
O ano de 2020 foi um teste de fogo para a saúde mental. Surpreendida por uma pandemia com graves consequências econômicas e sociais, a população apresentou uma alta vertiginosa nos quadros de ansiedade e estresse.
Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) constatou que 80% da população brasileira experimentou ansiedade moderada ou grave, enquanto 68% reportaram sintomas de depressão devido à pandemia. O mesmo estudo também revelou que 65% das pessoas experimentaram sentimentos de raiva; 63% apresentaram sintomas físicos associados à ansiedade; e 50% tiveram problemas de sono.
À primeira vista, a chegada de um novo ano traz um sentimento de otimismo e renovação, capaz de zerar os reflexos negativos de um período anterior ruim. No entanto, por trás deste período de aparente leveza, também existem armadilhas perigosas para a saúde mental. As frustrações de metas não atingidas no ano anterior, as expectativas e obrigações dos próximos 12 meses, somadas ao alto volume de contas e taxas deste período, podem gerar estresse e ansiedade.
Esta combinação de fatores desagradáveis que marcam o primeiro mês do ano não são novidade, mas devem ganhar ainda mais peso neste ano, após um 2020 tão conturbado. A pandemia ainda não acabou, a expectativa por uma vacina segue alta e o desejo de retornar à “vida normal” tornam 2021 ainda mais desafiador para o equilíbrio psicológico.
“No início do ano, por tradição, as pessoas em geral se percebem compelidas a redefinir metas e estratégias para alcançarem os anseios mais profundos. Dessa maneira, criam expectativas, por vezes não coerentes com a realidade, que podem implicar em frustrações futuras”, resume a psicóloga e fundadora do Grupo Grão, Bruna Richter.
Não à toa, o primeiro mês do ano foi o escolhido para o Janeiro Branco, iniciativa que visa criar ações de conscientização e promoção da saúde emocional da população.
“A campanha contribui para que as resoluções do novo ano venham a ser construídas a partir de expectativas saudáveis e não de uma felicidade fabricada, inexistente. A profusão dos livros de autoajuda colabora para essa visão desajustada da vida. A felicidade fácil não existe”, afirma a psicóloga da Clínica Personal da Central Nacional Unimed, Paula Diniz Vicentini.
De olho na saúde mental
Para garantir um 2021 de boa saúde mental, o primeiro passo deve ser garantir que as expectativas e metas para os próximos 12 meses sejam coerentes com a realidade, evitando frustrações futuras.
“O importante é seguir desejando àquilo que motive e que dê um maior sentido à vida, mas sem perder de vista que o alcance desses objetivos possivelmente é gradual”, resume Bruna.
Outro ponto muito importante é saber identificar sinais de desequilíbrio na saúde mental. Cada indivíduo reage de um modo diferente frente aos mesmos estímulos, mas, de modo geral, quadros de estresse e ansiedade ocasionam sintomas físicos, como tensão, dores musculares, dores de cabeça e estômago, sensações de dilatamento das pupilas, taquicardia, falta de ar, sudorese e tremor.
Crise de ansiedade: saiba identificar
O que é?
A ansiedade é provocada por um aumento previsto ou inesperado de tensão. Pode acontecer em situações reais, mas também pode ser a partir de uma situação imaginária. Na crise, o indivíduo se vê impossibilitado de executar tarefas simples pelo medo gerado, sendo comum sentir que perdeu o controle do próprio corpo e da mente.
Como identificar?
Os sintomas podem ser emocionais, físicos, cognitivos e comportamentais. Os sinais mais comuns são:
• Agitação;
• Desconforto corporal;
• Respiração acelerada;
• Insônia;
• Mudanças no padrão da fala;
• Tensão e irritabilidade;
• Alterações no apetite;
• Dificuldade de concentração;
• Acelerações nos pensamentos;
• Medos constantes;
• Sensação de falta de potência ou de controle.
Quais os principais riscos?
