
Quem nunca sentiu dores de cabeça ou dor nas costas? É praticamente impossível não ter esse tipo de indisposição vez ou outra, mas quando isto se torna recorrente, pode ser a hora de procurar tratamento.
Recente pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com mais de 44 mil pessoas, apontou que 41% dos entrevistados passaram a sentir dores na coluna durante a pandemia. Enquanto isso, entre os que já sofriam de dores crônicas, mais de 50% afirmaram que o desconforto aumentou no período de isolamento.
Na opinião do neurocirurgião e chefe da Equipe de Neurocirurgia do Hospital Sírio-Libanês, Dr. Cezar Augusto Alves de Oliveira, a pesquisa condiz com o que se observa no dia a dia dos consultórios.
“Em tempos de pandemia, naturalmente há mais preocupações e mudanças na rotina. Isso tudo, muitas vezes, resulta em má postura e sedentarismo. Sendo assim, o corpo reage com dor.”
O médico especialista em dor e pesquisador do Grupo de Dor do Departamento de Neurologia do Hospital das Clínicas, Dr. Marcus Yu Bin Pai, concorda e acrescenta que a ansiedade excessiva é outra potencial causa para o aparecimento de dores nas costas e no pescoço.
DICAS DO GUI:
Tipos de dor
• Nociceptiva: dor aguda provocada por alguma lesão de tecido, ossos, músculos e ligamentos.
• Neuropática: dor decorrente de lesão ou doença que atinge o sistema nervoso somático sensitivo. Esse tipo de dor, geralmente, está associado a outras afecções, como esclerose múltipla, lesões na medula, tumores, diabetes, traumatismos, entre outros.
• Psicogênica: é o tipo de dor mais rara, em que nenhum mecanismo nociceptivo ou neuropático é identificado. Por isso, pode levar mais tempo para ser diagnosticada.
• Dor aguda: em geral, significa que ela é passageira, causada por traumas ou lesões. É um sintoma de alerta que demonstra que existe algo de errado acontecendo com o corpo.
• Dor crônica: é prolongada e influenciada por fatores psicológicos, cognitivos, comportamentais, sociais, familiares, vocacionais e neurofisiológicos.
Fonte: diretora científica da Sociedade Brasileira de Estudo da Dor (SBED), Dra. Luci Mara França Correia
“Estresse, ansiedade e medo podem ampliar a percepção da dor e do sofrimento. Além disso, também podem predispor a outras dores por nos tornar mais propensos à inflamação.”
Outro levantamento nacional realizado pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) e encomendado pela farmacêutica Bayer constatou que 25% das pessoas deixaram a atividade física de lado por conta da quarentena.
Segundo a pesquisa, três a cada quatro entrevistados declararam sentir algum tipo de dor frequentemente, ocupando o topo da lista as dores nas costas (38%) e a dor de cabeça (31%). Entre as mulheres, a proporção é ainda maior, com a dor presente no cotidiano de 82% delas. Como consequência, cerca de ¼ dos entrevistados recorre a algum analgésico, pelo menos, uma vez por semana.
Sentir dor não é normal
Na explicação do Dr. Oliveira, a dor é a forma do corpo expressar que algo não vai bem, ou seja, é a comunicação do sistema nervoso periférico (local afetado) e central (cérebro). “Se o problema demora muito a ser resolvido, o nervo sofre danos e se comporta como um alarme que soa ininterruptamente.”
Aproximadamente 80% da população mundial sofre com algum tipo de dor e 30% sente seus efeitos de forma crônica, segundo estimativas da Associação Internacional para o Estudo da Dor, conhecida pela sigla em inglês IASP.
Atualmente, 37% da população convive com algum tipo de dor crônica, de acordo com dados da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED). Segundo a entidade, a dor lombar/sacroilíaca ocupa o primeiro lugar no ranking de dor crônica no Brasil, seguida pelas dores reumáticas, como osteoartrite (artrose) e artrite.
A boa notícia é que, com tratamento adequado, mais de 95% das pessoas conseguem solucioná-las, evitando que um quadro agudo evolua para o crônico, garante o Dr. Yu Bin Pai.
“Entretanto, a pequena porcentagem da população que sofre de dor crônica precisa de tratamento contínuo, já que ela passa a não ser apenas um sintoma e torna-se a doença em si.”
Além de precisar lidar com os desafios diários de um corpo dolorido, o indivíduo ainda sofre com as consequências psicossociais e econômicas decorrentes do quadro, acrescenta a diretora científica da SBED, Dra. Luci Mara França Correia.
“Incapacitação para o trabalho, perda da disposição, reclusão social e depressão são os principais prejuízos causados pela dor crônica. Não há condição que mais deteriora a personalidade do que sofrer de dor.”
