
Os agonistas do receptor de GLP-1 ganharam projeção no debate público e no senso comum como “canetas emagrecedoras”.
Apesar do seu codinome captar parte do seu uso comum e indicação em bula, os seus desfechos clínicos revelam potencialidades ainda mais significativas. Essas “canetas” podem nos ajudar a responder perguntas mais difíceis. Esse medicamento pode reduzir infartos? Pode retardar a progressão da doença renal? Pode retardar ou até mesmo impedir o uso da diálise?
Para além do tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, que consolidaram suas primeiras indicações clínicas, essas moléculas vêm sendo estudadas como possíveis aliadas contra uma constelação de comorbidades, com estudos se aventurando em buscar desfechos desde a apneia do sono e inflamações crônicas até as doenças cardiovasculares.
Em artigo publicado no relatório Flair 2026, os especialistas da Ipsos analisaram esse fenômeno revolucionário que transpôs os muros dos consultórios para se fixar no imaginário coletivo como um espaço onde a saúde frequentemente se confunde com a busca pelo corpo ideal, pela performance e pelo bem-estar traduzido em magreza.
Contudo, ao afastar as cortinas desse apelo midiático, o que se descobre é uma verdadeira mudança de paradigma científico.
O interesse clínico dessas substâncias vem da possibilidade de tratar, ao mesmo tempo, fatores que se reforçam: excesso de adiposidade, hiperglicemia, hipertensão, inflamação e risco cardiovascular.
Ao resgatar a biologia das amarras do julgamento moral – como por muito tempo os corpos gordos foram tratados como sinônimos de fracasso ou desleixo –, a ciência devolve a dignidade ao tratamento da saúde crônica, transformando a promessa de um fármaco no horizonte de uma vida mais longa, plena e equilibrada.
Realidade brasileira para as doenças cardiorrenais
Adentrando o cenário brasileiro e um perfil específico de pacientes a serem beneficiados por esse tratamento, deparamo-nos com o complexo cenário do tratamento das doenças cardiorrenais. Projeções globais do estudo Global Burden of Disease (GBD) indicam que a doença renal crônica deve se tornar uma das cinco principais causas de anos de vida perdidos no mundo até 2040.
No cenário nacional, dados laboratoriais da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) estimam que a enfermidade afeta 6,7% da população adulta brasileira, com uma prevalência três vezes maior entre os idosos. Somado a isso, o Censo Brasileiro de Diálise estimou 173.408 pessoas em tratamento dialítico em 2025. O número vem crescendo na última década, embora a magnitude desse aumento dependa do ano-base e da metodologia utilizada.
Esse avanço da insuficiência renal entre a população brasileira sobrecarrega severamente o SUS, onde as terapias de substituição renal e as internações por insuficiência cardíaca consomem bilhões de reais anualmente. Refletindo esse impacto, os gastos totais com a assistência ambulatorial e hospitalar à Doença Renal Crônica atingiram R$ 5,8 bilhões no ano de 2024, conforme dados epidemiológicos e econômicos oficiais do DATASUS / Ministério da Saúde. Esse montante contabiliza os custos com hemodiálise, diálise peritoneal e internações por intercorrências associadas, operando sob um modelo assistencial que historicamente trata coração e rins de forma isolada.
Atuação dos análogos de GLP-1
O recente ponto de vista (PoV) global da Ipsos Healthcare desafia exatamente essa lógica tradicional de fragmentação do cuidado. O relatório sinaliza uma mudança estrutural rumo a tratamentos integrados e multimodais, revelando que cerca de 1 em cada 3 pacientes analisados com DRC ou insuficiência cardíaca já haviam recebido de um agonista de GLP-1.
Diante do dilema epidemiológico brasileiro marcado pelo diagnóstico tardio e pela progressão silenciosa das lesões, a inserção desses fármacos como protetores sistêmicos tem o potencial de redefinir as linhas de cuidado do SUS, com a possibilidade de retardar a progressão da doença em pacientes elegíveis.
Assim, as ditas “canetas emagrecedoras” vão muito além da balança. Estudos clínicos, como o SELECT e o FLOW, se debruçaram sobre os efeitos multiorgânicos e sistêmicos da semaglutida (um agonista do receptor de GLP-1), demonstrando que essa classe de medicamentos atua muito além do simples controle glicêmico ou estético da perda de peso.
No estudo SELECT, observou-se que a obesidade e o diabetes geram uma inflamação crônica e silenciosa que agride o endotélio (o revestimento interno das artérias). O uso semanal da semaglutida levou a reduções sustentadas (37,8% vs. placebo) dos níveis da Proteína C-Reativa, um dos principais marcadores desse estresse inflamatório. Assim, o uso de semaglutida reduziu em 20% o risco relativo de um desfecho composto por morte cardiovascular, infarto não fatal ou AVC não fatal.
Já no estudo FLOW, ensaio de pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica, propõe-se que, dentro os efeitos renais dos agonistas de GLP-1 estão os efeitos hemodinâmicos e metabólicos, além de possível modulação do transporte de sódio no túbulo proximal, envolvendo o NHE3. Porém, ainda não se sabe quanto cada mecanismo contribui para o benefício clínico observado. Um dos efeitos possíveis, por exemplo, é a redução da pressão interna do glomérulo (a unidade de filtragem do rim), combatendo a hiperfiltração que costuma “esgotar” os rins ao longo dos anos. O estudo demonstra, portanto, que há uma redução de risco e preservação relativa da função renal associado ao tratamento com estes medicamentos.
Diante desse cenário, o esforço da comunidade médica, da indústria farmacêutica e dos portais de notícias de saúde precisa urgentemente mudar de rota. A cobertura e o debate público devem residir na discussão profunda dos benefícios clínicos e das evidências científicas que essas moléculas carregam, enxergando o que elas representam para o futuro da saúde da população brasileira. Se incorporados de maneira adequada e associados às terapias já comprovadas, esses medicamentos podem contribuir para retardar a progressão da DRC em grupos selecionados. Estudos de vida real, por exemplo, podem quantificar de maneira mais clara o impacto desses medicamentos na redução do número total de pessoas em diálise.
Quanto mais o debate se restringe a enxergar o GLP-1 pelo prisma reducionista do emagrecimento, alimentando uma obsessão pela magreza, mais se esconde o elemento fundamental desse medicamento. Afinal, longe de ser apenas uma meta na balança, essa classe farmacológica consolida-se como uma terapia capaz de resguardar, simultaneamente, coração e rins, cuja função se influencia mutuamente e é profundamente afetada pelo metabolismo.
* Artigo escrito por Juliana Siegmann, especialista em saúde na Ipsos Healthcare Brasil
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