Proteção contra coronavírus: o produto de vinil que não funciona

Especialistas alertam que a máscara transparente não protege contra o coronavírus e que o nome M85 acaba confundindo os consumidores por se aproximar à nomenclatura da máscara de alta proteção N95

M85 é o nome dado por vendedores brasileiros a um modelo de “máscara” transparente feita com policarbonato usado como uma proteção contra o coronavírus.

Esse tipo de produto, com preço em torno de R$ 25 a R$ 30, vem sendo vendido para todas as regiões do Brasil, sob o argumento de que é inquebrável, não atrapalha a beleza e dá “liberdade para respirar”.

A explicação, de acordo com eles, está em dois pontos: o primeiro é que o material não é capaz de filtrar o ar inspirado ou expirado.

O segundo é que não há uma boa adesão ao rosto — característica essencial para aumentar a proteção.

Nesse produto, os espaços grandes entre o rosto e a máscara permitem a entrada e saída de ar sem nenhum tipo de filtragem.

Por isso, assim como os escudos protetores (face shield), esse produto não deveria ser usado sozinho, sem uma máscara de fato por baixo.

Ao mesmo tempo em que é muito claro para o infectologista que a máscara não funciona no contexto da pandemia, ele conta que tem visto o produto em uso.

O que dizem os órgãos oficiais

A página divulgada pelo Ministério da Saúde (MS) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) com recomendações sobre uso de máscaras não menciona esse tipo de material transparente entre as orientações para proteção contra o coronavírus.

Bandeira, da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), diz que sente “grande carência de posicionamento”.

A antropóloga e doutoranda em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Beatriz Klimeck, aponta que, no entanto, neste cenário, “as marcas usam a falta de diretrizes para vender”.

‘Mais bonitas’

Klimeck, que criou o perfil @qualmascara nas redes sociais para divulgar informações sobre proteção contra a Covid-19, diz que a volta às aulas levou a um aumento na quantidade de perguntas recebidas diariamente no início de 2021.

O que chamou atenção, de acordo com ela, foi o argumento das pessoas de que elas querem usar uma máscara com a qual possam se sentir mais bonitas.

O problema, ela destaca, é a falta de informação de que esses produtos, na verdade, não funcionam no contexto da pandemia. “É um fluxo de informações tão grande que as pessoas não sabem em quem confiar.”

M85 tem alguma coisa a ver com a N95?

O escudo facial que usa o nome M85 não tem nada a ver com a N95, que é uma máscara profissional.

A N95, assim como a PFF2 (nomenclatura no Brasil), segue padrões estabelecidos por normas técnicas para garantir um nível alto de proteção.

Todavia, é por isso que é possível saber a capacidade de filtragem dela:

A N95 filtra pelo menos 95% das partículas de 0,3 mícron de diâmetro, as mais difíceis de se capturar.

Assim, N95 é altamente eficaz exatamente pela alta capacidade de adesão ao rosto e pelo material do filtro.

A vedação faz com que todo o ar inspirado e expirado passe pelo filtro, que é composto por várias camadas que fazem filtragem mecânica (partículas colidem e ficam presas nas fibras) e eletrostática (partículas são atraídas por fibras com carga elétrica).

No entanto, especialistas apontam que o nome M85 acaba confundindo os consumidores, por se aproximar à nomenclatura da máscara de alta proteção N95, cujo nome se popularizou durante a pandemia.

Klimeck afirma que é a “forma mais escrachada de tentar fazer associação com a N95”.

O que dizem os responsáveis

A responsável pelas vendas por meio do site Máscara Cristal, Ana Paula Lourenço, disse que o nome foi uma ideia do namorado dela, que produz as máscaras.

“O M é de máscara e 85 é de 85%, porque veda 85%, e 15% é aberta. Não é pra copiar N95, nunca foi.”

Ela conta, contudo, que a ideia de desenvolver o produto veio do namorado.

E pediu ajuda dela, que estava com o trabalho na área de decoração afetado pela pandemia.

“Começamos a pesquisar o que seria mais legal naquele momento, para que as pessoas pudessem se sentir felizes e não com o pano no rosto. Em maio, a gente já tava com o produto na mão.”

Desde então, o negócio cresceu. “A gente vende do norte até Uruguaiana, na divisa com Uruguai.”

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Fonte: G1

Foto: GizModoBrasil/Máscara Cristal/divulgação

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