Retrospectiva 2016: Um ano de transição

O mercado observa atentamente os passos do novo presidente da república, Michel Temer

No ano de 2009, quando o Brasil ainda era governado por Luiz Inácio Lula da Silva, um Cristo Redentor em ascensão estampou a capa da revista britânica The Economist, junto a um editorial de 14 páginas que afirmava que o País havia conquistado seu espaço no cenário mundial. Na ocasião, a recente escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016 foi considerada o marco simbólico da força dessa potência emergente.

As Olimpíadas, de fato, ocorreram em solo brasileiro, mas em um cenário muito diferente daquele desenhado pela publicação britânica há sete anos. Desde que Dilma Rousseff assumiu a presidência da República em 2011, os rumos da economia começaram a mudar, até atingir uma grave crise durante o segundo mandato, iniciado em 2015 e interrompido precocemente por meio de um processo de impeachment.

De acordo com o economista Ricardo Amorim, em palestra no Fórum de Beleza Beauty Fair, a ex-presidente tomou uma série de decisões equivocadas, que fizeram o País acompanhar a retomada da inflação, um desemprego assustador, alta do dólar, fuga do capital estrangeiro, entre outras mazelas. 

Ao mesmo tempo em que a economia afundou, a ponto do mesmo Cristo Redentor ser novamente capa da The Economist, mas, dessa vez, em queda, a Operação Lava Jato expôs um dos maiores esquemas de corrupção já descobertos no País. Dilma sofreu um processo de impeachment e Michel Temer assumiu a presidência.

O resultado de todas essas turbulências políticas e econômicas foi de um ano desafiador. No entanto, agora a expectativa é de que 2016 se encerre de maneira menos ruim do que o esperado antes da saída da ex-presidente Dilma. Ainda que se veja um horizonte mais azul adiante, muitos problemas seguem sem solução. A indústria farmacêutica, por exemplo, deve fechar o ano com crescimento abaixo da inflação. Um dos grandes vilões do setor é o desemprego, que afeta os usuários de planos de saúde e, consequentemente, a venda de medicamentos na ponta. 

Além disso, toda a indústria enfrenta uma crise de queda de rentabilidade. “Nos últimos três anos, perdemos muita rentabilidade por conta da alta do dólar, dos custos trabalhistas, da tributação. Isso tem impactado muito o setor. Sabemos que temos de apertar o cinto como toda economia do País”, revela o presidente executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma-SP), Nelson Mussolini. 

O governo atual tem se mostrado disposto a propor novas soluções para antigas questões, mas há quem ainda se mantenha receoso quanto às iniciativas.  

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Resumo da saúde

Enquanto os economistas estão satisfeitos com os primeiros passos do governo Temer, as entidades da área da saúde também se mostram aliviadas com o tratamento dado ao setor. A princípio, a chegada de uma nova na liderança no ministério, com as mudanças efetuadas por Temer, deixou todos apreensivos. 

Nos últimos dois anos, a pasta já havia sofrido três mudanças no comando, até que Ricardo Barros (PP-PR), engenheiro civil que ocupava uma cadeira na Câmara dos Deputados, foi o escolhido de Temer. “O ministro está pouco tempo à frente da Pasta, mas já temos um diálogo muito transparente. Ele coloca de forma muito clara as dificuldades que o Ministério está enfrentando e a necessidade de fazer uma renegociação do que o governo compra e da forma que compra. Também pudemos explicar nossos problemas e, assim, procurar soluções conjuntas”, garante Mussolini.

Nem mesmo a apresentação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241, que prevê um congelamento dos gastos públicos – incluindo Saúde – para os próximos 20 anos, tira a confiança da indústria farmacêutica no novo governo. Mussolini se mostra tranquilo em relação à medida, que está perto de ser aprovada no Senado Federal. 

“Temos de ter isso. Não há que se discutir uma possível perda de direitos sociais. O Brasil foi obrigado a tomar esse remédio amargo, porque estava numa situação muito ruim”, defende. 

Para Mussolini, a alternativa para reequilibrar as contas seria o aumento da arrecadação, por meio de impostos. Para ele, um remédio ainda mais amargo: “Nossa carga tributária já é extremamente alta pelos serviços que pagamos. Acho que o melhor a fazer é economizar, como parece que o governo está tentando agora”.

O executivo ainda garante que a Saúde não irá perder recursos. “Não adianta bater na tecla de que a Saúde precisa de 6% do Produto Interno Bruto (PIB). Se ele continuasse a cair, perderíamos muito mais dinheiro. Há instrumentos que garantem que a Saúde continue recebendo as verbas necessárias. As apresentações feitas pelo Ministério da Saúde mostram que temos um problema sério de gestão. Precisamos cuidar melhor do dinheiro do contribuinte. Isso vai, sem dúvida, melhorar a performance do País e poderemos melhorar o nível de saúde que temos hoje.” 

Outra questão que vem sendo debatida, ainda que com muito menos alvoroço, são as Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs) entre governo e indústrias farmacêuticas. “Percebemos que há um alinhamento muito claro de transformar políticas de Ministério em políticas de Estado. É isso que estamos enxergando com esse novo grupo que está comandando o País”, aponta Mussolini. 

O próximo ano será cheio de desafios e os próximos meses serão cruciais para os dois anos subsequentes.

Autor: Flávia Corbó 

 

Substituição Otimista

Edição 289 - 2016-12-01 Substituição Otimista

Essa matéria faz parte da Edição 289 da Revista Guia da Farmácia.

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