* Por Adriano Schinetz
Nos últimos meses, dois assuntos tomaram conta das conversas no varejo farmacêutico, a Reforma Tributária e a chegada do Mercado Livre ao ramo de medicamentos. O tema gerou manchetes alarmistas, projeções exageradas e até pânico entre empresários do setor.
Mas será que tudo isso é motivo de tanto alarme? Vamos conversar com clareza sobre o que está acontecendo, sem exageros.
Porém, antes de entrar nos temas, é preciso fazer uma observação importante: boa parte do alarmismo que circula nas redes sociais e em grupos de WhatsApp vem de dois perfis muito distintos.
O primeiro é de pessoas que simplesmente não entendem como o varejo farmacêutico funciona na prática. O segundo é ainda mais preocupante, profissionais que dizem “conhecer” o setor e estão aproveitando o clima de incerteza para vender soluções mirabolantes, embalados numa narrativa de urgência e medo.
Quem nunca trabalhou dentro de uma farmácia, nunca negociou com distribuidora e nunca entendeu o que é um produto de alto giro versus um produto de alta margem não tem autoridade real para dizer que o setor vai colapsar.

Adriano Schinetz, consultor. Foto: Divulgação
Falar sobre reforma tributária ou sobre marketplaces é relativamente fácil quando se conhece apenas a superfície do assunto ou trata esses assuntos escorados no simples “achismo”.
O varejo farmacêutico tem particularidades que tornam qualquer análise rasa extremamente perigosa. Sempre digo que quando um especialista começa pela catástrofe e termina com um link de pagamento, o medo virou produto. E produto se vende melhor quando o comprador está ansioso, indeciso pela tempestade de informações que chegam até ele naquele momento.
Não estamos dizendo que todo curso, mentoria, consultoria ou assessoria são desonestos. Há conteúdos sérios e profissionais competentes no mercado. O problema é quando o medo é o principal argumento de venda para esses “gurus” do varejo farmacêutico.
Antes de investir em qualquer formação motivada pelo pânico, o gestor farmacêutico deveria se perguntar: essa pessoa tem histórico real no varejo farmacêutico?
O conteúdo tem embasamento técnico e legal? Ou é só uma narrativa bem construída sobre algo que ainda nem aconteceu?
A Reforma Tributária vai acabar com as farmácias?
A resposta curta é: não. Mas é preciso entender o que realmente muda.
Tributação de medicamentos
A Reforma Tributária substitui cinco tributos, sendo PIS, COFINS, IPI, ICMS e ISS, por dois novos impostos: a CBS (federal) e o IBS (estadual/municipal), além de um Imposto Seletivo para produtos prejudiciais à saúde.
Para o varejo farmacêutico, o ponto mais discutido é a tributação dos medicamentos. Atualmente, muitos têm isenção ou alíquotas reduzidas e, com a reforma, esses benefícios serão revistos e alguns produtos podem, sim, ficar mais caros.
O exagero está em afirmar que todos os medicamentos vão encarecer ou que as farmácias menores vão fechar. A transição será gradual, com período de adaptação até 2033, e medicamentos devem manter redução de alíquota de até 60%.
O que o setor precisa de fato é de atenção, acompanhar a regulamentação, rever margens, estudar e se especializar, já que algumas “engenharias fiscais” realizadas tende a diminuir ou efetivamente acabar. O caos anunciado por alguns “especialistas do setor” não tem base concreta, pelo menos não ainda.
Grandes marketplaces e farmácias físicas
O Mercado Livre vai “dominar” o varejo de farmácias? Há algum tempo, o Mercado Livre anunciou a expansão de sua operação de saúde e bem-estar, incluindo a venda de medicamentos isentos de prescrição (os chamados MIPs). A movimentação gerou alvoroço no setor, com manchetes sugerindo que as farmácias físicas estariam com os dias contados.
A realidade, porém, é bem mais limitada do que parece. Nesse momento, o Mercado Livre não pode comercializar medicamentos que exigem receita médica como antibióticos, psicotrópicos e entorpecentes, medicamentos que necessitam de cadeia de frio ou armazenamento especial ou qualquer outro produto “tarjado” que exija orientação farmacêutica obrigatória no ato da dispensação.
Um exemplo é a Amazon que apesar de já vender medicamentos e expandir agressivamente com entregas no mesmo dia em dezenas de cidades, a participação ainda é muito pequena (1-2%) no varejo farmacêu9co americano, dominado por grandes redes físicas e integradas.
O crescimento continua, mas o impacto é baixo enquanto os top 4 controlam cerca de 50% do bolo.
Logo se a Amazon que é a Amazon não fez ferida no mercado (bem mais maduro que o nosso), por qual motivo seria o Mercado Livre capaz de fazer diferente? Vale essa reflexão.
Além disso, farmácias físicas contam com algo que nenhuma plataforma digital substitui, o farmacêutico presente. A legislação sanitária brasileira exige a presença de responsável técnico durante todo o horário de funcionamento.
O exagero está em tratar o Mercado Livre como um exterminador do varejo farmacêutico. Na prática, nesse momento ele compete apenas em uma fatia pequena do mercado, e enfrenta barreiras regulatórias, logís9cas e de confiança do consumidor que limitam bastante sua atuação.
Resumindo, tanto a Reforma Tributária quanto a expansão de grandes plataformas digitais são movimentos que merecem atenção do varejo farmacêutico.
Ignorar é arriscado, mas pintar o momento como catastrófico é um grande exagero. O varejo farmacêutico tem diferenciais que vão muito além do preço (apesar de ser um ponto fundamental), atendimento humanizado, orientação profissional, conveniência local e a confiança construída com a comunidade ao longo dos anos, são atributos não copiáveis por um marketplace.
O caminho é se informar bem, adaptar-se com inteligência e não tomar decisões baseadas em manchetes alarmistas. O setor já sobreviveu a muitas mudanças e continuará vivo para quem souber se preparar e se adaptar.
*Adriano Schinetz, Diretor Gestão Farma Consultoria.
Foto de abertura: Shutterstock
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