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Serviços farmacêuticos em estágio avançado

Anvisa regulamenta a aplicação de vacinas em farmácias e drogarias e reforça o verdadeiro e importante papel do farmacêutico para a saúde da população

Desde 2014, algumas farmácias brasileiras têm passado por uma mudança marcante. Tudo começou com a publicação da Lei 13.021, que estabeleceu um novo marco para a saúde, definindo esses canais como estabelecimentos destinados a prestar assistência farmacêutica e orientação em saúde.

“A prática da farmácia clínica abraça a filosofia dos cuidados farmacêuticos, que é a aproximação do farmacêutico do paciente. Nela, ambos selam uma relação de compromisso e corresponsabilidade que visa melhorar e assegurar os resultados em saúde”, resume a farmacêutica com habilitação em indústria, especialista em gestão farmacêutica, Atenção Farmacêutica e farmacoterapia clínica e professora adjunta da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Camila de Albuquerque Montenegro.

Em sinergia com a lei, em 2013, a Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) já dava início ao projeto “Assistência Farmacêutica Avançada”, a fim de construir, para as redes associadas, um modelo de serviços farmacêuticos, contemplando áreas importantes da saúde, como hipertensão, diabetes, colesterol, revisão da medicação, autocuidados, imunização, tabagismo e perda de peso.

Segundo dados da entidade, até dezembro de 2017, o País já contava com mais de 1.411 salas de atendimento clínico em mais de 20 redes associadas. Para 2018, os planos são de expansão do programa. “Esperamos fechar o ano com duas mil salas em operação”, projeta o presidente executivo da Abrafarma, Sérgio Mena Barreto.

Mas de onde vem a força para tanto crescimento das farmácias clínicas? Sem dúvida, de uma necessidade de modernização do modelo farmacêutico atual, mas também de uma realidade do País: o aumento da terceira idade no Brasil.

Farmácias clínicas: como desenvolvê-las?

DOCUMENTAÇÃO1: segundo o artigo 61, §3º e §4º, da Resolução de Diretoria Colegiada (RDC) 44/09, para que os serviços farmacêuticos sejam vistos como regulares, necessitam-se de alvarás de funcionamento e da vigilância sanitária.

Para inclusão de consultório em um estabelecimento já em funcionamento, é necessário atualizar a documentação já existente. Vale lembrar que, desde 15 de junho de 2017, o consultório farmacêutico passou a ter uma Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) e o número é 8.650-0/99.

INFRAESTRUTURA1: prioriza-se uma sala bem localizada, com letreiros atrativos e explicativos, e recepção contendo cadeiras.

Internamente, o espaço deve ser munido de mesa; computador/notebook; maca; lavatório, contendo água corrente; toalhas de uso individual e descartáveis; sabonete líquido; gel bactericida; lixeira com pedal e tampa.

METRAGENS2: devido a não regulamentação, o tamanho varia bastante, passando entre 6 m a 60 m.

EQUIPAMENTOS1: termômetro; estetoscópio; esfigmomanômetro; glicosímetro e fitas; organizadores de medicamentos; perfurador de lóbulo auricular; seringas e agulhas; e refrigerador para armazenar adequadamente as vacinas.

SERVIÇOS QUE PODEM SER OFERECIDOS1: educação em saúde; rastreamento em saúde; manejo de problemas de saúde autolimitados; dispensação; revisão da farmacoterapia; conciliação dos medicamentos; acompanhamento farmacoterapêutico; e gestão em saúde.

PROCEDIMENTOS QUE PODEM SER REALIZADOS1: verificação de parâmetros clínicos fisiológicos e bioquímicos; realização de pequenos curativos; organização e administração de medicamentos; perfuração do lóbulo auricular para colocação de brincos; e transfixação dérmica de adereços.

CADASTRO DO PACIENTE2: o ideal é que o cadastro seja feito por meio de um software, pois isto reduzirá a burocracia, tornando a consulta mais produtiva para o paciente e para o farmacêutico.

As informações primordiais são: nome; idade; peso; altura; relato do paciente; queixa; histórico; orientações do farmacêutico; conduta tomada; prescrição (quando necessário); encaminhamento para outros profissionais (quando necessário); parâmetros fisiológicos; data da consulta.

Fontes: 1. Farmacêutica com habilitação em indústria, especialista em gestão farmacêutica, Atenção Farmacêutica e farmacoterapia clínica e professora adjunta da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Camila de Albuquerque Montenegro; 2. Especialista em Treinamento & Desenvolvimento e diretor do Instituto Pedro Dias – Consultoria Empresarial e Coaching, Pedro Dias

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estimam que, em 2050, os idosos devam alcançar em torno de 23% da população (hoje, esse número é de 14,3%), potencializando, assim, a prevalência de doenças crônicas e indivíduos polifarmácia, que precisam de atenção especial.

