
Um sorriso saudável é mais do que um símbolo de beleza. Ele é um retrato fiel do equilíbrio interno do corpo e reflete hábitos, emoções e até condições de saúde que muitas vezes passam despercebidas.
Assim como o organismo está em constante transformação, a boca também muda ao longo da vida, exigindo cuidados contínuos e específicos em cada fase para se manter em perfeita harmonia.
Segundo o mestre e doutor em Dentística pela Universidade Estadual Paulista de São José dos Campos (UNESP-SJC) e pesquisador e palestrante da Curaprox Academy, Prof. Dr. Ricardo Amore, todos os dias são criados ambientes contaminados por centenas de espécies de bactérias.
“Essas bactérias formam o biofilme oral, uma película que precisa ser controlada para que os tecidos de suporte do dente, como gengiva e osso, não sofram processos inflamatórios.” Por isso, explica o especialista, a higienização deve ser diária, duas ou três vezes ao dia, durante toda a vida.
Como lembra o especialista em Dentística e convidado do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), Dr. Camillo Anauate Netto, a boca acompanha as mudanças biológicas e hormonais que ocorrem ao longo da vida. “Da infância à terceira idade, o tipo de cuidado e até os instrumentos utilizados evoluem conforme as necessidades e os hábitos do paciente.”
HÁBITOS COMEÇAM NA INFÂNCIA
A infância é a fase em que se constrói o alicerce de uma vida saudável. Nessa etapa, a conscientização sobre higiene bucal é responsabilidade compartilhada entre dentistas e familiares.
“É preciso ensinar a técnica correta de escovação, estimular o hábito e, acima de tudo, supervisionar. Crianças tendem a ingerir mais açúcar e ainda não têm habilidade motora para higienizar bem os dentes”, afirma o Prof. Dr. Amore. Ele lembra que os dentes decíduos, os chamados “de leite”, têm menor concentração mineral e são mais vulneráveis à ação ácida das bactérias.
Outros especialistas concordam. A Dra. Thamara Maluf, do Centro Universitário Integrado de Campo Mourão (PR), reforça que o flúor tem papel essencial nesta fase, pois “atua na remineralização do esmalte, fortalecendo o dente contra o ataque dos ácidos e reduzindo a incidência de cáries”.
A professora assistente da São Leopoldo Mandic, Dra. Gabriela Nicolellis, acrescenta que o acompanhamento precoce potencializa os resultados. “A visita ao dentista deve ocorrer ainda nos primeiros meses de vida. Assim, o profissional orienta sobre alimentação, uso do flúor e desenvolvimento craniofacial, evitando problemas futuros.”
A supervisão profissional também é peça-chave. “Desde os primeiros meses, o cirurgião-dentista deve acompanhar a criança. Nos primeiros anos, as visitas podem ocorrer trimestralmente, sendo ajustadas conforme o desenvolvimento e a higiene”, destaca o Prof. Dr. Amore.
Pequenos gestos, como transformar o momento da escovação em um ritual divertido, ajudam a consolidar o hábito. “A ida ao dentista e a escovação devem ser vistas como momentos de prazer e não de obrigação”, justifica a cirurgiã-dentista da Clínica Juliana Búrigo, Dra. Juliana Búrigo.
DESAFIOS DA ADOLESCÊNCIA
Se manter bons hábitos já é um desafio na vida adulta, imagine na adolescência, fase marcada por mudanças hormonais, estéticas e comportamentais. É também o momento em que o uso de aparelhos ortodônticos se torna frequente, tornando a higienização mais complexa.
“Os bráquetes e fios dos aparelhos criam áreas retentivas para o biofilme bacteriano. A limpeza deve ser redobrada e feita com escovas interdentais, escovas ortodônticas ou elétricas e fio dental com passa-fio”, explica a especialista em periodontia do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), Dra. Janaína Bononi Rossin.
O Prof. Dr. Amore acrescenta que os alinhadores transparentes, embora esteticamente vantajosos, também merecem atenção. “Devem ser higienizados com espumas específicas, que atuam na hidratação dos tecidos, na redução da sensibilidade e na conservação do material.”
De acordo com o membro da Câmara Técnica de Ozonioterapia do CROSP, Dr. Fernando Taí, o uso de escovas elétricas nessa fase é especialmente vantajoso. “Esses produtos controlam a pressão sobre as gengivas, facilitam a higiene entre os bráquetes e aumentam a adesão dos adolescentes à rotina de escovação.”
Além do cuidado técnico, há um componente essencial: disciplina. “Manter o adolescente motivado é o principal desafio”, analisa a Dra. Tatiana Vilela, da AltroVilela Odontologia. “Produtos de qualidade, orientação próxima e consultas regulares ajudam a garantir adesão à rotina de limpeza.”
ROTINA NA FASE ADULTA
Nesse período, o cotidiano acelerado é o maior inimigo da saúde bucal. É quando o estresse e a negligência se tornam portas de entrada para doenças gengivais e periodontais.
Para o periodontista do Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim” (CEJAM), Dr. Marcelo Fonseca, condições sistêmicas, como diabetes e doenças cardiovasculares, podem agravar quadros inflamatórios bucais.
“A interligação é bidirecional: doenças crônicas prejudicam a gengiva e infecções orais podem piorar o controle de glicemia ou aumentar o risco cardiovascular.”
O estresse também é um vilão oculto. “Ele aumenta a liberação de cortisol e reduz a imunidade local, favorecendo processos inflamatórios e o bruxismo”, lembra o Prof. Dr. Amore.
A prevenção, portanto, vai além da escova e do fio dental. Inclui controle emocional, alimentação equilibrada, consultas periódicas e uso de produtos adequados.
“Escovas ultramacias, cremes dentais sem lauril sulfato de sódio (SLS) e com nanopartículas de hidroxiapatita protegem o esmalte e reduzem a sensibilidade”, complementa o especialista.
Fonte: Guia da Farmacia
Foto: Shutterstock