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Tossir por mais de três semanas é perigoso

Embora o problema seja um processo natural do aparelho respiratório, é preciso reconhecer quando ele é sinal de alguma doença mais séria

Em geral, a tosse é vista com “maus olhos” pela população, que costuma recorrer a fórmulas caseiras sem qualquer comprovação científica, para acabar de uma vez por todas com o incômodo. Normalmente, o ato de tossir é um mecanismo natural de defesa do organismo que nos ajuda a eliminar o muco (catarro) e as substâncias irritantes das vias aéreas, evitando que esses resíduos invadam o pulmão e causem doenças mais graves, explica o pneumologista da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), Dr. Jairo Araújo.

“Em princípio, não devemos combater a tosse com medicamentos, especialmente os antitussígenos. Entretanto, quando ela passa a ser um problema e dura mais de três semanas, é aconselhável investigar a causa e tratá-la.”

Com a chegada do inverno, há um aumento significativo das infecções e das alergias respiratórias por conta do clima frio e seco associado à poluição das grandes metrópoles. Resultado? Além de a qualidade do ar ficar péssima para as vias respiratórias, as pessoas passam a frequentar ambientes fechados e ficam mais próximas umas das outras, tornando quase inevitável a transmissão dos quadros virais, principalmente resfriados e gripes.

Além da coriza, mal-estar e, em alguns casos, febre, as infecções virais costumam vir acompanhadas de tosse. E ao contrário do que a população acredita, isso é muito positivo, garante a pneumologista pediátrica do Hospital Infantil Sabará, em São Paulo (SP), Dra. Maria Helena Bussamra.

“Como essas infecções respiratórias geram um aumento na produção de muco, o ato de tossir é uma forma de eliminar esse catarro lotado de vírus, por isso não devemos inibi-la de forma nenhuma.”

A especialista explica que quando há catarro, a tosse é chamada de produtiva ou secretiva. Por outro lado, quando não há produção de muco, ela é considerada seca e popularmente apelidada de “tosse de cachorro”.

“Em geral, a tosse seca está relacionada com uma irritação da laringe e pode vir acompanhada de rouquidão. Tanto essa tosse pode evoluir para a produtiva como vice-versa. Não há regra.”

Segundo a Dra. Maria Helena, uma pessoa saudável que mora em cidades grandes pode apresentar tosse 50 dias durante o ano simplesmente por conta da qualidade do ar. Em circunstâncias normais, quando a tosse é passageira, não ultrapassa três semanas.

Tratamento da tosse

Com ou sem catarro, a tosse é um processo bem incômodo. Por isso, a busca por xaropes, pastilhas, balas e sprays de garganta torna-se mais intensa nesta época do ano. Entretanto, como reforçaram os especialistas ouvidos nesta reportagem, o ato de tossir é um mecanismo natural do organismo que nos ajuda a eliminar o catarro e os agentes irritantes das vias aéreas.

Por isso, antes de recorrer às medicações sem prescrição médica, é preciso saber os prós e contras de cada uma delas. Os antitussígenos, como a codeína e o dextrometorfano, não devem ser usados para as infecções virais, alerta o pneumologista pediátrico da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Dr. Raí André Silva Watanabe.

“Os efeitos adversos dos antitussígenos afetam especialmente o Sistema Nervoso Central (SNC). A codeína pode causar sonolência, depressão respiratória e, eventualmente, óbito. Além da depressão respiratória, o dextrometorfano também pode desencadear alterações comportamentais.”
Sobre os expectorantes e mucolíticos, o Dr. Watanabe avisa que “não há comprovação científica de benefícios em crianças, assim como de vaporização com aromáticos (cânfora, mentol, eucalipto)”.
A recomendação, de acordo com o médico, é tratar os sintomas para aliviar a irritação das vias aéreas. O primeiro passo é fazer uma adequada hidratação oral, repetir a limpeza nasal mais vezes ao dia e consumir alimentos quentes, como chás e sopas.

Sobre o uso de balas e pastilhas para aliviar a irritação da garganta, o médico da Unifesp avisa que é necessário ter muito cuidado, especialmente com as mais duras, pelo risco de aspiração. Nesse caso, ele aconselha que esses produtos sejam administrados somente em crianças maiores de seis anos de idade ou adultos.

