
Globalmente, o Brasil é o quinto país com a maior prevalência de depressão, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Entre os diferentes tipos da doença, o Transtorno Depressivo Maior está entre as condições de saúde mental mais comuns e pode apresentar diferentes níveis de gravidade.
Embora o tratamento com antidepressivos possa promover melhora dos sintomas, parte dos pacientes não alcança a remissão completa dos sintomas, com riscos de recaída1.
Há pacientes que relatam melhora do quadro depressivo após iniciar a medicação, como redução da tristeza intensa ou retomada parcial da rotina, porém continuam convivendo com alguns sintomas, como fadiga, ansiedade, dificuldade de concentração, distúrbios do sono e redução da capacidade funcional1.
“O paciente, muitas vezes, consegue voltar a trabalhar ou retomar algumas atividades do dia a dia, e pensa que atingiu o máximo possível de melhora com o antidepressivo prescrito. Mas resposta parcial não significa remissão. Em muitos casos, ainda há espaço para otimizar o tratamento e recuperar a funcionalidade de forma mais ampla”, afirma o psiquiatra Felipe Lobo, médico consultor da Libbs e supervisor do ambulatório de transtornos de personalidade da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
O Guia da Farmácia acompanhou evento realizado para imprensa, em 9 de setembro na capital paulista, no qual a Libbs apresentou um novo medicamento para apoiar o tratamento do Transtorno Depressivo Maior.
Trata-se do levomefolato de cálcio ou L-metilfolato, comercializado sob o nome Omize, que deve ser utilizado em conjunto com antidepressivos, conforme demonstrado em estudos clínicos.
Novas estratégias de tratamento
O estudo STAR*D (Sequenced Treatment Alternatives to Relieve Depression), uma das principais pesquisas sobre tratamento de depressão, mostrou que uma parcela significativa dos pacientes com Transtorno Depressivo Maior não alcança remissão completa com o primeiro antidepressivo prescrito.
Entre os pacientes que necessitavam de novas etapas terapêuticas, as taxas de remissão tendiam a diminuir progressivamente2.
O Dr. Felipe Lobo explica que diante de uma resposta parcial ao tratamento, uma conduta comum entre os psiquiatras é a troca do antidepressivo, que pode ocorrer várias vezes e geralmente é feita antes de avaliar outras estratégias de otimização do tratamento, como as chamadas terapias adjuvantes3.
A terapias adjuvantes consistem na associação de abordagens complementares ao antidepressivo principal, com o objetivo de potencializar a resposta e a melhora dos sintomas3.
Entre as alternativas estudadas nesse contexto está o L-metilfolato, forma ativa do folato (vitamina B9). A substância participa de processos relacionados à síntese de neurotransmissores associados à regulação do humor, como serotonina, dopamina e noradrenalina, e pode ser utilizada como terapia adjuvante, conforme avaliação médica4.
Entretanto, a disponibilidade e o metabolismo do folato podem variar entre os indivíduos, muitas vezes ocorrendo de maneira inadequada ou insuficiente. Por isso, o uso do L-metilfolato como terapia auxiliar é avaliado de acordo com as características e as necessidades de cada paciente.

Coletiva de imprensa da Libbs apresentou o Omize, L-metilfolato que a farmacêutica passa a disponibilizar no Brasil. Foto: Guia da Farmácia
“O sistema nervoso central tem uma blindagem em relação ao que está no sangue, ou seja, nem tudo o que está no sangue chega ao sistema nervoso central. O nome dessa blindagem é barreira hematoencefálica”, explica o Dr. Felipe Lobo. “O L-metilfolato é a forma da vitamina B 9 que atravessa a barreira hematoencefálica, chega ao sistema nervoso central e consegue atuar nas vias metabólicas”.
Na dosagem de 15 mg – considerada eficaz para esse fim segundo as pesquisas clínicas -, o L-metilfolato é classificado como medicamento com venda sob prescrição médica, e não como suplemento. Segundo a Libbs, o produto já é utilizado em outros países e a farmacêutica é a primeira a disponibilizar essa apresentação no Brasil.