Dor aguda X dor crônica
A dor aguda, seja ela em qualquer parte do corpo, é aquela que surge de repente e dura apenas algumas horas ou até mesmo poucos dias, mas não volta a acontecer com frequência, enfatiza o ortopedista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, Dr. Leandro Gregorut.
“Normalmente, a dor aguda é um sintoma de algum problema pontual, como lesões físicas ou alterações no organismo, mas quando sua causa é tratada, logo vai embora.”
Em contrapartida, a dor é reconhecida como crônica após três meses de sofrimento, podendo atingir pessoas de todas as idades, “sendo mais frequente em mulheres e idosos”, destaca a Dra. Luci Mara.
Segundo o Dr. Gregorut, os principais causadores das dores crônicas são problemas lombares, câncer, herpes zóster, diabetes, enxaqueca, fibromialgia, osteoartrite e lesões musculares. “Quanto mais tempo demorarmos para iniciar o tratamento, mais difícil fica enfrentar esse problema.”
Home office e dor nas costas
Cenário
Com o avanço da pandemia pela Covid-19, trabalhar em regime home office passou a fazer parte da realidade de muitos brasileiros. No entanto, a maioria das pessoas não possui espaço adequado e equipamentos ergonômicos, como cadeira, mesa na altura correta e apoio para coluna e braços, para prevenir lesões.
Riscos
Dentro dessa realidade, tornou-se comum as pessoas usarem a mesa de jantar, o sofá da sala ou até mesmo a cama para trabalhar. Essas posições não são ergonômicas e, quando mantidas, podem sobrecarregar as estruturas ósseas, ligamentares e musculares.
Reações
• A má postura pode fadigar os músculos, causando dores nas costas, principalmente na coluna cervical e na região lombar.
• Com o agravamento do quadro, podem ocorrer alterações na coluna, como escoliose, hérnias de disco e hipercifose, entre outros.
• Doenças sistêmicas, como artrite reumatoide e fibromialgia, assim como o encurtamento da musculatura da coluna, quadril e coxa também podem causar dores generalizadas na coluna.
Formas de prevenção
A boa notícia é que há estratégias tanto para minimizar como para eliminar de uma vez por todas a dor. No caso de quadros agudos, pode-se recorrer ao tratamento não medicamentoso, como prática regular de musculação, natação, hidroginástica, pilates e RPG, fisioterapia para alongar e fortalecer os músculos, terapia cognitiva comportamental, reeducação postural, acupuntura e perda de peso.
Tratamentos medicamentosos
• Envolve desde o uso de analgésicos simples, como paracetamol e dipirona, relaxantes musculares, anti-inflamatórios não hormonais até corticoides, analgésicos derivados de opioides e antidepressivos para o tratamento de dor crônica.
• Em algumas situações, a intervenção cirúrgica torna-se necessária e pode envolver desde a infiltração com anestésicos e corticoides até a cirurgia de descompressão e artrodese das vértebras lombares.
Fonte: ortopedista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, Dr. Leandro Gregorut
Como tratar as dores
Por conta dos incômodos constantes, a dor crônica pode afetar a rotina diária e a qualidade de vida. Diante disso, o tratamento precisa ser multiprofissional, já que as causas são interligadas a partir de problemas musculares, neurológicos, pós-operatórios e psíquicos, por exemplo.
Em maio deste ano, a compra de pomadas e emplastros subiram 10% nas farmácias de todo o País, segundo dados da consultoria IQVIA, que faz a coleta de estatísticas do mercado de saúde e bem-estar.
Outro levantamento, realizado pelo Google, revelou que nunca os brasileiros buscaram tanto pela palavra dor. A procura pelo termo “dor de cabeça” se elevou em 33% entre 15 de março e 20 de junho na comparação com as mesmas datas de 2019. Já “dor nas costas” passou por um crescimento de 22%.
Para tratar a dor crônica com sucesso, é preciso entender suas características. Conforme explica a Dra. Luci Mara, medicamentos analgésicos, anti-inflamatórios e relaxantes musculares costumam ajudar em casos leves.
“Uma pesquisa realizada pela SBED em 2017 constatou que o medicamento mais utilizado para dor foi um anti-inflamatório não hormonal que pertence a uma classe de fármacos bastante efetiva na promoção de analgesia.”
O Dr. Oliveira acrescenta que “atividades físicas e técnicas de relaxamento também colaboram para o alívio de tensões musculares que levam a quadros de dor.”
Já para os casos moderados e intensos, pode haver a necessidade de medicamentos mais fortes e intervenções cirúrgicas, como as minimamente invasivas, garante o médico do Hospital Sírio-Libanês. “A melhor indicação estará associada ao histórico de saúde do paciente, por isso, cada caso deve ser avaliado individualmente.”