
Uma ideia inovadora, pouco tempo de vida e potencial de crescimento em escala são alguns dos principais ingredientes necessários para criar uma startup. O novo termo, tão na moda, usa a inovação tecnológica ou de modelo de negócios como diferencial competitivo em relação a empresas tradicionais.
O diretor de produtos da WebFarmas, Pedro Henrique Silva Antunes, explica que, para uma startup, é mais importante o market share do que propriamente o lucro, pois como ela possui uma estrutura enxuta e barata, mesmo receitas mínimas são lucrativas.
Dessa forma, a startup propõe soluções que desafiam o status quo, impossibilitando que empresas tradicionais e com uma estrutura “pesada” copiem seu modelo.
Essa característica é a responsável pelas mudanças que já se podem observar no dia a dia com empresas que, hoje, são conhecidas em todo o mundo. É o caso do WhatsApp, que mudou a indústria de mensagens pelo celular; o Netflix, que “matou” a extinta Blockbuster; a Uber e até o Airbnb, que influenciou diretamente o mercado de hotéis.
Mas não apenas as gigantes fazem a diferença no dia a dia da população. Em todo esse universo, diferentes startups de saúde ganham destaque no mercado brasileiro e mundial.
“Hoje, as health techs são muito bem-aceitas e procuradas pela população. Startups que ajudam na saúde e bem-estar estão se destacando exatamente por suprir deficiências ligadas à saúde da população”, comenta o CEO da Farmácia do Bem, Marcelo Abreu.
Além disso, a atratividade do mercado justifica-se pelo índice de crescimento do setor, que mesmo em um cenário de crise, se viu menos afetado. Em 2015, segundo dados da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), os gastos das famílias brasileiras com saúde chegaram a R$ 115 bilhões.
Facilidades para a saúde
Os gastos, em conjunto com a burocracia e altos custos, criaram uma oportunidade de negócio. Já existem plataformas que reúnem profissionais de saúde, laboratórios e pacientes em um só lugar – para que possam oferecer e buscar por serviços.
“A Doutor123 chega ao mercado com um conceito de marketplace de serviço e oferece uma rede com profissionais de saúde, clínicas e laboratórios que podem se cadastrar sem qualquer custo e atender com consultas e exames a preços que cabem no bolso da população”, comenta o CEO da Doutor123, Maurício Trad.
Há, ainda, quem use do conceito de economia compartilhada para repassar valores mais baixos à população, sem deixar de lado o pagamento justo dos médicos. É o caso do Dandelin, que foca na democratização da saúde no Brasil. Na plataforma, os membros da comunidade dividem, igualitariamente, os custos reais da saúde mensalmente.
Inovação no consumoAs tecnologias podem influenciar a forma de consumo no varejo farmacêutico. A principal transformação em curto prazo talvez seja na automação do processo de compra. Ou seja, ao invés de ir até o estabelecimento para comprar seus medicamentos, é possível, por meio da coleta de dados, enviar os itens necessários para o consumidor antes de ele ter a necessidade. Sabendo quantas pessoas precisarão dos produtos, é possível racionalizar o estoque e, consequentemente, reduzir o tamanho físico das farmácias, otimizar a produção e, possivelmente, diminuir os preços dos medicamentos. Fonte: CEO do Dandelin, Felipe Burattini |
“Com isso, além de conseguir reduzir expressivamente os gastos que cada pessoa tem mensalmente para ter acesso a serviços de saúde, conseguimos aumentar em mais de 50% o valor da consulta para os médicos em comparação com o repasse efetuado pelas seguradoras”, comenta o CEO da empresa, Felipe Burattini.
De acordo com o diretor da Digital Law of Attraction, Fernando Cascardo, a saúde é uma das prioridades para o consumidor, sendo que 75% da população modifica sua dieta para cuidar da saúde, 63% busca perder peso fazendo exercícios e 80% seleciona ativamente alimentos que ajudem a prevenir problemas de saúde.
Dados como esses ajudam o setor a crescer em diversas frentes, tanto de tecnologia, novos produtos, equipamentos e em inovações de medicina preditivas. Entre as plataformas mais conhecidas, estão prontuário e receituário eletrônicos; exames remotos; automação da jornada do paciente; agenda do médico; aplicativos de bem-estar; entre outros.
“As startups que investem nesse setor buscam, por meio da tecnologia, melhorar a qualidade da vida das pessoas, ajudando a se organizar e economizar tempo. Por meio de um aplicativo, é possível escolher um restaurante que tenha comida saudável, sem ter de se deslocar até ele. É possível gerenciar o uso de medicamentos que uma pessoa idosa ou filhos devem tomar, usando um smartphone”, exemplifica.
Farmácias nesse universo
Se todo o setor de saúde é gigante, ao se fazer um recorte para o canal farma, também há uma infinidade de oportunidades de novos negócios. Diferentes tecnologias são lançadas para ajudar o consumidor a achar os melhores preços, descartar corretamente medicamentos, encontrar a farmácia mais perto e até facilitar o delivery.
O diretor de produtos da WebFarmas comenta que, atualmente, o mercado on-line de farmácias é liderado por três grandes farmácias digitais, que compartilham uma economia de mais de R$ 4 bilhões anuais. O cliente recebe, normalmente, o medicamento em três dias úteis e paga um valor de frete.
