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Vacina contra Covid-19: é hora de esclarecer dúvidas

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou, durante coletiva de imprensa realizada em novembro último, que existe, sim, uma esperança de que as futuras vacinas contra o novo Coronavírus consigam, de fato, colocar um fim à pandemia da Covid-19 que, até o fechamento desta reportagem, já havia provocado a morte de mais 1,9 milhão de pessoas em todo o mundo.

Mas junto com toda a expectativa em relação à vacinação, surge uma série de dúvidas na população, a começar pela obrigatoriedade ou não da imunização. Na visão do médico e coordenador do Laboratório de Imunobiologia no Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia (MIP) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Prof. Dr. André Báfica, tanto a desinformação quanto a falta de liderança influenciam o comportamento atual de uma parcela dos brasileiros contra ao uso de vacinas anti-Covid-19.

“No tocante à desinformação, por exemplo, há uma grande quantidade de mitos ou fake news criados por grupos antivacinas e disseminados não só no Brasil, como no mundo. As evidências acumuladas de décadas de estudos sobre as vacinas indicam que a eliminação desta pandemia requer uma força uníssona da nossa comunidade com o uso de maneiras preventivas no combate à Covid-19”, diz o especialista, reforçando que, até o presente momento, as vacinas são formas eficientes e baratas de combate a agentes infecciosos, como o SARS-Cov-2.

A farmacêutica responsável pela Farmácia Universitária da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), Maria Aparecida Nicoletti, reforça que a hesitação e a relutância em relação à imunização levaram a OMS, em 2019, a classificar essa conduta como uma das 10 maiores ameaças à saúde global.

“A pandemia foi objeto de disputa de atenção política e, muitas vezes, com posições completamente contrárias ao pensamento científico. “Em decorrência disto, a desinformação tem um papel preponderante, levando a guerras ideológicas e trazendo como consequências somente malefícios”, conclui.

As vacinas são confiáveis?

Outra dúvida latente para a população é a confiabilidade em torno da vacina proposta. Afinal, a imunização contra o sarampo, por exemplo, demorou 10 anos para ser concluída. Então de que forma a vacina contra a Covid-19 pode ser produzida em tão pouco tempo?

O virologista delegado do Conselho de Biomedicina no Rio de Janeiro e coordenador do curso de Biomedicina do Instituto Brasileiro de Medicina e Reabilitação (IBMR), Raphael Rangel, lembra que as pesquisas contra o

Rompendo mitos sobre a vacinação

1. “Não é necessário fazer vacinação de doenças já quase erradicadas”

A vacinação impede que essas doenças voltem, mesmo que estejam quase erradicadas. O sarampo, por exemplo, é um caso de doença que estava controlada e cujos números voltaram a crescer porque uma parcela da população parou de se vacinar.

2. “Vacinas têm vários efeitos colaterais ainda desconhecidos”

Em geral, as vacinas não apresentam efeitos colaterais graves. Os casos agudos são raros e não puderam ser associados exclusivamente à vacina, uma vez que outros fatores, como a predisposição genética, também estão envolvidos.

3. “Vacinas contém mercúrio, que é perigoso para a saúde”

Algumas vacinas podem conter timerosal, um composto orgânico à base de mercúrio. Porém, a quantidade usada é muito baixa, alguns trabalhos mostram que, na alimentação, por exemplo, a dose ingerida de mercúrio é maior.

Fonte: imunologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, Dr. Alexandre Okamori

Coronavírus já acontecem desde a primeira epidemia de SARS em 2002. “Usaram esforços para aplicar as tecnologias nessa vacina contra a Covid-19 e pontuo que são diversos cientistas de todo mundo atrás da resposta da vacina. Sem dúvidas, isso acelera o processo”, esclarece.

Portanto, o conhecimento científico sobre o tema tem se dado de maneira gradual e cumulativo. “O desenvolvimento de vacinas, hoje, acumula uma quantidade enorme de dados, fracassos e acertos. Isso é a ciência. Assim, as vacinas em desenvolvimento estão sendo testadas e seguindo todos os protocolos requeridos por órgãos reguladores”, diz o Prof. Dr. Báfica.

Ele pondera que as vacinas podem, sim, gerar efeitos colaterais, e que alguns grupos de pessoas, como imunodeficientes, podem ter problemas mais sérios com as vacinas vivas atenuadas. Entretanto, existem diferentes tipos de imunização (por vírus atenuados, de subunidades, mRNA, com base em vetores, etc.) que, quando forem demonstradas seguras e aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), poderão ser utilizadas em diferentes grupos e não colocarão em risco a vida dessas pessoas.

Recentemente, o Instituto Butantan divulgou os dados completos sobre a eficácia da CoronaVac contra a Covid-19, por exemplo. Segundo revelado pelo governador do Estado de São Paulo, João Dória, a vacina atingiu eficácia global de 50,38% para casos muito leves, de 78% para leves e de 100% para moderados ou graves.

As expectativas são positivas inclusive em relação à nova cepa. Especialistas na área têm afirmado que as vacinas CoronaVac e de Oxford serão eficazes contra a variante do novo coronavírus encontrada em brasileiros que embarcaram no Amazonas rumo ao Japão.

Como deve ser a segunda onda?

Os números crescentes de Covid-19 no Brasil são muito preocupantes. Até o fechamento desta reportagem (14/01), eram 8.270.655 pessoas infectadas e 206.188 mortes e com números cada vez mais altos, dia após dia.

