
Durante décadas aprendemos que inovar era descobrir novos medicamentos. A indústria farmacêutica continuará sendo o grande motor da transformação em saúde. É dela que nascem as moléculas capazes de mudar a história de uma doença. É ela que assume riscos, investe durante anos em pesquisa e encontra, na patente, a forma de remunerar esse esforço e continuar inovando.
Com o tempo, a exclusividade termina, a competição aumenta e o acesso se amplia. É um ciclo virtuoso que beneficia toda a sociedade. Estamos assistindo a esse movimento agora com os medicamentos da classe dos GLP-1.
Quando o conhecimento científico amadurece e o acesso começa a se ampliar, o principal desafio deixa de ser descobrir o tratamento e passa a ser fazer com que ele alcance as pessoas de maneira eficiente. Afinal, já entendemos que ampliar acesso não significa apenas colocar mais medicamentos nas prateleiras.
Significa construir uma jornada de cuidado na qual informação, diagnóstico, acesso, adesão ao tratamento e acompanhamento funcionem de maneira integrada.
Uma reflexão amadureceu durante o último Future Trends, ao acompanhar os cases de adoção do NHS no sistema público britânico e da Boots no varejo farmacêutico. Chamou-me menos atenção o conjunto de serviços oferecidos e mais a lógica que conecta seus diferentes participantes. Ali, diferentes atores parecem ter compreendido algo simples: nenhum deles, isoladamente, consegue entregar o melhor resultado ao paciente.
A indústria inova. O governo regula. O distribuidor conecta. O médico prescreve. A farmácia orienta e acompanha. A tecnologia integra. E, finalmente o paciente fica de fato no centro de um ecossistema mais integrado, com maiores chances de alcançar melhores desfechos em saúde.
Cada um continua exercendo seu papel.
O diferencial está na convergência
Não acredito que o Brasil deva copiar modelos. Temos nossa própria realidade, nossas desigualdades e nossas virtudes. Mas, aprender me parece urgente.
Quanto mais complexos se tornam os desafios da saúde, menos espaço existe para soluções isoladas. O próximo salto não necessariamente dependerá apenas da próxima molécula revolucionária.
É a convergência que transforma possibilidades isoladas em valor real para a saúde da sociedade.
Talvez esse seja um desafio ainda maior do que descobrir uma nova molécula: articular todos os atores do sistema de saúde em torno de um objetivo comum. Porque a próxima fronteira da inovação talvez não seja tecnológica. Ela seja humana.
* Artigo escrito por César Bentim, conselheiro certificado pelo IBGC, executivo e consultor para o mercado farmacêutico
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