A ansiedade tem influência sobre o comportamento, a capacidade de julgamento e as sensações do indivíduo. Quando em excesso e não tratada, pode:
• Impactar negativamente os laços afetivos, afetando as relações familiares, de amizades e profissionais;
• Gerar queda no desempenho escolar/profissional;
• Prejudicar bem-estar, reduzindo a qualidade de vida no geral;
• Ocasionar alterações cardiovasculares e metabólicas, que causam Acidente
Vascular Cerebral (AVC) e Infarto Agudo
do Miocárdio (IAM);
• Facilitar o surgimento de um
quadro depressivo.
Como tratar?
• O melhor caminho é buscar ajuda psicológica para identificar a origem do mal-estar e definir a melhores opções
de tratamento.
• Fármacos como antidepressivos, ansiolíticos e até medicamentos naturais podem colaborar para a diminuição
da ansiedade.
• Exercícios físicos também são aliados no controle da ansiedade. Quando combinados com terapia e medicamento, costumam conquistar bons resultados.
Fontes: psicóloga e fundadora do Grupo Grão, Bruna Richter, e psicóloga da Clínica Personal da Central Nacional Unimed, Paula Diniz Vicentini
“É importante notar também que esses indícios não acontecem apenas corporalmente. Quando observamos pensamentos repetitivos, preocupação excessiva, desconforto intenso ou aflição generalizada, provavelmente há algo sinalizando que estamos nos distanciando de nosso bem-estar”, complementa Bruna.
Estar atento a esses sintomas é fundamental para evitar consequências graves, que vão além dos impactos emocionais. Em quadros de altos níveis de estresse e ansiedade, o corpo reage liberando cortisol no sangue.
“Altos níveis de cortisol causam aumento da frequência cardíaca, constrição dos vasos sanguíneos, elevação do açúcar no sangue e redução da insulina – uma combinação realmente perigosa, que pode levar a uma série de doenças, inclusive infarto e Acidente Vascular Cerebral (AVC)”, alerta a mestre em Psicologia Positiva pela Universidade da Pensilvânia, Flora Victoria.
Como tratar?
Os sintomas mais comuns de ansiedade e estresse também podem estar associados a outros problemas. Por isso, ao identificá-los, o primeiro passo deve ser obter um diagnóstico de um profissional de saúde. Uma vez diagnosticado que há, de fato, um problema de saúde mental, as opções de tratamento são diversas e devem respeitar as necessidades e características de cada paciente.
A ajuda psicológica auxilia no encontro da origem do mal-estar, enquanto a psiquiatria oferece opções de fármaco. “Procurar a ajuda de profissionais qualificados que possam orientar qual o melhor caminho proposto diante do experimentado é fundamental”, orienta Bruna.
Em terapias medicamentosas, os antidepressivos, ansiolíticos e até medicamentos naturais são as alternativas prescritas para a diminuição da ansiedade. Já os tratamentos não medicamentosos podem incluir estratégias de recomposição física, cognitiva, emocional e de consciência – ou, ainda, combinar todas elas.
De acordo com Flora, a recomposição física diz respeito à prática de exercícios físicos regulares e a uma dieta saudável, enquanto a recomposição cognitiva refere-se ao modo de pensar ou à atitude mental.
“Por exemplo, pessoas que tendem a pensar de um modo muito negativo, ou que são excessivamente autocríticas, podem se tornar mais vulneráveis ao estresse.”
A recomposição emocional trata do controle dos estados emocionais, entre outras coisas, de descobrir os gatilhos que acionam explosões de raiva, ataques de irritação, reações descontroladas e desgastantes. O objetivo é aprender a evitar ou a lidar com os gatilhos de uma forma mais serena. Por fim, as recomposições de consciência envolvem, por exemplo, técnicas de relaxamento ou de meditação. “Tudo isso pode – e deve – levar a uma mudança de estilo de vida”, define.
Independente do caminho indicado para o tratamento, é importante seguir as orientações à risca e ter a consciência de que que a saúde mental é tão importante quanto à saúde física e que ambas se complementam.
“Não deveríamos esperar que o pior aconteça para entender a necessidade de mudar. Deveríamos mudar para evitar o pior. Afinal, nossos recursos são finitos. Nossa saúde é finita, nossa energia física e mental é finita, a própria vida é finita. Administrar bem nossos recursos mais preciosos é o segredo para gerenciar o estresse e viver mais e melhor”, sentencia Flora.
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