
Os dados preliminares da vacinação de crianças no Brasil ao longo de 2025 indicam que o trabalho de restauração da confiança da população na ciência está longe do fim. Segundo o Painel de Cobertura Vacinal do Ministério da Saúde, entre as 21 vacinas disponíveis no Programa Nacional de Imunizações (PNI) para crianças de até 2 anos, só 2 atingiram a meta – 95% de cobertura – definida para seu público-alvo. As crianças brasileiras receberam a contento somente a BCG, que protege contra a tuberculose (96,8%), e a vacina contra a hepatite B para crianças com menos de 30 dias (95,11%).
São imunizantes garantidos gratuitamente a todas as crianças, em todas as cidades do País, por meio da rede pública de saúde. Para proteger os menores contra doenças infecciosas preveníveis, mães, pais ou responsáveis devem levá-los a uma Unidade Básica de Saúde (UBS) a fim de atualizarem suas cadernetas de vacinação. Mas, como atestam os números, esse cuidado tem sido negligenciado.
Indicadores
Indicadores acumulados até novembro do ano passado ilustram esse preocupante descuido. Apenas 86,60% do público-alvo recebeu a vacina injetável contra a poliomielite, doença causadora da paralisia infantil. A segunda dose da tríplice viral, que combate o sarampo, a rubéola e a caxumba, registrou cobertura de 78,91%. Não à toa, nas Américas, foram registrados novos surtos de sarampo, moléstia que há muito havia sido erradicada da região.
Já é sabido que apenas a manutenção de uma cobertura vacinal abrangente assegura a proteção de um número maior de crianças. A erradicação de uma doença não é sinônimo de desaparecimento na natureza. Famílias e autoridades, cada qual na medida de suas responsabilidades, não podem baixar guarda na vacinação das crianças – gesto simples que, comprovadamente, salva vidas.
O próprio PNI é a prova da eficiência de uma política de saúde pública de Estado, não de governos. Criado ainda no regime militar, o programa atravessou gerações e se consolidou na democracia, tornando-se referência mundial de programa de vacinação universal e gratuita. Graças à adesão histórica da sociedade ao PNI, o Brasil praticamente acabou com a mortalidade infantil por doenças infecciosas preveníveis e aumentou a expectativa de vida. Por tudo isso, é lamentável constatar que uma parte considerável de cidadãos passou a ignorar esse legado, simbolicamente materializado pelas campanhas de vacinação protagonizadas pelo “Zé Gotinha”.
Movimento antivacina
Grande parte dessa descrença na ciência é atribuível a um movimento antivacina que passou a vicejar a partir de 2015, pondo em risco a saúde de milhões de crianças mundo afora. O Brasil não passou incólume por essa onda obscurantista, culminando na campanha contra as vacinas encampada pelo então presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia de covid-19. Desde então, ganharam tração notícias falsas sobre supostos efeitos adversos dos mais diferentes imunizantes. O estrago foi grande: no caso da covid-19, apenas 3,49% das crianças que poderiam ter sido imunizadas contra a doença receberam a vacina ao longo do ano passado.
A despeito das promessas do presidente, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva ainda não conseguiu restabelecer os patamares de cobertura vacinal para todos os imunizantes do PNI. As famílias têm o dever de imunizar suas crianças, haja vista que, à luz da lei, a apresentação da caderneta de vacinação atualizada é requisito para uma série de atos da vida civil, como a matrícula nas escolas das redes pública e privada para menores de 18 anos. Ao poder público, por sua vez, cabe a adoção de ações estratégicas, como, por exemplo, busca ativa para chegar até as crianças suscetíveis a contrair doenças evitáveis, além de reforço nas campanhas de comunicação.
O Brasil acumulou experiência suficiente com o PNI para voltar a ocupar um lugar de destaque no cenário global de cobertura vacinal de sua população. Desperdiçar essa conquista é um ato de irresponsabilidade com as futuras gerações de brasileiros.
Fonte: Estadão
Foto: Shutterstock
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