
Doença inflamatória crônica, a dermatite atópica vai muito além do ressecamento ou de uma simples alergia cutânea. Impactos físicos, emocionais e sociais fazem parte dessa condição que exige cuidado contínuo.
AA pele funciona como o muro de uma casa: quando está íntegra, protege, isola e ajuda a manter o equilíbrio interno. Mas quando surgem fissuras nessa barreira, agentes externos encontram passagem para irritar, inflamar e desorganizar a rotina. Na dermatite atópica, essa proteção natural está fragilizada, favorecendo quadros de ressecamento intenso, coceira, vermelhidão e lesões recorrentes.
Mais do que um incômodo visível, a doença pode afetar o sono, a autoestima, o convívio social e o desempenho escolar ou profissional. “É uma doença inflamatória crônica que combina três problemas: barreira da pele fragilizada, sistema imunológico desregulado e desequilíbrio do microbioma. Pode afetar também as vias respiratórias, rinite e asma fazem parte do espectro atópico”, explica a dermatologista do Fleury, Dra. Maura Simonetti Junqueira Bourroul.
A dermatologista dos Hospitais São Marcelino Champagnat e Universitário Cajuru, Dra. Camila Takara, reforça que reduzir o quadro a uma alergia é um erro frequente. “A dermatite atópica não é só uma alergia de pele. Até é um termo errado dizer isso. A dermatite atópica é uma doença inflamatória e crônica, que acontece por conta de uma alteração na barreira de proteção da pele e de uma resposta exagerada do sistema imunológico”, afirma.
DOENÇA EM CRESCIMENTO
A dermatite atópica tem apresentado crescimento em diferentes regiões do mundo. Entre as explicações estão fatores ambientais, comportamentais e maior reconhecimento da condição, conforme aponta a dermatologista. “Entre os motivos estão a combinação de menor contato com microrganismos na infância, poluição, mudanças climáticas, novos hábitos urbanos e também por melhor diagnóstico da doença”.
Na prática, o quadro exige atenção porque seus sinais podem ser confundidos com ressecamento comum, irritações ou alergias pontuais. “A diferença está no padrão recorrente, na
intensidade da coceira e na presença de lesões em regiões características. Em bebês, costuma aparecer no rosto; em crianças, nas dobras dos braços e pernas; e, em adultos, pode afetar dobras, mãos, pálpebras e pescoço”, lembra a Dra. Maura.
A farmacêutica da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), Maria Aparecida Nicoletti, observa que essa confusão é comum no balcão da farmácia. “Principalmente porque todas as situações podem causar coceira e vermelhidão, os pacientes acham que qualquer irritação na pele é alergia”, relata.
HIDRATAÇÃO COMO PILAR
Na dermatite atópica, hidratar não é apenas um gesto cosmético. É uma estratégia de cuidado. “A barreira cutânea fragilizada perde água com mais facilidade e fica mais vulnerável a irritantes externos”, entende a Dra. Camila. Por isso, o uso regular de hidratantes adequados ajuda a restaurar essa barreira, reduzir coceira e espaçar crises. “A hidratação diária
é muito importante. Eu costumo dizer que a hidratação da pele é um dos pilares do tratamento da dermatite atópica”, lembra.
Para ela, os hidratantes específicos ajudam a repor ceramidas e outras substâncias em déficit na barreira cutânea. “Eu brinco que uma das dificuldades dos pacientes é entender que o hidratante é um remédio para a pele, porque ele atua justamente em um dos principais pilares da doença: a proteção da barreira cutânea”, ressalta a especialista. A farmacêutica da USP reforça que a regularidade faz diferença. “Uso irregular ou apenas quando a pele piora não controla satisfatoriamente o problema. O ideal é uso diário e contínuo. Em pele muito seca ou atópica, pode ser necessário aplicar mais de uma vez ao dia”, recomenda.
O momento da aplicação também conta, de acordo com ela: o ideal é usar o hidratante até três minutos após o banho, quando a pele ainda está levemente úmida. Fórmulas suaves, especialmente em peles sensíveis, devem ser priorizadas.