“A implantação e implementação de cuidados e serviços farmacêuticos dentro das premissas da farmácia clínica levam à redução das filas nos diversos níveis de complexidade de atendimento, dos gastos com a farmacoterapia e, também, das morbidades relacionadas aos medicamentos, além de aumentar a adesão aos tratamentos”, analisa Camila, da UFCG.

Para o especialista em Treinamento & Desenvolvimento e diretor do Instituto Pedro Dias – Consultoria Empresarial e Coaching, Pedro Dias, esse novo perfil de farmácias também cresce por uma demanda do consumidor.

“Ao longo dos últimos anos, o mercado farmacêutico brasileiro vem se transformando em um cenário cada vez mais competitivo, com clientes mais exigentes e que buscam por uma experiência de compra positiva, sendo uma delas a procura pelo profissional farmacêutico no estabelecimento de saúde”, conclui.

Ele considera, ainda, que os profissionais da área irão estabelecer uma nova forma de relacionamento com o cliente/paciente, buscando a otimização de resultados por meio da orientação dos produtos medicamentosos e não medicamentosos, acompanhamento da farmacoterapia e realização de ações de prevenção.

“Esse conjunto de ações proporcionará ao cliente/paciente evidências sobre o cuidado com a saúde, que consequentemente impactarão na saúde pública e em toda a população brasileira”, finaliza Dias.

Oportunidades para independentes

Vê-se um crescimento acentuado das farmácias clínicas dentro das redes. Mas e as farmácias independentes? Como se comportam diante dessa realidade?

Segundo Camila, as características dessas lojas, que apresentam, de modo geral, um atendimento bastante personalizado e próximo de seus clientes, fazem com que esse novo conceito se aproxime desses canais e seja uma oportunidade.

“Os profissionais das farmácias independentes tendem a conhecer mais profundamente a população ao redor do estabelecimento. Em geral, eles têm clientes fidelizados, que confiam e só querem ser atendidos por farmacêuticos específicos e que os chamam pelo nome, por exemplo”, diz.

Assim, segundo a especialista da UFCG, as independentes devem agarrar essa oportunidade de prestarem serviços clínicos, apesar das dificuldades, como adequação da estrutura do consultório, compras de mobiliário, equipamentos, etc.

Dias também acredita que as farmácias independentes devam entrar nesse ramo. No entanto, para essas lojas, ele prevê que o maior desafio será o de quebrar o paradigma entre os empresários do setor.

“Alguns deles ainda não sabem dessa possibilidade; outros sabem e não acreditam; e outra fatia está aguardando a movimentação dos concorrentes”, comenta.

Para ele, essas lojas poderiam incluir o consultório farmacêutico como uma unidade de negócios dentro da farmácia, a fim para trazer rentabilidade e colaborar para a perenidade dos resultados.

Enfim, a vacinação

No fim de 2017, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a resolução que permite estabelecimento de saúde a realizar atividades de vacinação, incluindo farmácias e drogarias. A regulamentação, aguardada por todo o setor farmacêutico, vem ao encontro de um momento de protagonismo da farmácia na saúde da população.

Esse era o passo que faltava após a aprovação da Lei 13.021/14, que já autorizava a vacinação em farmácias em todo o País. No entanto, a ação não era colocada em prática pela falta de regulamentação.

Entre os requisitos mínimos exigidos pela Anvisa estão: o licenciamento e inscrição do serviço no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES); afixação do calendário nacional de vacinação; profissional legalmente habilitado para a atividade de vacinação; entre outros.

De acordo com o gerente de regulamentação e controle sanitário em serviços de saúde da Anvisa, Andre Oliveira Rezende de Souza, a definição dos parâmetros mínimos de qualidade dispostos na nova normativa poderá promover a melhoria da qualidade sanitária dos estabelecimentos de saúde que prestam esse tipo de serviço, bem como aumentar a capilaridade de sua prestação.

A oferta do serviço é vista como positiva para grande parte da população. De acordo com uma pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), 82% da população usaria o serviço em farmácias e 77% mudaria seus hábitos e passaria a vacinar-se no canal farma. Para os entrevistados, as principais vantagens da imunização em farmácias são a praticidade e o preço mais acessível.

