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Estresse e Ansiedade: Armadilhas do início do ano

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O fim de ano costuma estar associado a um período de celebração e descontração, pois é marcado pelo Natal, réveillon e férias escolares. No entanto, o término e início de um novo ano escondem também gatilhos para o desencadeamento de quadros de ansiedade e estresse. A combinação de expectativas sobre o próximo ano, volume de contas a pagar e frustrações acumulados no ano anterior pode ser danosa para a saúde mental.

“Nessa época do ano é sempre frequente o aumento de estresse, não só pelo aumento de contas, mas também a demanda nesse momento pelos entes queridos e pelas festas. Tanto a presença de familiares pode demandar emocionalmente, quanto a ausência deles pode denunciar para essa pessoa a solidão ou os fatores emocionais mais frágeis do indivíduo”, explica o psiquiatra, coordenador da Psiquiatria do Hospital 9 de Julho, Dr. Nikolas Heine.

De forma já esperada pelos especialistas, a ocorrência de ansiedade e estresse sofreu significativo aumento desde o início da pandemia. Entre os meses de abril e maio de 2020, o Ministério da Saúde (MS) deu início a uma pesquisa para avaliar a saúde mental da população. Na primeira etapa, mais de 17 mil brasileiros participaram do estudo e um dos resultados foi preocupante: 86,5% dos entrevistados estavam enquadrados em algum tipo de ansiedade patológica.

“Há estudos que apontam que, durante as epidemias, o número de pessoas cuja saúde mental é afetada tende a ser maior do que aquelas atingidas pela doença propriamente dita. As implicações na saúde mental são as que duram mais tempo e têm maior prevalência do que a própria epidemia”, revela a psicóloga da Clínica Personal da Central Nacional Unimed, aula Diniz Vicentini. Além disso, todo o processo pandêmico pode intensificar os sintomas daqueles com predisposição a desenvolver desordens psíquicas preexistentes.

A ansiedade

Para destrinchar os impactos que a ansiedade e o estresse causam, o primeiro passo é entender a diferença entre eles. De acordo com a psicóloga clínica e comportamental Osmarina Vyel, a ansiedade pode ser gerada por vários fatores. Entre os mais comuns estão má alimentação, falta de atividade física, pouca conexão com a natureza, excesso de ingestão de estimulantes, como café e álcool, além de tempo excessivo na frente das telas e pouca maturidade em saber planejar e saber esperar.

“A pessoa ansiosa está presa no mundo dos desejos e impulsos. Quer muito, mas não sabe conquistar, além de não confiar em si mesma e em suas habilidades. Geralmente, são pessoas com pouca disciplina em seus propósitos, descrentes que são elas que geram resultados em suas vidas. Sempre acreditam que a solução virá sem dedicação e foco. Este tipo de pensamento e comportamento leva à frustração”, comenta.

O estresse

Já o estresse é comumente associado ao Transtorno do Estresse, que pode ser agudo, quando registrado por alguns dias; adaptativo, se persistente por até um mês; ou pós-traumático, quando é recorrente.

Segundo o Dr. Heine, existem quatro estágios do estresse. O primeiro deles envolve sintomas ansiosos. São eles: falta de ar, pressão no peito, taquicardia, tremor, sudorese, preocupação excessiva, alterações do sono e apetite.

A segunda dimensão traz os sintomas depressivos, como tristeza, falta de vontade, desânimo, alterações de sono e uma sensação de desvalia. Enquanto na terceira dimensão de sintomas o indivíduo tende a apresentar sintomas psicossomáticos, tais quais tensão nas costas, nos ombros, dor ao longo da coluna, tontura, zumbido, dor de cabeça, eventos de desmaio e alterações gastrointestinais (diarreias, dores de estômago, refluxo).

“A quarta dimensão de sintomas eu vou chamar de sintomas impulsivos: o sintoma pavio curto, um comportamento mais explosivo, ou os abusos de substâncias”, descreve o Dr. Heine.

O não planejamento da rotina, seja das tarefas cotidianas ou de ordem financeira, e problemas quanto à percepção de limites, podem ser gatilhos para o surgimento de quadros de estresse. E o início de um novo ano amplifica as consequências desses compartimentos. Esperam-se novos horizontes, sem mudança de atitudes.

“Não somos educados a aprender com as nossas próprias experiências, por isso acumulamos frustrações, decepções, mágoas e acabamos nos posicionando no vitimismo. Pulando de galho em galho, de uma coisa para outra, buscando uma brecha fácil na tentativa de fugir das responsabilidades do autodesenvolvimento e, sem perceber, a pessoa tece a própria teia de problemas, dificuldades e conflitos que parece não ter mais saída”, alerta Osmarina.

Principais sintomas e suas explicações

Afastamento social e certa aversão a tocar em assuntos que exijam demanda emocional, como dívidas, podem ser os primeiros sinais de que a saúde mental está fragilizada.

Outro elemento bastante comum e que deve ser visto como sinal de alarme é o chamado “pavio curto”. Ou seja, o comportamento fica mais explosivo e pode estar associado ao aumento do consumo de álcool e outras substâncias.

