A pandemia de H1N1

Até o dia 23 de abril último, o País já registrava 290 mortes causadas pelo vírus. A região Sudeste é a mais afetada, com 988 casos somente em São Paulo

Conhecida como gripe, a influenza é uma doença viral com início repentino de sintomas, como febre, calafrios, tremores, dores de cabeça, dor muscular, mal-estar, entre outros; além dos sintomas respiratórios, como tosse seca, dor de garganta e coriza. Os vírus influenza são transmitidos por pessoas contaminadas ao tossir, espirrar e até mesmo ao respirar; mas o que de fato infecta são as mãos.

Atualmente, existem três tipos de vírus: A, B e C. O vírus influenza C causa apenas leves infecções respiratórias, sem impacto na saúde pública. Já os vírus influenza A e B são responsáveis pelas epidemias sazonais, sendo o A o responsável pelas grandes pandemias. Entre os subtipos de vírus influenza A, que circulam atualmente em humanos, estão o A (H1N1) e A (H3N2). 

No fim de 2015, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou sobre a maior circulação da mesma cepa de H1N1 que circulou em 2009, responsável pelo surto na época. Até fevereiro de 2016, a circulação do vírus da gripe tinha aumentado no Hemisfério Norte, com altos níveis de atividade em alguns países da Europa, norte da África e centro e oeste da Ásia.

No dia 3 de maio último, o Ministério da Saúde (MS) divulgou um boletim afirmando que o Brasil já tinha registrado 290 mortes causadas pelo H1N1 até o dia 23 de abril deste ano. Ao todo, foram 1.571 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por influenza A (H1N1). Com 1.106 registros, a região Sudeste é a mais atingida pelo vírus, sendo 988 casos apenas em São Paulo, que registrou 149 óbitos por H1N1. Apenas oito estados do Norte e Nordeste ainda não tinham relatado mortes causadas pelo vírus este ano.

“O vírus H1N1 é apenas um dos tipos de influenza, não diferindo dos demais no que diz respeito aos sintomas e sinais clínicos que provoca. Ele é de introdução recente nos seres humanos, tendo surgido a partir de um vírus de origem aviária com passagem entre os porcos. Isso levou a modificações genéticas que favoreceram sua replicação em seres humanos. Tratando-se de um vírus novo, a ausência de imunidade prévia por parte das pessoas levou à sua ampla disseminação, em um padrão de pandemia, entre 2009 e 2010. Atualmente, circula juntamente com os demais tipos de vírus da influenza responsáveis pela gripe sazonal, mas tem replicação mais eficiente em tecido pulmonar e induz uma imunidade menos eficaz, o que lhe confere a característica de desencadear quadros que evoluem mais frequentemente para condição grave”, revela o médico especialista em infectologia pelo Hospital Emílio Ribas de São Paulo e chefe do Departamento de Medicina Social da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Dr. Crispim Cerutti Júnior.

Neste ano, o vírus A (H1N1) está relacionado a casos graves da doença, geralmente traduzidos por insuficiência respiratória, alerta o Dr. Cerutti Júnior. “O surto se antecipou neste ano, provavelmente, por ser um vírus relativamente novo, o número de indivíduos imunes ao H1N1 na população ainda é baixo. Os tipos de vírus influenza circulam na época de inverno e causam doenças mais importantes nos extremos de idade (crianças menores do que cinco anos e idosos). Porém, os vírus novos não respeitam a restrição ao inverno e acometem indistintamente as várias faixas etárias, ocasionando casos graves também em jovens e adultos.”

Apesar do vírus estar atingindo todas as faixas etárias da população, pessoas com a imunidade comprometida, como, por exemplo, idosos, pessoas em tratamento de câncer, mulheres grávidas e diabéticos, estão mais propensas.

De olho aberto

O vírus H1N1 não é transmitido apenas pela tosse ou espirro, mas também pela respiração, além de se instalar em superfícies, como brinquedos, maçanetas, controle remoto, etc., sobrevivendo por mais de 24 horas. 

