
Sorrir é um ato simples. No entanto, à medida que o tempo passa, o sorriso também envelhece. Assim como a pele, os dentes e gengivas sofrem alterações com os anos, e o cuidado bucal se torna parte essencial para preservar não só a estética, mas a saúde como um todo.
De acordo com especialistas, o avanço da idade, por si só, não é sinônimo de perda dentária. Essa consequência está ligada, sobretudo, a hábitos inadequados, doenças não controladas e falhas na higiene oral.
“A perda dentária em idosos está geralmente associada a doenças periodontais, cáries não tratadas e traumatismos”, explica a coordenadora do curso de Odontologia do Centro Universitário Integrado de Campo Mourão (PR), Profa. Thamara Maluf. Ela lembra que fatores como diabetes e uso de medicamentos que reduzem o fluxo salivar também contribuem para a deterioração da saúde bucal.
Segundo o cirurgião-dentista e supervisor de Relações Públicas da Neodent, Dr. João Piscinini, as principais doenças associadas à perda dentária, como a cárie e a periodontite, são multifatoriais.
“Elas se desenvolvem por uma combinação de dieta, higiene bucal inadequada e doenças sistêmicas”, enumera, reforçando que o envelhecimento não é condenação automática à perda dos dentes: é possível envelhecer com uma dentição íntegra, desde que a prevenção seja prioridade.
A cirurgiã-dentista especializada em Cirurgia e Traumatologia, Dra. Juliana Búrigo, destaca que a perda da motricidadee da cognição em idosos pode dificultar a escovação e, consequentemente, agravar o quadro. “Por isso, a atuação dos cuidadores é essencial na manutenção da higiene bucal dessa população”, disse.
SINAIS DE ALERTA
Sangramento gengival, retração, dor ao mastigar e até mobilidade dentária são avisos de que algo não vai bem. “O farmacêutico deve orientar o paciente a procurar um cirurgião-dentista rapidamente, pois esses sinais indicam inflamação ou destruição dos tecidos de suporte dos dentes”, ressalta a Profa. Thamara.
Em muitos casos, uma boa escovação, o uso de fio dental e cremes dentais com flúor são suficientes para evitar a progressão da doença.
Dr. Piscinini reforça que o profi sional da farmácia pode contribuir com orientações práticas e reforçar a importância do acompanhamento regular. “Anti-inflamatórios ou analgésicos só devem ser usados sob prescrição, e o farmacêutico pode orientar quanto aos hábitos de higiene”, sugere.
QUANDO O DENTE “RECLAMA”
A sensibilidade dentária é outro desafio frequente. É o alerta de que algo está expondo a dentina, a camada interna do dente, à ação externa. “Essa exposição pode ser causada por retração gengival, desgaste do esmalte, uso de cremes dentais abrasivos ou até mesmo pelo bruxismo”, explica a Profa. Thamara.
Dra. Juliana complementa que trincas dentárias e retrações acentuadas também favorecem esse quadro. “Cremes dentais e enxaguantes com cloreto de estrôncio, oxalato de potássio ou fluoreto de sódio ajudam no bloqueio dos estímulos.”
De acordo com o Dr. Piscinini, a sensibilidade leve pode ser revertida quando as causas são identificadas. “O uso constante de cremes específicos e intervenções pontuais, como aplicações de flúor, laserterapia e restaurações nas áreas expostas, contribuem para restaurar o conforto do paciente”, conclui.
IMPACTOS DA GENGIVITE
“As duas principais causas de perda de dentes em idosos são a periodontite, uma inflamação crônica do osso e gengiva; e a cárie radicular”, constata a cirurgiã-dentista da Clínica AltroVilela, Dra. Tatiana Vilela. Ambas têm início na gengivite, uma inflamação tratável, mas que facilmente se transforma em um quadro grave.
“A gengivite é causada pelo acúmulo de placa bacteriana e pela escovação inadequada”, acrescenta a Profa. Thamara.
Sangramento durante a escovação e mau hálito estão entre os primeiros sinais. No caso de pacientes com doenças sistêmicas, a atenção deve ser redobrada.
“O diabetes, por exemplo, aumenta a inflamação gengival e dificulta a cicatrização, criando um ciclo vicioso entre a gengivite e o descontrole glicêmico”, ressalta.
A Dra. Juliana lembra que doenças que afetam o sistema imunológico amplificam os riscos. “Uma quantidade de placa tolerável para uma pessoa saudável pode desencadear inflamações severas em diabéticos.”. Por isso, o farmacêutico tem papel essencial ao aconselhar o uso de escovas macias, fio dental e enxaguantes antissépticos uma vez ao dia, reforçando a importância da avaliação odontológica.
CUIDADOS COM AS PRÓTESES
Se o sorriso natural se vai, as próteses devolvem a função, desde que bem cuidadas. “As próteses totais ou parciais removíveis precisam ser limpas em água corrente após cada refeição, usando escovas específicas e cremes não abrasivos. Também é importante deixá-las fora da boca à noite, para o descanso da mucosa”, explica a Profa. Thamara.
O Dr. Piscinini reforça que “a placa bacteriana pode causar inflamação ao redor dos implantes, a peri-implantite,comprometendo resultados duradouros se não houver higienização adequada”.
Já a Dra. Juliana recomenda atenção às próteses mal adaptadas, que costumam causar feridas e mau hálito. “O uso contínuo sem descanso prejudica os tecidos de suporte e favorece infecções.”
No balcão da farmácia, há diversas ferramentas que auxiliam nesses cuidados, entre escovas específicas, soluções de limpeza e comprimidos efervescentes para a imersão das próteses. “Esses produtos são complementares à rotina de higiene, mas não substituem o acompanhamento clínico anual”, destaca o Dr. Piscinini.
ALÉM DO MAU HÁLITO
O mau hálito ainda é um tabu, mas sua origem costuma ser simples e tratável. Aproximadamente 90% dos casos têm origem na boca.
“Placa bacteriana, saburra lingual, cáries, gengivite ou próteses mal higienizadas são os principais vilões”, explica a Dra. Tatiana. Contudo, também é preciso considerar a origem gástrica.
“Com exames de periodontia e endoscopia, é possível diferenciar as origens e tratar adequadamente”, pontua a Dra. Juliana.
Nesses quadros, a Profa. Thamara aconselha que o farmacêutico aborde o tema com empatia, explicando que o mau hálito é comum e tem solução. Ela recomenda sempre direcionar o paciente ao dentista, especialmente se o problema persistir. Quanto ao uso de produtos, o Dr. Piscinini explica que sprays, balas e gomas aromatizadas apenas mascaram o odor. “Os limpadores linguais, pastas com flúor e agentes antissépticos ajudam a controlar as causas”, diferencia.
CLAREAMENTO E ESTÉTICA
O escurecimento natural dos dentes é parte do envelhecimento, resultado do desgaste do esmalte e da exposição da dentina. Bebidas como café, chá e vinho, além do tabagismo, aceleram o processo. Entretanto, clarear os dentes continua sendo um desejo cada vez mais presente entre os pacientes.
“O clareamento caseiro é seguro quando feito sob supervisão profi sional, com produtos aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”, explica a Dra. Juliana. Ela alerta que o uso de receitas caseiras pode causar danos irreversíveis.
Outro ponto importante é avaliar a origem das manchas. “Nem todos os tipos de escurecimento reagem ao clareamento, e o diagnóstico é indispensável para evitar frustrações e prejuízos ao esmalte”, pondera a Dra. Tatiana.
Fonte: Guia da Farmacia
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