
A saúde está no topo das prioridades do brasileiro e, no centro dessa agenda, está a busca pela perda de peso. Esse foco tem acelerado o uso dos medicamentos agonistas de GLP-1, as chamadas canetas emagrecedoras, tanto que a adesão a esses tratamentos cresceu de 3% para 11% no último ano.
Os dados fazem parte da pesquisa Consumer Pulse 2026, feita pela consultoria Bain & Company e apresentada em evento para imprensa, em 2 de abril.
O Guia da Farmácia acompanhou a divulgação do estudo, que mostra que 46% dos brasileiros consideram a saúde extremamente importante e afirmam manter hábitos saudáveis, índice superior ao observado nos Estados Unidos e na Europa, ambos com 32%.
Quando o tema é saúde, os aspectos mais valorizados pelos consumidores no Brasil são:
- 66% priorizam saúde mental;
- 65% destacam aspectos físicos;
- 61% apontam a qualidade do sono.
Outro ponto de destaque no país é a relevância de “pele e beleza”, citada por cerca de um terço dos entrevistados.
“O brasileiro é mais preocupado com saúde e estética em relação a vários outros países, inclusive mercados desenvolvidos”, afirma Ricardo de Carli, sócio e líder da prática de Bens de Consumo da Bain na América do Sul.
Na balança: peso lidera lista de preocupações
Entre os principais objetivos pessoais relacionados à saúde mapeados pelo estudo, o peso corporal é o principal, seguido de longevidade:
- 37% querem manter um peso saudável;
- 37% ter um envelhecimento saudável/longevidade;
- 36% melhorar força física ou resistência;
- 32% melhorar o sono;
- 31% foco na saúde mental (ex: reduzir o estresse);
- 22% aumentar saúde cerebral/função cognitiva;
- 20% foco na alimentação (ex: saúde intestinal);
- 16% passar mais tempo com pessoas queridas;
- 16% controlar doenças crônicas.
Mudanças na alimentação
A preocupação com peso e forma física também se reflete nos hábitos alimentares. Segundo o estudo, os brasileiros buscam reduzir o consumo de:
- alimentos ultraprocessados (71%)
- fast food (63%)
- lanches, doces e salgados (63%)
- doces (59%)
Ao mesmo tempo, cresce a intenção de aumentar a ingestão de:
- aumentar o consumo de alimentos frescos (63%)
- proteínas (56%)
- suplementos (48%)
- grãos e cereais (41%)
Aumento da obesidade e uso de canetas emagrecedoras
Apesar da crescente valorização dos cuidados com a saúde, a obesidade segue crescendo. No Brasil, entre 2006 e 2024, a taxa de obesidde na população adulta mais que dobrou, passando de 12% para 26%.
Nos Estados Unidos, o cenário é ainda mais crítico: 44% da população é considerada obesa, segundo dados de 2023. De acordo de Carli, ainda que dados mais recentes não estejam consolidados, já há indícios de leve recuo do índice de obesidade nos EUA, possivelmente associado à popularização dos medicamentos GLP-1.
“Se por um lado o consumidor se preocupa com a saúde e quer comer melhor, por outro, a obesidade é uma dificuldade. Surge então uma espécie de ‘fórmula mágica’, que são os remédios emagrecedores, que equacionam esse problema e viram um boom na economia. Esses medicamentos são o grande destaque da pesquisa deste ano”, analisa o executivo.
O levantamento da Bain & Company mostra que o uso das canetas emagrecedoras aumentou de 3%, em janeiro de 2025, para 11%, em fevereiro de 2026. Quem mais utiliza são as pessoas de alta renda (22% dos usuários), seguida pela média renda (13%) e baixa renda (9%).
A pesquisa também indica desigualdades no acesso e no acompanhamento médico. Entre usuários de alta renda, 85% afirmam utilizar a caneta emagrecedora com acompanhamento médico. Já na baixa renda, 33% afirmam fazer uso sem acompanhamento, o que acende um alerta.
“Há riscos que vão desde a banalização do uso, problemas de saúde até a entrada de canetas falsificadas no mercado. Esses medicamentos são muito importantes para a alta renda, mas a baixa renda também vai dar um jeito de surfar essa onda”, afirma de Carli.
Expansão e novas gerações de medicamentos
O mercado das canetas emagrecedoras está em plena expansão e tem perspectivas de alta nos próximos anos. Na análise da Bain & Company, entre os fatores que impulsionam esse crescimento está a queda da patente de semaglutida, que expirou em março/2026 no Brasil. Com isso devem chegar, em breve, novas opções de tratamento com preços mais acessíveis do que os atuais.
Além disso, a evolução tecnológica promete tratamentos mais eficazes, fáceis de usar (as versões em comprimidos que estão sendo desenvolvidas) e com menos efeitos colaterais.
“As novas gerações desses medicamentos estão cada vez melhores. Hoje temos drogas que permitem perda de peso da ordem de 10% a 15%. As próximas gerações são da ordem de 25% de perda de peso. A caneta vira um comprimido, dá menos enjoo e menos perda de massa magra. Ou seja, estamos vendo que as tecnologias de medicamento vão melhorar muito nos próximos anos”, comenta de Carli.
O estudo indica ainda uma demanda reprimida: 17% daqueles que não usam GLP-1 têm interesse nesse tipo de tratamento no futuro.
Metodologia
O Consumer Pulse é um a pesquisa global da Bain & Company que acompanha percepções e comportamentos dos consumidores ao longo do tempo. No Brasil, o estudo é realizado desde 2021 e está na sua sexta edição.
Em fevereiro de 2026, a pesquisa ouviu 8 mil pessoas no Brasil e América Latina e em outros países da América Latina, por meio de entrevistas online.
Foto: Shutterstock
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