
Os números são muito positivos: 26 grandes redes associadas e 9.300 lojas, representando metade do faturamento do varejo farmacêutico brasileiro; R$ 75 bilhões em vendas; e cerca de 1 bilhão de atendimentos por ano.
Esses são alguns dos resultados apresentados pela Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), que está há 30 anos no mercado, atuando pela promoção da qualificação de profissionais do setor e implantação de serviços clínicos de última geração.
Em entrevista exclusiva ao Guia da Farmácia, o CEO da entidade, Sérgio Mena Barreto, afirma que uma das maiores apostas da entidade estão para a liberação de novos serviços nas farmácias entre o fim de 2022 e 2023.
“As expectativas são de que a Consulta Pública 912, que é a de testes rápidos, seja apreciada dentro de um mês, o que significaria uma abertura de serviços bem interessante para o canal. Já a Consulta Pública 911, que se refere à Resolução de Diretoria Colegiada (RDC) 44/10, também está em andamento e fará uma revisão geral sobre todos os serviços que podem ser oferecidos no setor. As expectativas são de que os resultados dessa Consulta sejam liberados no início de 2023”, disse o executivo, reforçando que a Abrafarma deve fechar tanto 2022 quanto 2023 com crescimento entre 16% e 18%.
Acompanhe, a seguir, os principais momentos deste bate-papo.
Guia da Farmácia • Quais os resultados da Abrafarma em 2022 e quais as expectativas de crescimento para 2023? Onde estarão concentradas as principais apostas da entidade?
Sérgio Mena Barreto • Em 2023, vamos tentar repetir o esperado para 2022, que é um crescimento entre 16% e 18%. E os dois motores para esse resultado continuam sendo abertura de lojas, que ainda está forte e há vários investimentos em expansão. Abrimos cerca de 10% de unidades a mais por ano. Hoje, temos 26 redes e 9.300 lojas considerando todas as bandeiras.
O outro motor está na expectativa da liberação, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de outros serviços para as farmácias. As expectativas são de que a Consulta Pública 912, que é a de testes rápidos, seja apreciada dentro de um mês, o que significaria uma abertura de serviços bem interessante para o canal. Já a Consulta Pública 911, que se refere à RDC 44/10, também está em andamento e fará uma revisão geral sobre todos os serviços que podem ser oferecidos no setor. As expectativas são de que os resultados dessa Consulta sejam liberados no início de 2023.
Guia • Existem outros entraves que impedem um crescimento ainda maior da entidade?
Barreto • Sim. Não vamos crescer mais por conta da falta de produtos que estamos enfrentando. A realidade da China e a guerra de Rússia e Ucrânia são entraves, mas o que mais atrapalha é o descompasso que aconteceu com a indústria.
A cada 100 pedidos que faço, recebo 70, normalmente. Agora, estou recebendo 40 a 45. Se tivéssemos mais capacidade produtiva, estávamos com menos falta e o crescimento era maior.
Guia • E quais as projeções para as farmácias clínicas?
Barreto • A expectativa é a de ter 83% das nossas lojas com salas de serviços. O crescimento não tem sido maior em função da regulamentação não ter acompanhado. Então, é óbvio que o empresário fica muito reticente em colocar dinheiro num negócio que ainda não tem a liberação da Anvisa.
Quando estiver tudo autorizado, os investimentos serão maiores, tanto em relação à parceria com laboratórios de análises clínicas, quanto em novos equipamentos e fornecedores.
Guia • Espera-se uma relação mais forte entre laboratórios e redes de farmácias?
Barreto • Sim! Quando tivermos a liberação de testes rápidos, como também de postos de coleta nas farmácias, as parcerias serão um caminho natural. É um caminho natural também que haja interesse dos planos de saúde em usar as farmácias para determinados exames mais simples, o que pode baixar o custo do sistema de saúde. Mas para fazermos tudo isso, precisamos de regulamentação entregue pela Anvisa.
Guia • As farmácias se tornaram, de fato, um hub de saúde?
Barreto • Sim e essa foi uma das conclusões do Abrafarma Future Trends deste ano. Voltando um pouco no tempo, quando começou a pandemia na Itália e vimos o que acontecia, percebemos que muitas farmácias fecharam por lá, porque os colaboradores das lojas não se cuidavam e não existiam protocolos de segurança.
Então, constatamos a necessidade de criar esses protocolos para que não passássemos pela mesma situação.
Isso funcionou muito bem, na medida em que cuidamos das pessoas e conseguimos a liberação dos testes rápidos. Isso trouxe a consolidação do que a gente pregava. Que a farmácia se tornou o ponto maior de acesso, com 20 milhões de testes rápidos para Covid realizados.
E podemos avançar muito mais nesse sentido. Há alguns meses, vimos ações da NHS, que é a Anvisa inglesa, começando a desenvolver um protocolo para endoscopia na farmácia, com um sistema simples ao usuário.