FARMÁCIA COMO PONTO DE CUIDADO
Para o canal farma, a dermatite atópica abre uma oportunidade relevante, mas também exige responsabilidade. A farmácia é frequentemente o primeiro local procurado por pessoas com pele seca, coceira, irritação ou lesões recorrentes. Nesse contexto, o farmacêutico pode orientar o uso correto de produtos, reforçar a importância da rotina e identificar sinais que exigem avaliação médica. “O farmacêutico tem um papel importante e cada vez mais clínico no cuidado de pacientes com dermatite atópica, atuando principalmente na orientação, no controle dos sintomas e na prevenção de crises”, afirma a especialista da USP.
No ponto de venda (PDV), a categoria de cuidados dermatológicos pode ser fortalecida por meio de sortimento adequado, exposição clara e comunicação educativa. Para a fundadora e CEO da Connect Shopper, Fátima Merlin, o PDV deve facilitar a escolha do consumidor sem ultrapassar os limites da orientação em saúde. As oportunidades passam por ampliação de sortimento, educação do consumidor, protocolos de cuidado, capacitação da equipe e integração responsável entre dermocosméticos e suplementação voltada para pele. “O consumidor não entra na farmácia procurando uma vitamina ou um probiótico. Ele entra buscando mais energia, melhor imunidade, qualidade de vida, beleza ou longevidade. As farmácias que organizarem suas categorias a partir dessas necessidades serão as que mais crescerão nos próximos anos”, prevê a CEO da Connect Shopper.
A mentoring empresarial, palestrante e consultora de empresas, Silvia Osso, faz um alerta importante: o trabalho com produtos voltados a condições de pele sensível, dermatite atópica, suplementação e autocuidado deve respeitar limites técnicos, sanitários e éticos. “Vivemos um mercado muito apelativo em que nem tudo tem eficácia terapêutica e, portanto, recomendo cautela desde a composição ética do mix, passando pela arrumação e chegando até as vendas”, finaliza.
ROTINA DE CUIDADOS QUE PODE AJUDAR A PROLONGAR OS PERÍODOS SEM CRISES
• Entender que o c cuidado diário faz parte do tratamento: a dermatite atópica envolve momentos de crise e períodos de manutenção. Quando a pele está estável, a rotina correta ajuda a preservar a barreira cutânea e a reduzir o risco de novas crises.
• Evitar banhos longos e muito quentes: a água quente remove a oleosidade natural da pele e pode piorar o ressecamento. O ideal é optar por banhos mais curtos e com água morna para fria.
• Não esfregar a pele com bucha: o atrito pode agredir ainda mais a barreira cutânea, favorecendo irritação e coceira.
• Escolher sabonetes adequados para pele sensível: produtos muito agressivos podem desencadear ou agravar sintomas. Sabonetes em barra, por exemplo, costumam ser mais alcalinos e podem irritar mais a pele.
• Manter hidratação diária: o hidratante ajuda a restaurar e proteger a barreira cutânea. A aplicação deve ser contínua, mesmo fora das crises.
• Preferir roupas confortáveis e tecidos menos irritantes: peças muito apertadas, lã e tecidos sintéticos podem favorecer atrito, calor e suor, funcionando como gatilhos para alguns pacientes.
• Observar fatores que desencadeiam crises: produtos de higiene, cosméticos, suor, clima frio ou seco, estresse e banhos quentes podem piorar o quadro. Identificar esses gatilhos ajuda a evitá-los.
• Pensar na pele como um muro de proteção: quando a barreira cutânea está íntegra, substâncias irritantes têm mais dificuldade de penetrar e ativar a inflamação. Quando está fragilizada, o risco de crise aumenta.
Reportagem escrita por: Fabio Oliveira
Imagem: SHUTTERSTOCK
Fonte: dermatologista dos Hospitais São Marcelino Champagnat e Universitário Cajuru, Dra. Camila Takara