“Temos uma sensação de desgaste que a população passa e que deve agravar um pouco os resultados da segunda onda, uma vez que as pessoas fizeram muito distanciamento social e isolamento dentro das suas casas e existe muita impaciência do ser humano em relação a isso”, analisa o CEO da Ponto Care, Guilherme Torres.

Na visão do Prof. Dr. Báfica, a flexibilização das medidas de isolamento tem contribuído de maneira significativa para um aumento da circulação do novo Coronavirus no País. “Os dados falam por si: na semana do dia 2 de novembro, tivemos 114 mil casos registrados e 2.538 mortes. Na semana do dia 26 de novembro, tivemos 218 mil casos registrados e 3.876 mortes. Se continuarmos assim, espera-se uma aceleração no aumento de mortes e um colapso no sistema de saúde”, pontua.

E a reinfecção pela doença já é uma realidade. De acordo com descobertas preliminares de um novo estudo liderado pela Public Health England (PHE), agência do governo britânico, apontou que pessoas que foram infectadas pelo novo coronavírus podem ter imunidade ao vírus por cerca de cinco meses.

Vida normal?

Com a vacina, será possível ter uma vida “normal” ou a Covid-19 ainda continuará a ser uma preocupação? Para o CEO da Ponto Care, Guilherme Torres, a vacina é só mais uma ferramenta disponível. “Ela sozinha, como a história já nos mostrou, não será a única necessária para poder radicar o novo Coronavírus. Então, por muito tempo, teremos o distanciamento social, o uso de máscaras e a lavagem de mãos de forma recorrente”, analisa.

Segundo explica o Prof. Dr. Báfica, há uma chance do vírus permanecer circulando, mesmo com uma vacina protetora. “Vírus podem apresentar altas taxas de mutações e isso pode deixá-los mais patogênicos, ou seja, com maior poder de transmissão e/ou infecção. Se isso acontecer, precisaremos modificar as vacinas a cada ano. Um exemplo similar ocorre com o vírus da influenza que causa uma gripe anual”, esclarece.

Para Maria Aparecida, a Covid-19 será uma preocupação pelo menos em curto e médio prazo, porque, para ela, a vacina não cobrirá 100% da população. Além disso, segundo a especialista, teremos sempre as questões individuais que poderão responder de maneira diferente à imunização, e não se podem descartar outras possíveis pandemias.

“Sempre estaremos vulneráveis, quer seja fisicamente quer psicologicamente às consequências de isolamento e outras ações decorrentes de outras pandemias. O mundo mudou e a nossa capacidade de viver em coletividade também. Não importa quão longe o problema possa existir, estaremos sujeitos a ele e essa pandemia foi mestre em nos ensinar”, conclui.

Vacinação nas farmácias?

Na visão do CEO da Clinicarx e coordenador do programa de Assistência Farmacêutica Avançada da Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), Cassyano Correr, as farmácias podem ser um canal importante para a vacina da Covid-19, dada a imensa capilaridade das mais de 80 mil farmácias, onde atuam mais de 100 mil farmacêuticos, tecnicamente aptos a administrarem medicamentos e vacinas.

O executivo reforça que uma Nota Técnica da Anvisa, publicada no início deste ano, já previu essa possibilidade, então existe um “sinal verde”. Portanto, a partir de agora, essa será uma questão de interesse dos governos.

“Já tivemos casos muito bem-sucedidos de parcerias público-privadas para vacinação da gripe, em capitais como Porto Alegre e Rio de Janeiro. Para realizar uma vacinação em massa da população, em um cenário em que as taxas de cobertura vacinal estão despencando, contar com a imensa capacidade operacional das farmácias pode ser essencial para essa ação de saúde pública”, opina.

Torres, da Ponto Care, também acredita no potencial do canal farma para esta ação, já que as lojas estão, cada vez mais, mostrando seu protagonismo frente à saúde pública.

“A pandemia serviu para demonstrar o potencial que a farmácia tem em auxiliar as políticas públicas e preventivas. Elas serão cada vez mais protagonistas na atuação da saúde pública e, principalmente, quando for relevante ao atendimento primário, de saúde preventiva, multiprofissional, sendo a porta de entrada para a população ter acesso à saúde de forma preventiva, facilitada e profissional”, afirma.

E se essa for uma possibilidade, do ponto de vista de negócios, as farmácias que participarem da ação terão alguns benefícios. “Considerando que as vacinas provavelmente serão adquiridas e disponibilizadas pelo poder público, em sua grande maioria, o principal benefício para as farmácias pode estar na geração de fluxo para os estabelecimentos e fortalecimento de seu papel como local essencial de saúde. A população atraída pelo esforço de vacinação também poderá conhecer e se tornar cliente de outros serviços da farmácia”, analisa Correr.

Pela Resolução de Diretoria Colegiada (RDC) 197/17, para prestar o serviço de vacinação, a farmácia deve possuir uma sala com maca, água corrente e refrigerador profissional para armazenamento. Além disso, o profissional farmacêutico deve estar apto a este serviço, reconhecido pelo Conselho Regional de Farmácia (CRF) de seu estado, e o estabelecimento deve contar com procedimentos escritos, protocolo de atendimento e sistema de registro da informação, para garantir que a vacina seja corretamente aplicada.

Fonte: Guia da Farmácia
Foto: Shutterstock


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