
Após os 40 anos de idade, a atenção deve ser redobrada na hora da escolha do método anticoncepcional. Isso porque, nessa fase, é comum que algumas mudanças nos níveis de hormônios femininos se iniciem.
Portanto, é fundamental que a paciente, junto com o seu médico de confiança, avalie suas condições clínicas [hipertensão arterial, diabetes, infarto, Acidente Vascular Cerebral (AVC), obesidade, trombose venosa prévia da própria mulher ou na história familiar], para escolher a opção mais adequada.
“Também é importante avaliar o desejo reprodutivo futuro, pois existem métodos de longa duração excelentes para essa faixa etária, e se a mulher tiver a intenção de engravidar mais tarde, será necessário orientá-la sobre o congelamento de óvulos antes da introdução do método contraceptivo”, comenta a ginecologista do Hospital Albert Einstein, Dra. Aline Ambrósio.
Um dos grandes temores na introdução de um método hormonal são a trombose e as doenças arteriais. De acordo com o Instituto de Hematologia, Hemostasia e Trombose (IHHT)¹, o risco de trombose entre aquelas que usam anticoncepcional é cerca de cinco vezes maior. Apesar disso, o risco absoluto é baixo (cerca de cinco casos para cada 100 mil mulheres).
A ginecologista do Einstein complementa dizendo que os casos aumentam para 48 a 60 em 10 mil durante a gravidez e 300 a 400 em 10 mil mulheres durante o pós-parto.
“Os números indicam que a gravidez e o pós-parto são infinitamente mais arriscados para a ocorrência desses fenômenos vasculares do que usar anticoncepcional hormonal. E, com isso, fica claro que, apesar de alguns compostos hormonais elevarem, sim, o risco de trombose, até dobrá-lo em comparação com as não usuárias de hormônios, este risco é extremamente baixo.”
Ela alerta que, em mulheres com doenças que elevam risco de comprometimento do aparelho cardiovascular ou do fígado, ou naquelas com história familiar de trombose, deve-se avaliar o risco-benefício do uso dos métodos hormonais. Nestes casos, descartar a presença de trombofilias hereditárias e doenças genéticas que elevam risco de trombose e embolia deve ser prioridade antes da introdução do método, principalmente daquelas composições que combinam estrogênios e progestagênios.
Já pacientes diagnosticadas com um tumor benigno no fígado, a hiperplasia nodular focal, não devem usar pílulas combinadas orais, pois estimulam seu crescimento. Preferencialmente, essas devem usar métodos não orais e contendo somente progestagênios.
Avaliação de riscos
Muitas composições hormonais, principalmente as usadas por via oral, podem elevar uma proteína produzida no fígado, a SHBG, que carrega os hormônios sexuais. Assim, quanto mais elevada a SHBG, menos hormônio sexual ficará disponível para sua ação no receptor, podendo reduzir a resposta sexual com queda da libido, da lubrificação vaginal e da potência do orgasmo.
De acordo com a Dra. Aline, entre os métodos indicados para as mulheres nessa faixa etária, estão os LARCs. Eles contêm somente os progestagênios ou são feitos de metal e ambos não produzem impacto no aparelho cardiovascular. São eles: Dispositivos Intrauterinos (DIUs) contento 52 mg ou 19,5 mg de levonorgestrel, com duração de 5 a 7 anos; implante subcutâneo (sob a pele do braço) de DIUs contendo cobre ou cobre com prata, ambos com duração de 5 anos, no mínimo.
“De uso oral e contínuo, as pílulas contendo somente os progestagênios, como a drospirenona ou desogestrel, não elevam o risco das doenças arteriais (infarto e derrame cerebral) e têm baixo risco de trombose venosa, sendo excelentes opções para mulheres com 40 anos de idade ou mais”, complementa a médica.
Até poucos anos atrás, diz a especialista, as pílulas combinadas (contendo estrogênios e progestagênios), eram feitas com um estrogêneo sintético, o etinilestradiol, diferente do produzido em nosso corpo e muito potente. Assim, não eram indicadas para mulheres acima dos 40 anos de idade pelos riscos cardiovasculares.
Porém, na última década, surgiram as pílulas contendo valerato de estradiol e o 17-beta-estradiol, estrogênios naturais, passíveis de serem indicados nessa faixa etária, inclusive para alívio dos sintomas na transição menopausal. E logo, no mercado, há outra opção, com o estetrol combinado com um progestagênios que tem efeito diurético e antiandrogênico (antiacne e pelos), a drospirenona.
Segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo)², as mulheres na perimenopausa podem beneficiar-se da utilização de pílulas com baixa dose estrogênica (<30 mcg de etinil-estradiol). O uso de progestagênios seletivos – desogestrel, gestodeno, norelgestromina, clormadinona ou drospirenona – apresenta potencialmente menor impacto metabólico. Deve-se considerar, ainda, a possibilidade do uso dos dois recentes contraceptivos contendo estradiol, associados ao dienogeste ou ao acetato de nomegestrol.
Fatores de risco
Em situações em que o componente estrogênico não é indicado, como na hipertensão e outros antecedentes de risco cardiovascular, as minipílulas e a pílula de desogestrel podem ser utilizadas.
Da mesma forma, o implante de etonogestrel e a AMPd também não são contraindicados; entretanto, deve-se orientar as pacientes perimenopáusicas que optam por esses métodos sobre a possibilidade de sangramento irregular.
“Os principais sintomas que podem sinalizar problemas graves são peso ou dores nas pernas, especialmente nas panturrilhas, falta de ar e inchaço generalizado. Esses podem ser indicadores de trombose venosa. A procura pelo ginecologista deve ser rápida. Piora da performance sexual também deve ser avaliada para não impactar a vida da mulher e sua saúde mental. Muitas vezes, a troca do método pode favorecer a melhora da vida sexual individual e do casal”, comenta a Dra. Aline.
Sangramentos genitais irregulares e abundantes, ou o retorno do sangramento nas usuárias dos LARCs, podem indicar mau posicionamento dos DIUs, ou a não adaptação ao método hormonal. Estes métodos, mais raramente, também podem provocar quadros depressivos ou ansiosos, especialmente nas pessoas com história prévia de depressão e ansiedade.
Fonte: Guia da Farmácia
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