“Apesar de ser um vírus respiratório, o contágio por inalação de partículas respiratórias é muito limitado, porque as gotículas de secreção emitidas na tosse, fala ou espirro são pesadas e não viajam mais de um metro de distância a partir do acometido. Assim, a principal forma de contágio é o contato direto com pessoas infectadas, particularmente pelas mãos. A pessoa doente toca suas mucosas (boca, olhos ou nariz), retém o vírus em resíduos de secreção remanescentes em suas mãos e o transfere mediante contato com pessoas saudáveis que, por sua vez, o conduzem às suas próprias mucosas. Portanto, a dinâmica de sua transmissão está intimamente relacionada às condições de higiene, que são tão mais precárias quanto piores as condições de vida, moradia e saneamento das populações. Além do mais, as condições sociais desfavoráveis levam mais provavelmente a aglomerados humanos, o que facilita a transmissão respiratória de patógenos”, alerta o Dr. Cerutti Júnior.

De acordo com o chefe e fundador do Laboratório de Patologia Neuromuscular da Escola Paulista de Medicina e professor adjunto de Patologia Cirúrgica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Dr. Beny Schmidt, as epidemias virais causadas pelo influenza também estão intimamente ligadas à falta de saneamento básico, de água potável e de tratamento de lixo. 

“Um dos maiores reservatórios do vírus H1N1 é justamente o corpo das bactérias e dos bacilos que existem no esgoto e nas águas poluídas. As epidemias causadas por vírus transmitidas por mosquitos, como a zika, dengue e chikungunya, e esta atual, do vírus influenza, deveriam sensibilizar o governo para um projeto emergencial de saneamento básico no nosso País”, relata. 

Para ele, o vírus H1N1 se manifestou um pouco antes do esperado, mas dentro daquilo que se observa há tantos anos. “As estações de outono e inverno são testemunhas da influência cósmica na patologia humana, como as epidemias virais evidenciam ao longo da história da medicina.” 

Alerta para cardiopatas

O H1N1 pode trazer transtornos e até mesmo levar à morte, mas se o infectado tiver alguma doença cardíaca, a gripe pode matar em três ou quatro dias se não for dada a devida atenção. 

“O vírus H1N1, subtipo do influenza do tipo A, que causa a gripe, não fica só no local da infecção, percorrendo a corrente sanguínea, podendo chegar até o coração e causar a miocardite. A doença é caracterizada pela inflamação do músculo do coração, o miocárdio, que altera a função de bombeamento do sangue, ocasionando também o surgimento das arritmias. A miocardite causada por infecção viral, normalmente, pode vir acompanhada da pericardite. O problema pode ser tanto autolimitado, como levar à falência do orgão. Portanto, não se deve subestimar e as medidas preventivas são prioritárias”, alerta o cirurgião cardiovascular do Hospital do Coração (HCor), Hospital Sírio Libanês e Hospital Albert Einstein, Dr. Edmo Atique Gabriel.

Além da infecção percorrer a corrente sanguínea, pode causar uma sobrecarga no coração, causando insuficiência. “Todo paciente cardiopata deve ter ações preventivas, mas caso seja acometido pelo vírus e este cause a inflamação no organismo, é preciso tomar cuidado para não agravar o caso. O vírus pode trazer problemas, como mal-estar, dores no corpo, entre outros, e os cardiopatas devem tomar a medicação necessária para evitar esforços, já que o coração passa a ser mais exigido pelo organismo. Repousar é importante, assim como estar hidratado; porém, se o paciente possui insuficiência cardíaca, não pode ingerir muito líquido, então precisa dosar a quantidade para não se prejudicar. Em outros casos, deve-se hidratar adequadamente para melhorar a defesa do organismo. Em casos sérios, os pacientes precisam ser avaliados pelo médico para evitar complicações mais agudas, como sinais precoces de cardiopatia; e caso apresente inflamação com febre e pressão alta, é necessária a internação para evitar piora que leve à alteração mais severa do funcionamento do coração e da inflamação no organismo”, orienta o cardiologista e coordenador médico do pronto-socorro do HCor, Dr. Edgard Ferreira.