Após a regulamentação da Anvisa, a Abrafarma fez uma nota de esclarecimento sobre o assunto:

  • Farmácias já aplicam vacinas em muitos outros países. Com a decisão da Anvisa, o Brasil alinha-se a Argentina, Austrália, Bolívia, Canadá, Congo, Costa Rica, Dinamarca, Escócia, Finlândia, Islândia, Líbano, Nova Zelândia, Paquistão, Filipinas, Portugal, África do Sul, Inglaterra, além dos Estados Unidos (que já pratica o serviço desde 2000).
  • Somente nos Estados Unidos, houve um aumento na cobertura de herpes-zóster da ordem de 77% e na cobertura de pneumococos de 148%. No Canadá, 28% dos pacientes, incluindo 21% de pacientes de alto risco, relatam que não teriam se vacinado contra a gripe, caso a vacina não estivesse disponível em farmácias.
  • No território norte-americano, 28% das vacinas de gripe são ministradas em farmácias, que já ocupam o segundo lugar entre os estabelecimentos que mais praticam a vacinação.
  • Vacinas são seguras, os efeitos adversos relatados são raros e os profissionais farmacêuticos são tão competentes para ministrá-las tanto quanto outros profissionais de saúde.
  • Assim como em outros países, muitas das farmácias brasileiras já contam com estrutura para aplicação de injetáveis e prestação de outros serviços. A estrutura adicional necessária prevista na nova norma, que é a mesma para todos os estabelecimentos, também estará disponível nas farmácias.
  • O que acontece em todo o mundo é que, com a aplicação de vacinas em farmácias, o acesso ao serviço aumenta e o preço cai consideravelmente, em razão da concorrência. Na região de Ontário (Canadá), por exemplo, a economia para o sistema de saúde foi da ordem de 41,81% no primeiro ano, graças ao aumento da cobertura vacinal.
  • No Brasil, uma vacina de gripe, que tem o custo de R$ 39, é aplicada nas clínicas privadas, de propriedade de médicos, por até absurdos R$ 180, um sobrepreço de mais de 300%. Este, por sinal, é o principal temor de médicos e das associações que os representam.
  • Por fim, a decisão da Anvisa, em atendimento à Lei 13.021/14, que permitiu a prestação de novos serviços em farmácias, inclusive de vacinação, coloca o Brasil no mesmo nível de muitos outros países. Possibilita acesso com segurança e garantia de qualidade de fornecimento à população.

Cobrar ou não pelo serviço?

Os benefícios que a expansão do modelo de farmácias clínicas tem trazido aos brasileiros é incontestável. Entretanto, a pergunta que fica é: deve-se ou não cobrar pelo serviço?
Na opinião da farmacêutica com habilitação em indústria, especialista em gestão farmacêutica, Atenção Farmacêutica e farmacoterapia clínica e professora adjunta da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Camila de Albuquerque Montenegro, a cobrança deve ser, sim, realizada, visto que este serviço envolve custos para a implantação, elaboração de planos de ação, treinamentos, além da atribuição clínica que será uma função a mais do farmacêutico.
“Diante de tantos esforços, é necessário gratificar o pessoal envolvido na idealização e prestação dos serviços”, pondera.
O especialista em Treinamento & Desenvolvimento e diretor do Instituto Pedro Dias – Consultoria Empresarial e Coaching, Pedro Dias, acredita, igualmente, que o serviço deva ser cobrado.
Além disso, incentiva que sejam implementados, entre essas farmácias, indicadores de produtividade entre os farmacêuticos, contemplando: tempo da consulta, conversão em atendimentos, prescrições realizadas, satisfação do cliente, entre outros.
“Esse profissional deve ser mensurado, para que ele mantenha esse serviço sustentável para a empresa, contribuindo para sua empregabilidade, para a perenidade do negócio e para a saúde da população brasileira.”
A cobrança pela consulta farmacêutica tem variado entre R$ 30 e R$ 50, por 20 a 30 minutos. A aferição da pressão arterial oscila de R$ 2 a R$ 15; e a aferição da glicemia costuma ir de R$ 8 a R$ 15. Esses são preços médios e existem, inclusive, farmácias que não cobram pelos serviços prestados.

Farmácias em movimento

Ainda que a regulamentação tenha acontecido há pouco tempo, as redes já começam a se manifestar positivamente. É o caso da Drogasil que começou a oferecer a aplicação de vacinas em sua unidade na Rua Pamplona [São Paulo (SP)]. Esse é um dos primeiros casos de imunização com autorização da Vigilância Sanitária.

Em um primeiro momento, a vacinação será feita somente em adultos. Estão disponíveis imunizações para febre amarela, hepatite B, herpes-zóster e HPV. A aplicação é feita diretamente na loja com a apresentação de receita médica (no caso de herpes-zóster e HPV).

“A aplicação de vacinas em farmácias é um enorme benefício para a população brasileira, pois amplia o acesso e reduz o custo deste importante serviço de saúde. Nossos farmacêuticos estão aptos a fazer a aplicação com toda qualidade e confiabilidade e as nossas lojas estão equipadas com toda a infraestrutura que este serviço requer”, finaliza o presidente da empresa, Marcilio Pousada.

Foto: Shutterstock

Protagonistas do consumo

Edição 303 - 2018-02-01 Protagonistas do consumo

Essa matéria faz parte da Edição 303 da Revista Guia da Farmácia.