Em geral, quando a tosse está relacionada a quadros virais, ela tende a acontecer mais à noite e no início da manhã, conforme explica o pneumologista pediátrico da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Dr. Raí André Silva Watanabe.

“Isso tem a ver com o gotejamento pós-nasal quando o paciente deita, já que a secreção acumulada na concha nasal e nos seios da face cai na garganta ao deitar. Por outro lado, no período da manhã, a tosse limpa o muco que se instalou nas vias aéreas durante a noite.”

No caso das alergias respiratórias, como a asma, as crises noturnas têm relação com a baixa produção do ciclo de cortisol. Com isso, esclarece o Dr. Watanabe, há maior possibilidade de haver inflamação brônquica e consequente broncoespasmo, causando a tosse nesse período.

A médica do Hospital Infantil Sabará acrescenta a importância de avaliar o histórico de alergias do paciente para identificar se o problema vem do nariz ou do pulmão, porque “os tratamentos são totalmente diferentes e devem ser seguidos por longo prazo”, alerta. A especialista complementa: “A boa notícia é que a tosse e os outros sintomas provenientes das alergias respiratórias melhoram significativamente e o paciente passa a ter mais qualidade de vida.”

Classificação das tosses

A tosse pode ser classificada pela duração.

  • Até três semanas: tosse aguda.
  • De três a oito semanas: tosse subaguda.
  • Mais de oito semanas: tosse crônica.

 

E também pela coloração e textura do catarro

  • Catarro fluído como saliva e transparente: sugere doença viral ou alérgica.
  • Catarro amarronzado e mais consistente: sugere infecção mais grave.
  • Catarro espesso e esbranquiçado (como leite condensado): sugere infecção bacteriana.
  • Catarro marrom escuro e espesso: sugere crise de Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) causada pelo cigarro.

Fonte: pneumologista da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), Dr. Jairo Araújo

E as causas de tosse não param por aí. Segundo lembra o Dr. Watanabe, outro motivo comum de tosse é pela doença do refluxo gastroesofágico, que piora com o corpo deitado.

“Nessa situação, há relação com o reflexo de tosse mediada pelo nervo vago e, menos frequentemente, com a microaspiração de material refluído do estômago.”

Entretanto, em todos os casos, a orientação é dormir com a cabeça e os ombros elevados para reduzir os efeitos da crise, ensina o médico da Unifesp.

Agora, se a tosse começar a ficar prolongada e se estender por mais de oito semanas, o conselho é procurar um especialista. Segundo o Dr. Araújo, ela tanto pode ser sintoma das alergias respiratórias (rinite, sinusite e asma) não tratadas adequadamente, como também de tuberculose, pneumonia e até câncer de pulmão.

Prevenir é importante

A prevenção da tosse está baseada em evitar as situações que causam o problema. Os resfriados e as gripes são os principais fatores de risco para as tosses de curto prazo (até três semanas), por isso é fundamental a vacinação contra a gripe, adverte o Dr. Watanabe.

“Além da vacina, é importante incluir hábitos de higiene na rotina, entre eles, cobrir a boca ao tossir, lavar as mãos frequentemente, não tocar os olhos e o nariz quando se está em ambiente público, evitar o contato com pessoas doentes, manter os ambientes arejados e limpos, hidratar o organismo e fazer a limpeza nasal com soro fisiológico, pelo menos, duas vezes ao dia.”

Agora, se a tosse estiver relacionada a agentes ambientais irritantes, como poeira, pólen, pelos de animais domésticos, produtos químicos industriais e poluição, fumaça e baixa umidade ambiental, é fundamental evitar estas substâncias e seguir o tratamento adequado da alergia respiratória, seja ela asma, rinite ou sinusite.

E, por fim, se a tosse for causada pela exposição ao cigarro, o primeiro passo é orientar o paciente a abandonar o vício de uma vez por todas.

Foto: Shutterstock

Conhecimento é Tudo!

Edição 319 - 2019-06-06 Conhecimento é Tudo!

Essa matéria faz parte da Edição 319 da Revista Guia da Farmácia.