados mostram que os preços no estado de São Paulo podem variar em até 976% apenas com mudanças de bairro e comunidades ou cidades próximas.

O levantamento do Procon-SP, neste ano, constatou que os genéricos são os que mais sofrem diferenças de preços. No caso do paracetamol de 200 mg/mL, gotas de 15 mL, por exemplo, o preço médio do medicamento é de R$ 3,83, mas o custo variou de R$ 0,90 e R$ 9,69 na pesquisa.

Ao comparar os preços médios dos genéricos com os de referência, os medicamentos genéricos são, em média, 57,72% mais baratos do que os de referência. Entre os medicamentos de referência, a maior variação foi na cidade de Caçapava. O Nisulid (nimesulida), 100 mg, 12 comprimidos, da Aché, apresentou variação de 331,45%. O custo variou entre R$ 7,60 e R$ 32,79 na mesma cidade.

“Fazendo essa pesquisa anualmente, conseguimos detectar alguns problemas que são até do mercado, que não significam má-fé do proprietário. A aplicação de descontos, por exemplo, pode variar de acordo com as condições locais de mercado, a rentabilidade da loja e as condições comerciais de compra. Em algumas drogarias de rede, encontramos até políticas comerciais diferentes para cada canal de venda (loja física, telefone e site – loja virtual). Existem redes que são regidas pelo sistema de franquia, não havendo uma política única de preços entre os franqueados. Ou seja, falta consenso até mesmo entre os comerciantes de uma mesma rede. Isso se torna um nó até na cabeça do comprador”, conta Cristina, coordenadora da pesquisa.

Mais do que mostrar os preços praticados, o estudo do Procon-SP mostra as redes onde se pratica menos ou mais os preços médios do mercado. Como disse Ferreira, é natural que os preços se diferenciem em virtude de ponto, custos fixos e tamanho do negócio. Ele lembra, contudo, que é natural, conforme a clientela da loja, que o varejista se foque mais numa linha de produtos para conceder desconto e cativar os clientes. Por isso, o estudo do Procon-SP usa a pesquisa para medir o custos de genéricos, medicamentos de referência e Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs) entre os 68 itens pesquisados, na intenção de dar uma panorâmica aos consumidores em relação aos preços praticados nas redes e lojas escolhidas naquele ano para consulta.

Contudo, o que assusta na pesquisa é que certas redes, mesmo sendo grandes no mercado, não conseguem praticar um preço médio ou baixo sequer. É o caso da unidade Farmais da zona oeste da capital paulista. Por lá, o Procon encontrou 58 itens dos 68 pesquisados, mas nenhum estava dentro dos preços médios ou abaixo do preço do mercado.

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Exemplos reais

O mesmo ocorre com a Onofre da região norte da capital paulista, onde apenas três dos 68 itens pesquisados estavam com preço satisfatório. Ou seja, 4% do total. Mesma situação na Droga Raia da região central da capital paulista, onde apenas 6% de 63 itens pesquisados tinham preço médio satisfatório.

Na Drogaria Farto, outra decepção: apenas três itens, de 65 encontrados, tinham preços satisfatórios. O mesmo nas unidades da Drogaria São Paulo na zona leste, onde havia apenas dez itens de 67 encontrados com preços competitivos e atraentes para o consumidor. Apenas 15% da mostra da Fundação. Na rede Bifarma, também na zona leste, o índice foi de 27%, ou seja 18 itens de 67 encontrados tinham preço concomitante com a média das farmácias da região.

“Mesmo entre os genéricos, os preços nessas lojas estavam altos pela média do mercado, mas não ultrapassavam o teto estabelecido pelo governo, o chamado Preço Máximo ao Consumidor (PMC), impossibilitando a autuação dessas lojas. Contudo, é alarmante que os preços tenham tanta divergência, especialmente em grandes redes que têm total condição de estabelecer negociações com a indústria para oferecer melhores preços aos compradores. O consumidor precisa ser avisado para não ser enganado e ver o salário indo embora desnecessariamente”, avisa Cristina.

Riscos de fracasso

O intuito dos Procons de todo o País, segundo Cristina, não é expor os comerciantes e varejistas, mas alertar o comprador sobre os perigos de não pesquisar preços antes de comprar. A coordenadora diz, contudo, que a entidade faz questão de publicar a tabela de preços de cada rede consultada justamente para que outros varejistas também possam ter acesso e balizar seus preços pela média do mercado na região em que atuam.

A tabela completa está no site da Fundação Procon-SP e pode ser consultada por compradores e varejistas (http://www.procon.sp.gov.br/pdf/RTMedicamentos%202015.pdf). Em cidades, como Brasília, Campinas, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, as unidades regionais do Procon fazem o mesmo trabalho, tanto no âmbito estadual, quanto local.

O alerta de Ferreira, contudo, é de que o varejista leve em conta a realidade socioeconômica atual do Brasil e da região em que atua para estabelecer os preços da loja. “O preço de venda não pode levar em conta apenas o que é bom para o varejista, mas também o que é bom ao consumidor. O pior que pode acontecer para uma loja é ela ser taxada de careira na região, pois pode significar seu fracasso”, analisa.

Para Nagamatsu, a composição do preço de venda do produto ou serviço deve atentar para os seguintes pontos qualitativos: 1 – o preço tem de estar nivelado ao do mercado – ou seja, deve acompanhar a média de preço que está sendo praticada pelo mercado concorrente; 2 – o varejista deve analisar a capacidade da empresa (custos e capacidade produtiva ou serviços); e 3 – analisar a cultura regional onde o produto vai ser comercializado.

“O preço faz parte de um conjunto de fatores essenciais em um empreendimento. Por isso, esse esforço dos três itens deve ser perseguido com rigor. Porém, para buscar o sucesso da empresa, é importante que os varejistas também se atentem aos outros itens essenciais: excelência no atendimento, ambiente agradável, layout bem organizado, qualidade dos produtos e serviços, entre outras palavras, uma boa definição da identidade ou composição do valor da empresa”, afirma Nagamatsu. 


Autor: Rodrigo Rodrigues

Saúde na América Latina

Edição 277 - 2015-12-01 Saúde na América Latina

Essa matéria faz parte da Edição 277 da Revista Guia da Farmácia.

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