Relatório divulgado pelo Itaú BBA acende um sinal de alerta para o varejo farmacêutico brasileiro: a entrada progressiva de grandes plataformas digitais, especialmente o Mercado Livre (MELI) e o iFood, pode representar um risco competitivo relevante para as redes de farmácias no médio prazo.
O movimento ganhou novo impulso com a decisão da Novo Nordisk de abrir uma loja oficial no Mercado Livre México para a venda de medicamentos GLP-1 prescritos, o que, na avaliação dos analistas, confere credibilidade à plataforma como canal farmacêutico e pode abrir caminho para outros players do setor.
Novo Nordisk valida o Mercado Livre
O passo dado pela Novo Nordisk no México é considerado pelo Itaú BBA um marco simbólico e estratégico. A farmacêutica passou a comercializar Ozempic, Wegovy e Rybelsus por meio do modelo de marketplace de terceiros (3P) na plataforma, com exigência de receita médica, logística licenciada e rastreabilidade dos produtos.
Os analistas do banco ressaltam que o ponto central não é a replicação imediata desse modelo no Brasil, mas sim o que o movimento representa: uma empresa farmacêutica de primeiro nível está, de fato, endossando o Mercado Livre como canal de vendas confiável. Isso, segundo o relatório, deve naturalmente abrir portas para que outros laboratórios sigam o mesmo caminho, especialmente se o ambiente regulatório brasileiro vier a evoluir nessa direção.
No Brasil, a regulação atual impõe barreiras significativas. A venda de medicamentos online exige vinculação a uma farmácia física com funcionamento regular, farmacêutico responsável e verificação de receitas. Esse arcabouço dificulta a operação de um marketplace puro de medicamentos prescritos e torna o modelo de venda direta (1P) mais factível, porém também mais complexo e menos escalável.
iFood já é uma realidade no canal digital
Enquanto o Mercado Livre ainda opera no Brasil com um projeto-piloto de venda direta de Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs), o iFood já apresenta resultados concretos e expressivos no segmento farmacêutico.
O Gross Merchandise Volume (GMV) do iFood em farmácias alcançou R$ 3,4 bilhões nos últimos 12 meses encerrados em 2026, com uma taxa de crescimento anual composta de 71% nos últimos dois anos. O volume corresponde a aproximadamente 25% do canal digital da Raia Drogasil (RADL) ou cerca de 40% quando excluídos os medicamentos GLP-1.
Esses números evidenciam que a disputa pelo consumidor farmacêutico digital já não é uma tendência futura: é uma realidade em curso, com impacto mensurável sobre os maiores players listados do setor.
GLP-1: a categoria que muda o jogo
A categoria de medicamentos GLP-1, as chamadas canetas emagrecedoras, ocupa papel central na análise do Itaú BBA. O relatório estima que o mercado brasileiro de GLP-1 pode alcançar R$ 61 bilhões até 2030, com o canal formal rastreado chegando a R$ 35 bilhões, ou 57% do total.
Além do volume financeiro, os dados apresentados revelam o perfil altamente valioso desse consumidor. Segundo informações da PGMN destacadas no relatório, pacientes usuários de GLP-1 geram, em média, nove vezes mais receita do que o cliente comum e apresentam frequência de visitas 50% superior.
Para plataformas como o Mercado Livre, que conta com o braço financeiro Pago para financiamento de compras de alto valor, a categoria representa uma oportunidade especialmente atraente: alta recorrência, tíquete elevado e potencial de expansão para produtos e serviços adjacentes de saúde.
O que muda para o varejo farmacêutico
A análise do Itaú BBA aponta a Raia Drogasil como a empresa listada com maior sobreposição direta ao avanço inicial do Mercado Livre, dado que o projeto-piloto da plataforma está concentrado em São Paulo, mercado com alta densidade e demanda. Para as demais redes de farmácias e drogarias, o impacto imediato é considerado limitado, mas o risco de médio prazo é descrito como cada vez mais concreto.
O relatório reconhece que as farmácias físicas ainda detêm vantagem relevante em situações de uso agudo, em que a proximidade e a disponibilidade imediata são determinantes para a decisão de compra. No entanto, os analistas alertam que essa vantagem pode ser gradualmente corroída à medida que plataformas digitais ampliem sua capacidade logística e operacional.
Fonte: relatório Itaú BBA
Foto: Shutterstock
Leia também
Ozempic, Wegovy e Ozivy: como diferenciar as canetas com semaglutida