“No começo e meio da pandemia, vimos aí um aumento das garrafas de vinho na área de lixo dos condomínios, demostrando em massa um estresse que todos estavam passando”, lembra o Dr. Heine.
Confira a seguir mais alguns sintomas comportamentais comuns em quadros de ansiedade e estresse:

1. Distúrbios de sono

À noite, ao colocar a cabeça no travesseiro, os pensamentos começam a fazer o processamento de tudo que vivenciou ao longo do dia. Quando se desliga o piloto automático que executa as atividades do dia a dia, a mente fala mais alto e vem a necessidade de resolver pendências, surgindo sentimento negativos, como culpa, medo, insegurança e angústias.

O caminho para reverter essa situação é colocar atenção nos afazeres cotidianos e distribuir as tarefas de acordo com a necessidade. “Precisamos nos conscientizar que somos uma máquina perfeita. Portanto, basta prestar atenção em como ela funciona e respeitá-la”, recomenda Osmarina.

Psicoterapia, artes marciais, yoga e meditação são algumas atividades que podem auxiliar nessa tarefa de estar mais focado no momento presente. Também é importante tratar o momento de dormir com cuidado.

“Fazer uma higiene do sono, transformar o nosso quarto em uma ‘caverninha’ para dormir, um ambiente escuro e silencioso. Evitar que durante o dia a gente coma ou trabalhe nele, que seja um ambiente onde o corpo conecte apenas ao sono”, comenta o psiquiatra do Hospital 9 de Julho.

Com uma boa noite de sono, as glândulas endócrinas produzirão os hormônios de satisfação (endorfina, dopamina, serotonina, ocitocina) ao invés de liberar os hormônios ligados ao estresse e à ansiedade (adrenalina e cortisol).

2. Apetite desregulado

Este é um sinal de que a pessoa sente falta de algo e não sabe definir o que é. Como resposta, é comum sentir um buraco no estômago e calafrios na região. Para compensar a sensação incômoda, come-se além do que o corpo precisa. Busca-se a percepção da sensação de segurança e acolhimento.

Há também quem tenha uma resposta contrária: a pessoa se recusa a se alimentar como uma forma inconsciente de autopunição, culpa ou um meio de chamar atenção. O tratamento indicado para casos leves é o acompanhamento com um profissional de nutrição, pois há alimentos que ativam o aumento da serotonina, apaziguando o desconforto.

“Em casos de obesidade e anorexia, é necessário tratamento com psiquiatra. O autoconhecimento por meio da psicoterapia se faz necessário em todos os casos de estresse e ansiedade, pois estes são apenas indicadores de que algo não vai bem e a pessoa se desconectou dela mesma”, aponta Osmarina.

3. Medos irracionais

São decorrentes da mobilização do sistema simpático, responsável pela resposta de “luta e fuga”. “Ele convoca uma quantidade de adrenalina e faz com que a gente fique mais desperto e alerta para o mundo exterior”, relata o Dr. Heine.

Também estão ligados ao acionamento de uma região no cérebro chamada amídala, que é como se fosse uma sirene de insegurança para o cérebro. “Ela modifica um pouco a arquitetura das vias neurológicas para que tenhamos uma maior probabilidade de escapar ou enfrentar um perigo. Faz com que se tenha uma percepção um pouco mais aguçada e isso, às vezes, pode gerar impressões errôneas da realidade”, explica.

Com atividades mais intensas nesses sistemas, todo o evento ao redor vai ser percebido de uma maneira mais aguçada e autorreferente. “Então, entro numa festa, vejo que não conheço ninguém, me sinto um pouco inseguro, isto aguça minha percepção e, então, noto uma risada destoante, olho para essa risada e vejo um olhar para mim. Será que estão rindo de mim? Cenas como essas são decorrentes desses dois elementos”, descreve o Dr. Heine.

4. Mudanças repentinas de humor

Estão associadas aos mesmos motivos dos medos irracionais e ocorrem como passo seguinte do mecanismo de defesa. Uma vez que há realmente a possibilidade de risco no ambiente, a amidala inibe um pouco a memória, diminui a capacidade de atenção e não se percebem outras coisas no ambiente, apenas “o perigo”.

Como consequência, perde-se também um pouco a capacidade de ser razoável, de racionalizar e ponderar antes de tomar atitudes, o que leva a medidas impulsivas.

Esse mecanismo de resposta a ameaças é muito bem controlado pontualmente pela atenção plena, técnicas de respiração e meditação. Atividades físicas, organização do dia e boa alimentação são bons complementos, mas dependendo dos rompantes de humor, também são necessários psicoterapia e tratamento psiquiátrico.

4. Tensão muscular

Está associada ao medo e à ansiedade, que fazem o organismo liberar excesso de cortisol. Esse hormônio aumenta a acidez no corpo, gerando processos inflamatórios.

Entre as medidas essenciais para atenuar esse sintoma estão a prática regular de atividade física, massagem, cuidados com a alimentação e diminuição das sobrecargas, sejam elas de trabalho ou emocionais.

Fonte: Guia da Farmácia
Foto: Shutterstock

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