
O Mercado Livre está ampliando sua presença no varejo farmacêutico brasileiro com planos de passar a comercializar medicamentos prescritos por meio de sua plataforma, incluindo os agonistas de GLP-1, como o Ozempic.
O movimento foi avaliado em relatório publicado pelo BTG Pactual em 24 de setembro de 2026, que contextualiza a iniciativa dentro do ambiente regulatório atual e analisa seus potenciais reflexos sobre as redes de farmácias já estabelecidas no país.
Passo a passo na farmácia digital
Segundo o documento do BTG Pactual, o Mercado Livre adquiriu, no ano anterior, uma farmácia licenciada no bairro do Jabaquara, em São Paulo, dando início a uma operação própria (chamada de 1P, ou seja, de estoque e venda direta) em caráter de teste. A próxima etapa prevista é a integração de redes parceiras de farmácias ao marketplace da plataforma, o que ampliaria significativamente o sortimento de produtos oferecidos e o alcance geográfico da operação.
O relatório destaca que esse movimento não representa uma novidade estratégica. Desde agosto de 2026, após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) revogar restrições anteriores que afetavam plataformas como Mercado Livre, iFood, Rappi e Shopee, o quadro regulatório já havia sido alterado pela Lei 15.357/2026. Essa legislação passou a permitir expressamente que farmácias e drogarias licenciadas contratem plataformas digitais para serviços de logística e entrega, ainda que a regulamentação detalhada da Anvisa esteja pendente.
Concorrência com as redes estabelecidas
A análise do BTG Pactual avalia o movimento do Mercado Livre como mais uma fonte de pressão competitiva sobre o e-commerce farmacêutico, sem caracterizá-lo como uma disrupção de grande escala para as redes de maior porte. O relatório aponta que a liderança digital sustentável no setor depende de três capacidades que se reforçam mutuamente: tráfego qualificado, sortimento adequado e nível de serviço.
Na visão dos analistas, esse conjunto de fatores é especialmente relevante no segmento farmacêutico, no qual a demanda costuma ser orientada por necessidade, urgência ou recorrência; as exigências de confiança são elevadas; e o preço, embora importante, não é o único critério de compra. O sortimento, por sua vez, envolve complexidade que vai além da quantidade de itens disponíveis, abrangendo a disponibilidade de medicamentos específicos, dosagens, substituições, produtos regulados, dermocosméticos, GLP-1 e categorias de especialidade.
Ainda conforme o relatório, os serviços representam outro diferencial competitivo relevante, contemplando não apenas a velocidade de entrega, mas também a precisão do estoque, o modelo de retirada na loja (Click & Collect), o suporte de farmacêuticos e a resolução de problemas. Nesse cenário, as redes omnichannel de grande porte teriam, segundo os analistas, uma vantagem de difícil replicação: a combinação de demanda qualificada em saúde, precisão de estoque local e atendimento profissional.
O peso do Mercado Livre na equação
Apesar das vantagens reconhecidas das redes incumbentes, o relatório ressalta que o Mercado Livre dispõe de tráfego massivo, capacidades logísticas e alta frequência de compra de seus usuários, o que torna o setor farmacêutico estrategicamente atrativo para a plataforma.
Uma estimativa citada pelo documento, com base em artigo da imprensa brasileira, aponta que os medicamentos poderiam chegar a representar 6,5% do volume bruto de mercadorias (GMV) do Mercado Livre no Brasil até 2030.
Diante desse cenário, o relatório indica que a questão central a ser monitorada não é a entrada do Mercado Livre no setor, dado que essa direção já estava sinalizada, mas sim a velocidade com que a plataforma escalará o modelo de marketplace com parceiros (3P), quais redes de farmácias aderirão à plataforma e se o Mercado Livre utilizará subsídios econômicos para acelerar a adoção por parte dos consumidores. Sobre esse último ponto, os analistas acreditam que esse eventual impacto deve ser menos disruptivo do que foi em outras categorias de produto.
Implicações para o varejo farmacêutico
Para farmácias, drogarias e gestores do setor, o relatório do BTG Pactual sinaliza que a presença de grandes plataformas digitais no canal farmacêutico tende a se consolidar no horizonte imediato, impulsionada tanto por mudanças regulatórias quanto pela atratividade estratégica das categorias de saúde.
O documento sugere que as redes que investem em atendimento especializado, sortimento diferenciado e integração omnichannel estarão em posição mais favorável para sustentar sua relevância diante da nova concorrência digital.
Foto: Shutterstock
Leia também
Mercado Livre anuncia venda de remédios com receita e entrega em 1 hora em SP