
Comer menos, beber menos, passar horas sem mastigar, conviver com náusea e refluxo… A halitose não está entre os efeitos adversos clássicos dos usuários das canetas emagrecedoras, mas o ambiente bucal criado por ela favorece o odor que pode ser gerado.
“É mais preciso dizer que o tratamento com GLP-1 pode favorecer condições associadas ao mau hálito do que afirmar que o medicamento causa halitose”, comenta a cirurgiã-dentista e coordenadora do Serviço de Odontologia Hospitalar da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, Dra. Sumatra Jales.
É natural que quem come menos, mastiga menos. E a mastigação é o principal estímulo natural à produção de saliva. Some-se a menor ingestão de água, motivada pela redução da sede, e o resultado é uma saliva escassa e viscosa, incapaz de fazer a autolimpeza da boca. Células descamadas, proteínas e resíduos se acumulam no dorso da língua, formando a saburra lingual.
Se a saliva é o filtro, a língua é o tapete felpudo da casa: retém o que ninguém vê e só devolve o cheiro quando é sacudida. “A saburra lingual, o acúmulo de biofilme e, principalmente, a redução do fluxo salivar criam um ambiente favorável à proliferação de bactérias anaeróbias que degradam proteínas e liberam compostos sulfurados voláteis”, explica o cirurgião-dentista, membro da comissão de halitose do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP) e consultor científico da Curaprox, Dr. Mario Giorgi. São esses Compostos Sulfurados Voláteis (CSV) que respondem por boa parte do odor.
Há, ainda, o componente metabólico. O jejum prolongado e a restrição de carboidratos levam o corpo a usar mais gordura como energia, aumentando a formação de corpos cetônicos. A acetona eliminada pela respiração produz odor adocicado, diferente do cheiro sulfuroso da halitose oral.
“Fatores como jejum prolongado favorecem a cetose, o hálito cetônico, bem como o refluxo”, afirma a cirurgiã-dentista e secretária do Grupo de Trabalho de Halitose do CROSP, Dra. Rosileine Uliana.
Nesse sentido, o tratamento pode envolver múltiplos profissionais. O médico prescritor avalia dose e tolerabilidade; o nutricionista distribui refeições e líquidos; o dentista investiga saburra, fluxo salivar e gengivas; e o farmacêutico revisa medicamentos que ressecam a boca e reconhece quando encaminhar.
“É fundamental ter o acompanhamento multifuncional e integrativo em todos os sentidos para o melhor tratamento preventivo e corretivo”, reitera cirurgião-dentista integrativo, Dr. Fernando Tai.
O que orientar no balcão da farmácia
BUSCA PELO DIAGNÓSTICO CORRETO: orientar sobre produtos de higiene bucal de venda livre é competência do farmacêutico, mas a avaliação da origem do problema cabe ao médico. Além disso, ninguém deve reduzir ou interromper o medicamento por conta própria por causa do mau hálito.
HIDRATAÇÃO REGULAR: é um ponto importante e deve ser fracionada. Pequenos goles ao longo do dia são mais bem tolerados do que grandes volumes de uma vez, sobretudo na presença de náusea, respeitando restrições médicas.
HIGIENIZAÇÃO CORRETA: escova macia, creme dental fluoretado entre 1.350 e 1.500 partes por milhão (ppm) de flúor para adultos, escovação três vezes ao dia após as refeições, fio dental ou escovas interdentais e limpeza suave da língua com raspador são pontos importantes.
O QUE PODE AJUDAR: gomas e pastilhas sem açúcar estimulam a salivação, e as com xilitol são alternativas, desde que bem toleradas, já que polióis em excesso podem provocar gases, cólicas ou diarreia em quem já tem sintomas gastrointestinais. Géis, sprays e substitutos de saliva completam o arsenal.
O QUE PODE PREJUDICAR: a lista do que evitar também importa. Enxaguantes com muito álcool, balas açucaradas, pastilhas ácidas em quem tem refluxo e antissépticos repetidos sem investigação da causa podem não ter o efeito esperado.
SINAIS DE ALERTA: sangramento gengival, feridas, alteração do paladar, boca seca intensa, dificuldade para engolir e vômitos repetidos pedem avaliação. Casos de urgência envolvem hálito frutado com glicemia elevada, náusea, dor abdominal, respiração rápida, sonolência ou confusão. O quadro pode indicar cetoacidose diabética e não deve ser atribuído ao jejum.
Fontes: cirurgião-dentista integrativo, Dr. Fernando Tai; e cirurgiã-dentista e coordenadora do Serviço de Odontologia Hospitalar da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, Dra. Sumatra Jales