Evolução das pesquisas
Na década de 1960 surgiram os primeiros estudos apontando que os baixos níveis de folato eram observados com frequência em pacientes com depressão, conforme dados aposentados pelo Dr. Felipe Lobo durante o evento.
As pesquisas avançaram ao longo do tempo e a aplicação clínica do L-metilfolato passou a ser estudada como tratamento auxiliar em pacientes com resposta parcial a partir de 2010.
Desde 2017, os estudos reforçam o papel dessa substância no tratamento da depressão.
“O Omize surgiu a partir de uma necessidade não atendida identificada junto a médicos e pacientes. Além de disponibilizar o produto, temos trabalhado na educação médica para ampliar o reconhecimento da resposta parcial à depressão. O objetivo é ajudar o médico a identificar os sintomas remanescentes e avaliar quais pacientes podem se beneficiar do Omize”, afirmou Lucilia Lepsch, gerente de Novos Produtos de SNC da Libbs.
Quem pode se beneficiar do L-metilfolato
O Omize é indicado como terapia auxiliar no tratamento do Transtorno Depressivo Maior em pacientes com resposta parcial aos antidepressivos, conforme avaliação médica.
De acordo com o Dr. Felipe Lobo, os estudos sugerem que determinados perfis clínicos podem apresentar maior benefício com o uso associado do L-metilfolato, como pacientes com obesidade e inflação crônica, como, artrite reumatoide, lúpus, psoríase, doença de Crohn, entre outras5. Pacientes com determinados fatores genéticos e alto índice de homocisteína também mostraram resposta positiva a essa abordagem.
A definição do tratamento deve considerar as características individuais de cada paciente. Assim, disse o psiquiatra, além da medicação, o tratamento pode envolver mudanças no estilo de vida, como a prática de atividade física e ajustes na alimentação, dependendo do caso
Omize é contra-indicado para gestantes, crianças, adolescentes e pacientes oncológicos que utilizam metrotrexato.
Entre as possíveis interações medicamentosas, o L-metilfolato pode reduzir os níveis séricos de alguns anticonvulsivantes, como ácido valproico, carbamazepina, fenitoína e lamotrigina.
“Hoje entende-se que a resposta parcial à depressão pode ter diferentes causas. Por isso, além da escolha do antidepressivo, é importante avaliar fatores individuais do paciente e estratégias complementares, como o L-metilfolato, que possam favorecer uma recuperação mais completa.”
Para ele, a melhora clínica não deve ser avaliada apenas pela redução dos sintomas mais graves. “O objetivo do tratamento é permitir que o paciente recupere a funcionalidade, a autonomia e a qualidade de vida”.
Referências
- Tranter R, O’Donovan C, Chandarana P, Kennedy S. Prevalence and outcome of partial remission in depression. J Psychiatry Neurosci. 2002;27(4):241-7.
- Rush AJ, Trivedi MH, Wisniewski SR, Nierenberg AA, Stewart JW, Warden D, et al. Acute and longer-term outcomes in depressed outpatients requiring one or several treatment steps: a STAR*D report. Am J Psychiatry. 2006;163(11):1905-17.
- Wade RL, Kindermann SL, Hou Q, Thase ME. Comparative assessment of adherence measures and resource use in SSRI/SNRI-treated patients with depression using second-generation antipsychotics or L-methylfolate as adjunctive therapy. J Manag Care Pharm. 2014;20(1):76-85.
- Papakostas GI, Shelton RC, Zajecka JM, Etemad B, Rickels K, Clain A, et al. L-methylfolate as adjunctive therapy for SSRI-resistant major depression: results of two randomized, double-blind, parallel-sequential trials. Am J Psychiatry. 2012;169(12):1267-74.
- Maletic V, Shelton RC, Holmes V. A review of L-methylfolate as adjunctive therapy in the treatment of major depressive disorder. Prim Care Companion CNS Disord. 2023;25(3):22nr03361.
Foto de abertura: Shutterstock