Mudanças climáticas X H1N1

Apesar dos comentários sobre o impacto das mudanças climáticas e do El Niño no surto antecipado de H1N1, a doutora em Ciências da Saúde pelo Programa de Saúde Pública e Meio Ambiente da Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz e especialista em efeitos e impactos na saúde humana decorrentes da exposição à poluição atmosférica, mercúrio e mudanças climáticas, Dra. Beatriz Fátima Alves de Oliveira, diz ser difícil afirmar que as mudanças climáticas impactem diretamente em surtos de H1N1, já que a gravidade e a extensão da doença dependem de uma teia complexa de fatores, entre os quais, destacam-se a imunidade ao vírus e as formas de interações das populações. 

“Em geral, os casos de H1N1 são mais comuns em meses mais frios e secos, condições climáticas estas que, de acordo com algumas hipóteses, permitem às partículas do vírus permanecer no ar por longos períodos de tempo e viajar distâncias maiores. Além disso, no inverno, as pessoas tendem a ficar em casa ou aglomeradas em ambientes fechados, aumentando as oportunidades de transmissão da doença. Em relação à influência das mudanças climáticas, alguns estudos realizados prioritariamente nos Estados Unidos mostram que estações com gripes consideradas amenas durante um inverno excepcionalmente quente poderia ser prenúncio de um surto na estação posterior. Uma das hipóteses para isso seria que invernos excepcionalmente quentes tendem a diminuir a propagação da gripe, entre elas a H1N1, e isto poderia deixar as populações mais vulneráveis às infecções no futuro, pois um menor número de pessoas desenvolveria defesas imunológicas. Assim, na temporada posterior, quando as gripes começam excepcionalmente cedo, a maior parte da população ainda não teve oportunidade de se vacinar, potencializando uma temporada ainda mais grave da doença”, conta a Dra. Beatriz.

Segundo ela, vale destacar que as vacinações ainda são os melhores instrumentos para combater a doença e que padrões semelhantes ao supracitado, em que os invernos quentes tendem a ser seguidos por uma grave epidemia de gripe na temporada seguinte, podem contribuir para políticas de saúde pública. “Portanto, a qualquer sinal de risco para uma epidemia na temporada seguinte, as autoridades de saúde podem se preparar e tomar medidas preventivas fortes – aumentando os esforços quanto à vacinação e tomando medidas necessárias para evitar a escassez da mesma, muitas vezes causadas por um pico inesperadamente cedo”, orienta. 

A especialista acredita que o fenômeno El Niño pode ter contribuído para a antecipação da doença, mas a sua gravidade e a extensão são resultantes da interação de diversas situações que levaram ao aumento de casos, como as taxas de contato, as funções imunitárias das populações e também as condições climáticas. 

“Em geral, o que podemos relatar são padrões positivos já mencionados na literatura entre o fenômeno El Niño e o aumento de casos de gripe A. Outro ponto que pode ser destacado é que, de um modo geral, fenômenos como o El Niño podem alterar o padrão de chuvas e calor, influenciando o movimento migratório dos pássaros, os principais vetores do vírus influenza, e com isso alterar também a cadeia de transmissão da doença entre os homens.” 

Campanha de Vacinação 2016

Seguindo a recomendação da OMS, a vacina influenza trivalente, usada na campanha este ano, produzida pelo Instituto Butantan e pela Sanofi Pasteur, é composta por cepas do vírus Myxovirus influenzae, fragmentadas, inativadas e purificadas de influenza A (H1N1) pmd09; influenza A (H3N2) e influenza B (linhagem Victoria). 

