
Uma série de doenças costuma ocorrer com maior frequência quando os termômetros começam a baixar. Gripe, resfriado, sinusite, asma e otite são alguns problemas de saúde que se agravam durante o inverno. Por outro lado, existem algumas enfermidades que tendem a ter os sintomas amenizados nas épocas mais frias do ano.
Uma delas é Doença Venosa Crônica (DVC). Ainda que não tão conhecida popularmente, trata-se de uma das patologias mais prevalentes no mundo. Estudos internacionais apontam que, aproximadamente, entre 20% a 33% das mulheres e de 10% a 20% dos homens vão apresentar algum grau e da doença ao longo da vida.
De acordo com o cirurgião vascular e membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBVAC), Dr. Rafael de Athayde Soares, a DVC pode ser definida como o conjunto de manifestações clínicas causadas pela anormalidade (refluxo, obstrução ou ambos) do sistema venoso periférico (superficial, profundo ou ambos) e, geralmente, acomete os membros inferiores. “É recomendado utilizar a classificação CEAP para a estratificação dos pacientes com DVC. Essa classificação é baseada nos sinais clínicos (C), etiologia (E), anatomia (A) e fisiopatologia (P)”, detalha.
Tal diferenciação é importante uma vez que a DVC apresenta sintomas muito variados. No início do surgimento da doença, os pacientes costumam apresentar pequenos vasos dérmicos, chamados telangiectasias – mais conhecidos como vasinhos, que têm um apelo principalmente estético.
Com o passar do tempo, a condição pode gerar alguns sintomas mais desagradáveis, como dor e desconforto local, com dilatação e varizes, até o extremo mais grave da doença, com escurecimento, descamação e ressecamento da pele.
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Formas de tratamento
FRENTE MEDICAMENTOSA: as medicações flebotônicas são utilizadas há muitas décadas, mas não de forma uniforme. As drogas venoativas ou flebotônicas não podem ser consideradas um tratamento para a cura da Doença Venosa Crônica (DVC), porém, os estudos disponíveis, incluindo metanálises, indicam dois pontos positivos na utilização desses fármacos: contribuir no tratamento da doença venosa, com diminuição do edema e controle dos sintomas relacionados à presença da insuficiência venosa crônica em seus diversos graus de apresentação clínica.
FORMAS DE AÇÃO: apesar da grande quantidade de compostos químicos, a origem de muitos desses fármacos voltados ao tratamento de DVC podem ser divididos em naturais (alfa ou gama benzopironas, escinas), e sintéticos (dobesilato de cálcio e aminaftona). A ação desses medicamentos inclui:
• Diminuição da permeabilidade capilar, reduzindo a perda de líquido para o tecido intersticial e, consequentemente, o edema dos membros inferiores efeito linfocinético;
• Aumento da função do sistema linfático, o que ajuda também no retorno venoso e reduz o edema dos membros inferiores;
• Menor apoptose (morte celular que se processa com gasto de energia) das células endoteliais, o que garante maior sobrevida e função ativa dos vasos capilares, aumentando a função e contratilidade do vaso;
• Ação anti-inflamatória, por diminuição da adesividade de células de defesa.
RESULTADOS: a inflamação é uma das grandes responsáveis pelo surgimento das manchas hipercrômicas nos membros inferiores, com o depósito de hemossiderina na pele. Portanto, é fundamental a ação das medicações anti-inflamatórias, visando à melhora clínica dos sintomas de DVC.
Fonte: cirurgião vascular e membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBVAC), Dr. Rafael de Athayde Soares
Em estágios mais avançados, é comum que haja piora desses sintomas, como um grau mais elevados de dor, queimação e inchaço. Também pode ocorrer a abertura de feridas nas pernas que tendem a demorar anos para cicatrizar. Além disso, outros sintomas, tais quais formigamento, cãibras de membros inferiores, pernas inquietas, cansaço de pernas e fadiga, também podem estar presentes.
Como fica o quadro no inverno?
O inverno costuma trazer certo alívio aos pacientes portadores de DVC, por conta do papel muito importante que o sangue desempenha na manutenção da temperatura corporal. “O frio produz vasoconstricção (contração) dos vasos sanguíneos, o que provoca menor perda de líquido para o tecido intersticial, reduzindo o edema, além de contrair um pouco os vasos doentes e dilatados”, explica o Dr. Soares.
A redução do inchaço colabora para a diminuição das dores nas pernas. Outro ganho comum é a melhora do incômodo estético que a doença pode gerar na perna. O frio tende a diminuir o tamanho das tributárias varicosas, deixando-as menos exuberantes e chamativas nessa época do ano. Além disso, o uso de calças é mais frequente o que reduz a exposição do corpo.
Causas e grupos de risco
Entre os fatores de risco para o desenvolvimento da doença, os mais comuns são: o aumento da idade, histórico familiar positivo para a DVC, o uso de contraceptivos orais, pacientes que trabalham muito tempo em pé, histórico de trombose venosa profunda prévia e sedentarismo. Este último fator ganhou força no último ano.
“Esta pandemia fez com que as pessoas diminuíssem a atividade física e permanecessem muito tempo sentadas ou paradas. A falta desta mobilidade provoca uma diminuição da força muscular (até mesmo atrofia se for em períodos longos) dificultando o retorno venoso e levando ao aparecimento de um sintoma bastante frequente nestes últimos meses, o edema nos membros inferiores”, alerta o médico chefe de equipe vascular no Hospital Santa Paula, Dr. Flávio Duarte.
A doença tende a ser mais comum em pacientes do sexo feminino. Isso ocorre porque a ação dos hormônios estrogênio e progesterona estão associados a uma maior propensão ao desenvolvimento de DVC. Portadores de obesidade também fazem parte do grupo de risco, uma vez que o excesso de peso sobrecarrega o sistema venoso, particularmente das pernas, facilitando o aparecimento da dilatação venosa.
“O excesso de peso dificulta muito o retorno venoso. Além disso, pessoas muito obesas tendem a ser sedentárias, e a falta de movimento piora a circulação. É um ciclo vicioso do mal. É muito importante que pessoas com excesso de peso sejam ativas. Porém, é melhor uma pessoa com excesso de peso ativa do que um magro sedentário”, alerta o presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular – Nacional, Dr. Bruno Naves.
O movimento muscular, particularmente da panturrilha (batata da perna), é um importante mecanismo que auxilia na circulação das pernas. A falta de exercícios piora essa circulação e aumenta a chance de problemas venosos. Por isso, manter o corpo em movimento é uma das recomendações não medicamentosas para a DVC.
“Fortalecer a musculatura da panturrilha com exercícios resistidos, criar o hábito de, pelos menos três vezes ao dia, colocar os pés acima do coração, praticar atividade física diariamente, manter um peso equilibrado e, se fumar, parar”, indica o Dr. Naves.
O tratamento medicamentoso deve ser uma terapia adjuvante na condução da terapêutica dos pacientes com DVC, porque atua aliviando os sintomas da doença e auxilia também no pós-operatório da cirurgia de varizes, reduzindo edema e as dores. Mas além das medicações, as mudanças nos hábitos de vida são fundamentais para reduzir os sintomas de DVC. Entre as mais recomendadas estão a hidratação, com ingestão frequente de líquidos, prática de exercícios físicos e combate ao sedentarismo e à obesidade.
Fonte: Guia da Farmácia
Foto: Shutterstock