
Imagine a seguinte cena: um cliente com os olhos vermelhos e lacrimejantes se aproxima do balcão da farmácia, com um lenço de papel na mão. Seu nariz está congestionado, sua garganta está coçando e a cabeça está pesada. É a clássica imagem de alguém que luta contra uma alergia respiratória. Tais condições, como a rinite e a sinusite, são problemas comuns, mas frequentemente envoltos em desinformação. Com os mitos circulando tão livremente quanto os alérgenos que provocam essas reações, torna-se vital trazer alguma clareza a essas questões.
Vivemos em uma época em que cada espirro ou tosse pode causar olhares preocupados das pessoas ao redor. As alergias respiratórias estão mais presentes do que nunca, especialmente com a mudança das estações do ano e o aumento da poluição do ar. No entanto, apesar da sua prevalência, há uma compreensão inadequada dessas condições entre o público em geral.
Para trazer clareza a essas questões, o Guia da Farmácia dialogou com vários especialistas, incluindo alergistas, biomédicos, otorrinolaringologistas e imunologistas, que desvendaram os mitos e as verdades sobre essas condições tão presentes na vida dos profissionais de saúde e da população em geral. Por meio de uma série de perguntas e respostas, mostramos o universo das alergias respiratórias, desde suas causas mais comuns até seus sintomas e possíveis tratamentos. Confira!
O que são alergias respiratórias e quais são as mais comuns?1
São reações do sistema imunológico a substâncias inaladas, como poeira, ácaros e pelos de animais, conhecidas como aeroalérgenos. Essas substâncias causam uma sensibilização seguida de uma resposta de inflamação alérgica em pessoas com predisposição genética. As alergias respiratórias mais comuns são a rinite alérgica, que é uma inflamação no nariz e vias aéreas superiores; e a asma alérgica, que é uma inflamação no pulmão e vias aéreas inferiores.
Quais são as principais causas e os sintomas das alergias respiratórias?2
As principais causas das alergias respiratórias são ácaros; poeira; fungos; pelos de animais; pólen de plantas; determinados produtos químicos; e cheiros específicos. Os principais sintomas incluem tosse seca, coriza, coceira na garganta, espirros, lacrimejamento e irritação dos olhos.
Se tenho rinite, meus filhos também terão? Qual é a relação genética das alergias respiratórias?3
As alergias respiratórias têm, sim, uma forte ligação genética. Se apenas um dos pais possui alguma alergia, a probabilidade de um filho vir a apresentar sintomas varia de 25% a 50%. Caso ambos os pais sejam alérgicos, essa chance pode aumentar para 50% a 75%. Tais porcentagens refletem a interação de complexos fatores genéticos e possíveis mutações que ocorrem ao longo da vida do indivíduo3.
Apesar da herança genética ser um fator relevante no desenvolvimento de alergias, a interação com fatores ambientais também é crucial. Aliás, é a combinação desses dois aspectos que contribui para a manifestação e o curso das alergias em indivíduos predispostos geneticamente. Desta forma, mesmo que haja predisposição genética, a exposição a determinados elementos do ambiente, tais como ácaros, poeira e pólen, pode ser determinantes para o surgimento do quadro4.
Quem tem alergia respiratória não pode fazer atividade física?
Embora muitas pessoas alérgicas associem a prática de exercícios físicos à piora dos seus sintomas, uma atividade física bem orientada pode trazer inúmeros benefícios. Melhorar a aptidão física, por exemplo, pode ajudar as pessoas com alergias a lidarem melhor com os sintomas, reduzindo, gradualmente, o desconforto e as manifestações alérgicas5.
Portanto, não é preciso abrir mão da prática de atividades físicas. Sim, pessoas com alergia respiratória podem, e devem, praticá-las, desde que a doença esteja sob controle adequado com o tratamento prescrito1.
No entanto, a atividade física pode desencadear sintomas em alguns indivíduos, principalmente quando a inflamação na via aérea não está bem controlada. Por isso, o objetivo do tratamento médico é permitir que o paciente tenha uma rotina sem restrições1.
Portanto, a prática regular de atividades físicas não é apenas possível, mas altamente recomendada. É, inclusive, muito importante para fortalecer o sistema imune e promover a saúde em geral, auxiliando na prevenção de crises alérgicas1.