Com a mudança dos vírus da gripe a cada ano, a OMS atualiza duas vezes ao ano as recomendações sobre a composição da vacina contra os três tipos mais representativos em circulação (vacina trivalente): dois subtipos do vírus A e um do tipo B, mas, desde 2013, a OMS recomenda a vacina tetravalente, ao agregar proteção contra um segundo vírus tipo B, proporcionando maior proteção contra as infecções por este vírus. 

A Sanofi Pasteur é a fabricante da vacina quadrivalente, que oferece imunização também contra o vírus B e pode ser aplicada em crianças a partir dos 6 meses de idade. A nova versão conta com duas cepas A (subtipos H1N1 e H3N2) e duas cepas B (Victoria e Yamagata), linhagem de vírus B a mais do que a vacina trivalente. 

A escolha dos grupos de risco para vacinação nos postos de saúde do Brasil segue recomendação da OMS e tem respaldo em estudos epidemiológicos, tendo prioridade pessoas mais suscetíveis ao agravamento de doenças respiratórias. 

Oficialmente, a campanha nacional de vacinação começou no dia 30 de abril último, mas o MS adiantou o envio das doses para 22 estados, que anteciparam a vacinação devido ao grande número de caso de influenza A (H1N1). 

Para a campanha, que foi até o dia 20 de maio último, foram adquiridas 54 milhões de doses da vacina trivalente e, mesmo assim, alguns estados esgotaram as unidades antes do término do período de vacinação.

Segundo o presidente executivo da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), Sérgio Mena Barreto, desde 2014, a Lei 13.021 autoriza que as farmácias disponibilizem vacinas para uso imediato por parte da população, e mesmo dois anos depois de a medida ter sido aprovada no Congresso e sancionada pela ex-presidente, ainda não houve sua regulamentação para ser colocada em prática. 

“Agora, em plena crise da gripe H1N1, testemunhamos enormes filas nas poucas clínicas privadas, cerca de duas mil no Brasil, que disponibilizam vacinas a um preço elevado. Se a aplicação das vacinas nas farmácias já tivesse sido regulamentada, somente com a adição de quase seis mil estabelecimentos que compõem as redes associadas à Abrafarma, teríamos quadruplicado a capacidade privada de atendimento à população. Isso sem falar na facilidade de acesso, com os horários extensivos de atendimento e um provável preço mais acessível do serviço”, diz Barreto.

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Autocuidado e o surto

O autocuidado, conceito estabelecido pela OMS, trata da forma como a população estabelece e mantém a própria saúde e como previne e lida com as doenças. 

A Associação Brasileira da Indústria de Medicamentos Isentos de Prescrição (Abimip) desenvolveu quatro regras para o uso responsável de Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs): cuidar sozinho apenas de pequenos males ou sintomas menores, já diagnosticados ou conhecidos; escolher somente os MIPs, de preferência, com a ajuda de um farmacêutico; ler sempre as informações da embalagem do produto antes de tomá-lo; e parar de tomar o medicamento se os sintomas persistirem e consultar um médico. 

Dentro desse conceito, o vice-presidente da Abimip, Carlos César Bentim, diz que o momento vivido pelo País com o surto de H1N1 é delicado. “Os farmacêuticos e balconistas devem observar os sintomas que possam levar a uma suspeita de H1N1 e orientar que o cliente procure ajuda médica. Agora, se ele chegar com o diagnóstico do médico para atenuar os sintomas, orientar sobre a posologia e efeitos que o medicamento pode trazer nas próximas horas. Orientar, mas nunca recomendar o tratamento sem antes o paciente ter passado pelo médico.”

Sobre um possível aumento nas vendas de antialérgicos, analgésicos, antitérmicos, antigripais e vitaminas, Bentim diz ser comum, nesta época do ano, que sempre traz uma maior movimentação destes medicamentos, porém não foi observado nenhum aumento diferente quando comparado com anos anteriores. 

Autor: Renata Martorelli

 

 

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Esperança Ilusória

Edição 283 - 2016-06-01 Esperança Ilusória

Essa matéria faz parte da Edição 283 da Revista Guia da Farmácia.

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