
Ao contrário do tetra-hidrocanabinol (THC), principal composto psicoativo da cannabis e amplamente reconhecido por proporcionar sensações de euforia ou “barato”, o tetrahidrocanabivarina (THCV) e seus efeitos no corpo são menos conhecidos pelo público.
Mas, a substância tem chamado a atenção pela sua potencial capacidade de melhorar o metabolismo e facilitar a perda de peso. Mas, será que o THCV realmente tem esse poder? Vale lembrar que as duas substâncias são vendidas no país em formato de óleo para diversos fins terapêuticos.
Um artigo publicado no National Library of Medicine, que reúne estudos relacionados à área da saúde, aponta que o THCV se mostrou promissor para o tratamento de distúrbios metabólicos – melhorando a sensibilidade à insulina e suprimindo o apetite.
A publicação esclarece, entretanto, que são necessários estudos em maior escala para confirmar sua eficácia e segurança clínicas.
“O THCV é um possível candidato terapêutico para abordar os desafios multifacetados da obesidade e da diabetes. Pesquisas futuras devem se concentrar na otimização de formulações, na realização de estudos clínicos bem delineados e na superação de obstáculos regulatórios para que seu potencial seja plenamente explorado”, aponta o texto.
THCV não faz milagre
Já a nutricionista comportamental Júlia Menezes, estudiosa dos efeitos da cannabis na alimentação, explica que o THCV sozinho “não faz milagre”. Ele funciona como antagônico ao THC, que aumenta a fome. Assim, o THCV poderia ajudar a controlar o apetite ou a compulsão alimentar em quem faz uso do THC – reduzindo a famosa “larica”.
“Não há comprovação científica de que usar a substância isoladamente ajude a reduzir o apetite. Não se trata de uma medicação, como existem muitas no mercado com essa finalidade. Também não temos plantas com concentrações significativas de THCV no Brasil, sendo necessário sua importação – o que dificulta estudos no país sobre a substância”, diz.
Ela também aponta que obesidade e compulsão alimentar são problemas multifatoriais, então o uso isolado do THCV pode não surtir grandes efeitos. “Mas, dentro de uma rotina alimentar equilibrada, com exercício físico e controle do estresse, pode ser um bom recurso a ser experimentado para otimizar o processo de emagrecimento”, reflete.
Júlia ressalta ainda que a substância não funciona do mesmo jeito para todo mundo. “Depende da sensibilidade dos receptores de cada pessoa. Além disso, se a pessoa estiver com estresse muito elevado ou com a microbiota desregulada a substância pode não surtir efeito”, alerta.
Busca por tratamentos com cannabis
Apesar da ausência de pesquisas robustas sobre a eficácia da substância no emagrecimento, empresas no Brasil têm relatado procura pelos produtos. Entre elas está a Blis, plataforma digital que facilita o acesso legal a tratamentos com cannabis medicinal no Brasil.
Um levantamento interno da empresa, o Blis Data 2026, que ouviu 453 pessoas em 115 cidades, apontou que a maioria dos clientes é composta por mulheres (62%), com idade média de 45 anos e inseridas no mercado de trabalho (85%).
Os números revelam que a busca vai além dos tratamentos tradicionais, como dor crônica ou ansiedade, e foca em regulação do metabolismo e do apetite, tendo o THCV (tetrahidrocanabivarina) como molécula de interesse.
“Muitas já passaram por tratamentos tradicionais e começam a procurar opções complementares, percebidas como mais naturais e que se encaixem melhor no dia a dia. É importante destacar que não se trata de substituir tratamentos, mas de ampliar as possibilidades de cuidado”, aponta Marcela Machado, COO & Co-founder da Blis.
O que é autorizado no Brasil?
Após liberar o cultivo de Cannabis para fins medicinais em fevereiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou em maio a produção da planta para exportação.
A liberação inédita veio acompanhada de uma flexibilização na prescrição da substância, que agora poderá ser feita com um receituário mais simples.
Com a decisão, produtos de cannabis com teor de THC menor ou igual a 0,2% podem ser prescritos com Receita de Controle Especial, usada para medicamentos sujeitos a controle, mas considerados de menor rigor em relação a entorpecentes e psicotrópicos mais restritos, como as anfetaminas.
As RCEs, como são chamadas, são brancas e em duas vias, das quais uma fica retida na farmácia. Elas são utilizadas na prescrição de antidepressivos e alguns ansiolíticos, por exemplo.
Até então, a prescrição de cannabis seguia o rito empregado a substâncias que podem causar efeitos psicotrópicos, exigindo receitas dos tipos A e B, respectivamente amarelas e azuis.
As azuis têm validade de 30 dias e são usadas para medicamentos como clonazepam e zolpidem, por exemplo. Já as amarelas, de controle máximo, ficam retidas com o farmacêutico e são utilizadas para compostos de morfina, fentanil e anfetaminas.
Para os produtos com THC menor ou igual 0,2%, a tarja preta deve sair gradualmente das novas embalagens, cedendo lugar a uma rotulagem de menor restrição.
Enquanto isso não acontece, a regra garante que o paciente consiga comprar o produto que ainda tem a tarja preta usando a receita mais simples. A tendência é que a nova rotulagem passe a conter tarja vermelha, refletindo o novo nível de controle.
Ainda de acordo com a resolução que regulamenta o tema, a propaganda de cannabis não pode ser direcionada ao público em geral, apenas a profissionais de saúde habilitados a prescrever ou dispensar esses produtos.
O que a ciência diz sobre cannabis medicinal
- Sono: estudos sugerem melhora de insônia, principalmente em pacientes com dores crônicas, mas uso generalizado é contraindicado por falta de mais evidências.
- Ganho muscular: sem evidências e pouco investigado.
- Libido: estudos indicam experiências positivas individualizadas e restritas e apontam para resultado prejudicial de desempenho sexual e fertilidade no longo prazo.
- Ansiedade: evidência científica restrita e uso contraindicado atualmente.
- Depressão: pouca evidência científica.
- Epilepsia refratária: muitos estudos e aceitação na comunidade médica, com liberação por agências reguladoras como Anvisa e FDA.
- Dor crônica: aceita na comunidade médica e também liberada.
- Controle do tabagismo: sem consenso sobre benefício e poucas evidências.
- TDAH: com pouca evidência, não substitui medicamentos convencionais.
- Obesidade: poucas evidências científicas.
- Foco/concentração: poucas evidências e risco de piora do desempenho cognitivo, segundo estudos.
- Fibromialgia: muito estudada, mostra potencial benéfico em larga escala, mas ainda carece de mais pesquisas clínicas.
Fonte: O Tempo
Foto: Shutterstock
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