Além disso, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) só permite a venda de medicamentos e perfumaria no site da rede de farmácias (descartando qualquer marketplace ou site agregador).
“A WebFarmas detecta a localização do usuário, calcula qual a loja mais próxima dele e mostra o preço do produto exatamente como é vendido naquela loja em tempo real. O comprador monta o seu carrinho e o pedido é enviado para a loja mais perto, que receberá a solicitação e entregará ao comprador como um pedido por telefone, em minutos, sem frete e sem necessidade do balconista analisar manualmente cada preço de produto”, revela o executivo.
Um dos maiores problemas das farmácias e dos consumidores é a ruptura de estoque. Ao não encontrar um produto, o cliente, além de perder seu tempo, acaba deixando de ir a determinada loja. Pensando nisso, a GoPharma reúne o estoque de itens de mais de 30 mil farmácias e permite que o usuário pesquise o produto que deseja comprar antes de ir a um estabelecimento.
As dez maisO Portal Entrepreneur listou as 100 startups mais brilhantes em 2016 e dez delas são da área de saúde. São elas: • Akili Interactive Labs: ferramenta de jogos para tratar pacientes com Alzheimer e Transtorno do Déficit de Atenção (TDAH). • Care At Hand: prevê o risco de hospitalização do paciente entre as visitas ao médico, fazendo a comunicação entre os cuidadores e os profissionais da saúde. • Lola: empresa formada por mulheres que vende absorventes de algodão 100% natural e aplicadores de plástico sem Bisfenol A (BPA). • Oscar: seguro saúde com linguagem fácil e explicação simplificada dos benefícios. • Vitals: premia consumidores responsáveis do seguro saúde. • Iodine: cria aplicativos para ajudar pacientes a entender doenças específicas e as propriedades dos medicamentos disponíveis. • Livongo: aplicativo que ajuda a monitorar remotamente sinais dos pacientes, funciona como glicosímetro e pedômetro. • Celmatix: processa dados médicos de milhares de mulheres para prever quais tratamentos de fertilidade são melhores para resultar em uma gravidez de forma personalizada. • Emulate: realiza pesquisa em medicamentos e testa em microchips que simulam órgãos humanos. • Hometeam: oferece cuidados homecare para idosos com o oferecimento de um iPad a cada família, por meio do qual são fornecidas atualizações regulares sobre a saúde do paciente. Fonte: Prêmio Empreenda Saúde |
Segundo a InterPlayers (criadora do aplicativo), foram adotados dois modelos. No primeiro, os dados de abastecimento dos pontos de venda (PDVs) foram integrados ao marketplace da empresa e, por meio de um algoritmo, é possível identificar o tempo que a farmácia normalmente tem o produto em estoque até realizar um novo abastecimento. No segundo modelo, a farmácia informa periodicamente os produtos disponíveis em seu estoque. Atualmente, 18 redes informam a disponibilidade de estoque.
Assim como muitos se preocupam com o acesso à saúde, o mesmo acontece na entrega de medicamentos. A plataforma da Farmácia do Bem representa uma solução para a gestão inteligente do uso e distribuição de medicamentos. A empresa coleta sobras de medicamentos que a população tem em casa, dentro do prazo de validade, assim como doações de médicos e da indústria.
Os usuários acessam nossa plataforma, realizam um cadastro e pesquisam pelo medicamento desejado. Caso esteja disponível, só é necessário solicitá-lo gratuitamente. Para isso, é obrigatória a apresentação da receita médica ou odontológica. Além disso, a companhia descarta corretamente os medicamentos vencidos.
Gigantes e pequenos juntos
Olhando o potencial inovador das novas empresas, a indústria tradicional começa a criar laços. É o caso da Eurofarma, que acaba de lançar o programa Synapsis, em parceria com a Endeavor. Em um primeiro momento, a iniciativa selecionará 12 startups voltadas à inovação na área de saúde para receber apoio e acelerar o seu crescimento.
As empresas selecionadas terão acesso a mentorias com a rede Endeavor e acesso a empreendedores em estágio de crescimento semelhante. Além disso, poderão alavancar seu negócio ao tomar contato com informações e tendências no setor de saúde – amplamente auditado, coaching em áreas de suporte, como marketing, vendas e logística e acesso à rede de relacionamento da Eurofarma.
“Temos investido 6% das nossas vendas líquidas em Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) de medicamentos, mas a inovação ultrapassa a questão de novos produtos. Outro ponto é que a Eurofarma, sozinha, assim como outras empresas de diversos setores, sabe que não tem capacidade de inovar dentro de toda a cadeia na velocidade ideal e as startups têm muito a ensinar”, frisa a vice-presidente de sustentabilidade e novos negócios do laboratório, Maria Del Pilar Muñoz.
Para a executiva, esse novo movimento já é claro em países, como os Estados Unidos, onde há cada vez mais startups no setor surgindo e apetite de investimento por parte dos fundos. No Brasil, existem muitas oportunidades quando pensadas as ineficiências de toda a cadeia do setor, portanto, a tendência é de que apareçam cada vez mais startups, incluindo entrantes estrangeiros.
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