Na Itália, exames como Mapa e Holter não são feitos mais em hospital e, sim, na farmácia. Então, a conclusão que temos com esses exemplos é a de que o Brasil ainda precisa descobrir a farmácia.
Guia • A população brasileira está pronta para essas mudanças, enxergando o canal com outros olhos?
Barreto • Sim! A Covid foi uma educação para todos os profissionais de saúde e aos profissionais que estão na farmácia, acelerando a transformação digital. E também serviu de educação para o usuário do canal. Alguns dados mostram a adesão ao tratamento, provando a conscientização da população. Uma das provas foram os milhares de autotestes vendidos.
Guia • Ainda falando sobre o consumidor, como você acredita que mudou o comportamento diante da pandemia? A participação digital no canal farma, por exemplo, deve continuar?
Barreto • O e-commerce nas farmácias saltou de R$ 500 milhões para R$ 4 bilhões. Fui a um evento faz pouco tempo sobre participação digital com representantes de vários setores e, ao comparar os resultados, via como o número do e-commerce no canal farma era irrisório. Mas isso mudou muito. Hoje, estamos com 7% de participação e caminhamos para 10% a 15% em alguns anos.
Guia • E essa consciência do consumidor com a saúde? Deve continuar?
Barreto • Acredito que esse movimento pode ter tempo limitado, porque o Brasil não faz educação com a saúde. Fala-se pouco sobre o tema. Durante a pandemia, isso ficou latente, mas está passando. Uma prova é que boa parte das pessoas deixou de usar máscaras. As pessoas vão esquecendo.
Acredito que essa consciência dura uns dois anos, porque as pessoas vão mudando de hábitos ao longo do tempo. A hora é agora de falar de saúde e autocuidado.
Guia • Falando em transformação digital, como deve ficar a telessaúde no País e como fica a relação farmacêutico e médico?
Barreto • Essa é uma questão que poderia ter avançado mais, mas não avançou. Na Suécia, em Estocolmo, por exemplo, se você levar um problema ao farmacêutico e ele não conseguir atender, ele vai a uma cabine dentro da farmácia e faz uma teleconsulta com um médico.
Quando começamos a regulamentar esse modelo aqui, não conseguimos passar a barreira de haver médicos na farmácia. Mas o mundo mudou.
Temos muitas pessoas morrendo no Brasil, por Acidente Vascular Cerebral (AVC), por exemplo, porque não trataram questões básicas, por falta de acompanhamento médico. Mas com um modelo parceiro entre médicos e farmácias, se encurtaria uma jornada do paciente, que pode superar 30 dias ou culminar no abandono ao tratamento por falta de acessibilidade. Temos de avançar para facilitar a vida do paciente e trazer mais adesão.
Guia • Sobre o Abrafarma Future Trends, que neste ano recebeu 4.500 pessoas, quais foram os pilares para esses resultados?
Barreto • Acredito que boa parte dos resultados deste ano foram reflexo da saudade das pessoas em estarem, novamente, presentes a um evento como esse. Todos os que encontrei disseram: “Ainda bem que vocês tiveram a iniciativa de fazer o evento presencial”.
De fato, foram dois anos on-line. Embora a gente coloque 7 mil pessoas na sala virtualmente, quantas delas realmente estão prestando atenção? Isso sem contar o networking que um evento presencial proporciona.
Outra frase que ouvi foi: “Vocês conseguiram adiantar oito meses da minha vida, porque trouxeram todas as pessoas com as quais gostaria de falar, nesse período, em dois dias. Isso não tem preço”.
Guia • E o Abrafarma Future Trends 2023? Já tem data?
Barreto • Sim! O evento está previsto para os dias 12 e 13 setembro de 2023. E o Prêmio Parceiros do Ano está marcado para o dia 17 de novembro, no Vibra Hall (antigo Credicard Hall) e será fechado para convidados.
Será o grande evento de comemoração dos 30 anos da Abrafarma, que ainda não havíamos celebrado por conta da pandemia.
Guia • Considerando essas três décadas da Abrafarma no mercado, como foi concluir esse ciclo em meio à pandemia. Quais as análises que você faz?
Barreto • Acho que nos saímos muito bem. As farmácias nunca estiveram tão bem quanto agora, em termos de imagem com a sociedade e relevância do papel das farmácias.
O resultado da pandemia teria sido muito diferente se a gente não tivesse atuado. Foram 20 milhões de atendimentos e testes, sendo que 10% dos pacientes estavam em estado grave o suficiente para serem encaminhados para hospitais. Então, de modo geral, podemos ter salvo, por baixo, 2 milhões de vidas. E nossa comemoração foi a de ter ajudado o País a superar esse momento!
Fonte: Guia da Farmacia
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