Os sintomas da rinite e da sinusite podem ser confundidos? E como diferenciar as gripes e os resfriados de uma crise alérgica?6
A rinite é uma inflamação da mucosa respiratória e pode ser causada por um microrganismo (rinite infecciosa – que pode ser a gripe, resfriado ou SarsCov2) ou proteína (rinite alérgica – causada por ácaro, pólen, pelo de animal ou fungo). Os sintomas da rinite infecciosa podem incluir febre; mal-estar; cansaço; dores pelo corpo; dor de cabeça; dor de garganta; tosse; coriza; e congestão nasal. Já a rinite alérgica é frequentemente disparada pelo contato com a poeira ou o pelo de um animal, por exemplo, e se manifesta com espirros, coceira no nariz e congestão nasal, sem outros sintomas corporais, como mal-estar ou febre.
A alergia respiratória piora com pólen? Como o pólen influencia na alergia respiratória?7
O pólen é um dos alérgenos que podem desencadear a rinite alérgica sazonal, também conhecida como febre do feno. Durante a estação de polinização, o aumento de pólen no ar pode intensificar os sintomas em indivíduos sensíveis.
O frio piora os quadros de alergias respiratórias?4
Os pacientes alérgicos podem enfrentar maiores desafios no inverno, devido a determinados fatores. A exposição a ácaros, por exemplo, pode aumentar com o uso de cobertores e roupas que foram guardados por um longo período. Além disso, a baixa umidade do ar e o uso de aquecedores costumam tornar o ar mais seco, o que pode irritar ainda mais as vias respiratórias.
Todos os antialérgicos dão sono?2
Nem todos causam sonolência. Apenas os anti-histamínicos de primeira geração, também conhecidos como sedativos, podem causar esses sintomas. Isso ocorre porque esses medicamentos são lipofílicos e facilmente atravessam a barreira hematoencefálica. Em geral, os efeitos colaterais dos anti-histamínicos estão associados com secura da boca, dor de cabeça e transtornos gastrointestinais.
Não é possível diferenciar gripes e resfriados de uma crise alérgica?1
Os sintomas de rinite alérgica, gripes e resfriados podem ser similares, mas certas características podem ajudar a diferenciar estas condições. Gripes e resfriados são causados por vírus e apresentam sintomas semelhantes à rinite, como coriza e tosse. No entanto, esses indícios são geralmente mais agudos e podem ser acompanhados de febre, dores no corpo e sintomas gastrointestinais.
A falta de tratamento adequado para a alergia pode facilitar o surgimento de infecções virais das vias respiratórias, por isso, é fundamental evitar a automedicação e procurar sempre assistência médica.
Medicamentos para alergias respiratórias só podem ser usados nas crises?2
Não! Existem medicamentos destinados ao tratamento contínuo e os de resgate, utilizados em casos de crises. Os corticoides são frequentemente usados para atenuar os sintomas causados pelas alergias respiratórias, além dos inaladores, que se mostraram eficazes e seguros.
O público mais jovem sofre mais com alergias?3
Sim! A prevalência de sintomas nasais fora dos episódios de resfriado (rinite atual) é de 26,6% entre crianças de seis a sete anos de idade e 34,2% entre adolescentes (13-14 anos de idade). A ocorrência de rinoconjuntivite (rinite alérgica) é de 12,8% e 18%, respectivamente, segundo dados de estudos nacionais.
Entre os adultos, a prevalência varia conforme a localidade, sendo Curitiba (PR) a capital com maior índice de rinite: 47% entre adultos, e São Paulo (SP) com 27%. A média mundial é de que 30% da população tem rinite alérgica.
Mudanças bruscas de temperatura são prejudiciais para esse público?1
Esse cenário desencadeia sintomas, especialmente em pessoas com asma não controlada ou parcialmente controlada. O ar frio e seco, em particular, pode irritar as vias respiratórias, aumentando sua reatividade e causando o estreitamento dos brônquios, o que resulta em tosse e falta de ar. Se já houver inflamação nas vias respiratórias, esse efeito pode ser mais acentuado.
Rinite sem tratamento pode se tornar sinusite. Como a falta de tratamento pode agravar as alergias respiratórias?7
A rinite é uma inflamação da mucosa nasal, enquanto a sinusite é uma inflamação da mucosa dos seios da face. A rinite pode evoluir para sinusite, pois a inflamação pode se estender da mucosa nasal para os seios da face, provocando uma infecção. Além disso, a rinite pode causar obstrução nasal, impedindo a drenagem adequada dos seios da face, o que leva ao acúmulo de muco, ambiente propício para a proliferação de bactérias causadoras de sinusite. Por isso, é fundamental tratar adequadamente a rinite para prevenir a sinusite.
Fonte: Guia da Farmacia
Foto: Shurtterstock