
O Brasil ainda está em uma curva ascendente de casos confirmados e óbitos da Covid-19, e sabemos que existe um cenário de subnotificação no País. Portanto, é certo que ainda temos algumas semanas, pelo menos, pela frente até que consigamos conter a doença no País.
A dúvida que fica é sobre quais impactos e mudanças serão causados pela pandemia e qual será o cenário pós-Covid-19. Especialistas do setor farmacêutico discutiram o assunto em uma webinar organizada pela XP Investimentos ontem (07/05), com a participação de representantes da IQVIA, da Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (Febrafar), da Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), e do Grupo Raia Drogasil.
O vice-presidente sênior da IQVIA, Sydney Clark, acredita que a primeira mudança observada é a do comportamento da população na relação médico paciente. “O contato entre os dois tem caído bastante e a telemedicina tem papel importante nisso, digitalizando a relação”.
Clark aponta que em março pudemos ver uma movimentação grande da população para estocar itens, desde produtos de consumo que vendem na farmácia, até medicamentos isentos de prescrição (MIPs) e medicamentos de prescrição, sem terem necessária relação com a Covid-19. Porém, em abril já vimos uma queda na demanda após esse período de estocagem.
Papel do varejo farmacêutico na saúde
“A farmácia tem um papel crescente nisso tudo e em como isso pode ou não mudar levando em conta a questão de um ambiente mais digitalizado no futuro. Sabemos que o papel da farmácia já vem se expandindo há alguns anos, com o farmacêutico passando a prescrever medicamentos e realizando atividades de assistência farmacêutica. Assim, mostrando que o ponto de venda (PDV) tem um papel cada vez mais forte com a sociedade como um todo, gerando a dúvida sobre como será o papel do digital com o meio físico da farmácia e com a população como um todo”, analisa Clark.
Para o diretor de planejamento corporativo da Raia Drogasil, Eugenio De Zagottis, um dos pontos de destaque da pandemia é que a farmácia vem deixando de ser um local de dispensação de medicamentos e vem passando a ser um elo fundamental na cadeia de saúde. “A farmácia é o elo que tem mais capilaridade e mais contato com o paciente, dando espaço para trabalhar com a prevenção e a promoção da saúde. Além disso, a farmácia tem sim um papel na confirmação dos casos da Covid-19, desde que a gente garanta a qualidade dos testes que vamos aplicar, bem como um protocolo seguro”, conta De Zagottis.
Segundo ele, para a Raia Drogasil, que aumentou o uso de seus serviços no Aplicativo (App), o digital é mais do que um canal on-line que visa o aumento das vendas. “Nossa visão é de usar o mobile para o cliente na loja ter uma experiência muito melhor, agilizando e facilitando serviços. A farmácia é um veículo para transformar a saúde do brasileiro, bem como transformar a aderência ao tratamento, o acesso a prevenção de doenças e a promoção da saúde. E a grande monetização disso é a fidelização do cliente”, conta De Zagottis.
Legado pós- Covid-19
Já para o CEO da Abrafarma, Sergio Mena Barretto, a farmácia sairá diferente da pandemia, porque a população sairá diferente. “Um dos legados que eu acredito que a pandemia deixará para o Brasil é a questão da burocracia. Por exemplo, por que um paciente tem que comprar medicamentos para apenas 30 dias na farmácia popular e não para 90 dias? Ou por que para aplicar vacinas precisa de uma burocracia gigante? Por que as coisas têm que ser tão travadas e complicadas? Acho que o legado que fica é revermos esse Brasil velho, das barreiras desnecessárias. O governo tem que repensar seu papel diante das sociedades organizadas. Nós como setor precisamos impor ou solicitar certas discussões que as vezes a gente fica dependendo de um grande prazo do governo para decidir. Um exemplo é a RDC 44, que está encalacrada desde 2014”, pontuou o executivo.
Ele também ressalvou a adesão ao tratamento como um dos legados da pandemia da Covid-19. “Quando você está fazendo um tratamento você não pode abandoná-lo e precisamos tratar essa questão com seriedade. Isso precisa ser uma pauta constante no setor da saúde para, assim, fazer com que os 54% dos brasileiros que abandonam o tratamento não façam mais isso. Precisamos conscientizar sobre o desencadeamento de agravos que isso causa e que custam muito caro para o País. Assim, migramos para uma para uma saúde mais preventiva”, complementou Mena Baretto.
Covid-19: Cenário do varejo farma independente
Fonte: Guia da Farmácia
Foto: Divulgação