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Crescimento no setor, apesar da economia fraca

Segmento farmacêutico mantém expansão bem superior ao do Produto Interno Bruto brasileiro em 2014, com a expectativa de fechar 2015 com bons resultados. Genéricos mais uma vez puxaram a elevação das vendas

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil quase ficou no traço em 2014, marcando crescimento de 0,1%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse resultado é o mais fraco desde 2009, quando houve uma retração de 0,2%. Para alguns analistas, foi até uma surpresa positiva, pois se previa que a economia do País ficaria menor, tangenciando a recessão. Em valores correntes, a riqueza gerada em 2014 atingiu R$ 5,52 trilhões (US$ 1,73 trilhão). Já o PIB per capita ficou em R$ 27.230. Mesmo assim, o resultado é bem pior do que o de 2013 quando o PIB chegou a 2,7%. De acordo com levantamento do IBGE, a pequena alta no ano passado foi puxada pelos serviços, que cresceram 0,7%; e pela agropecuária, com avanço de 0,4%. O consumo das famílias e do governo também cresceu: 0,9% e 1,3%, respectivamente. Já a indústria foi uma das que mais sofreu, encolhendo 1,2%. Os investimentos também tiveram baixa de 4,4%. Para alguns analistas financeiros, a expectativa para 2015 é de um ano difícil, de ajustes, com crescimento baixo para a economia como um todo.

A taxa de juros do Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) em patamar mais elevado para segurar a inflação, que teima em não ceder, associada à redução do consumo interno, à reticência dos investidores externos em aplicar mais no Brasil e ao cenário político conturbado são fatores que devem conter a expansão da economia brasileira. Enquanto isso, o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê crescimento econômico global de 3,5% para 2015, com a recuperação dos países desenvolvidos em um contexto favorável de queda dos preços do petróleo. Segundo o Fundo, as economias avançadas deverão crescer 2,4% neste ano, em relação ao 1,8% de alta em 2014. Para a China, motor da economia global, que nos últimos anos apresentou crescimento anual de dois dígitos, o relatório do organismo aponta avanço moderado de 6,8% neste ano. A maioria dos emergentes, contudo, podem ter o quinto ano de desaceleração, a um ritmo de 4,3% de alta contra 4,6% de 2014. Já a América Latina deve sofrer mais, com crescimento de apenas 0,9%.

Canal Farma

Descolado em parte da realidade da economia brasileira, o setor farmacêutico manteve o crescimento em 2014. A indústria elevou suas vendas em 12%, com faturamento de R$ 65,8 bilhões, contra R$ 58,1 bilhões em 2013, segundo levantamento da consultoria especializada em mercado farmacêutico, a International Marketing Services Health (IMS Health). Em unidades, a expansão foi de 7,9%, passando de 2,9 milhões de caixas para 3,1 milhões. Apesar das incertezas deste início de ano, os analistas da indústria acreditam que as perspectivas para o setor farmacêutico no Brasil sejam favoráveis. “Se a taxa de desemprego permanecer baixa e a inflação estiver sob controle, o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma) projeta para o ano um crescimento de dois dígitos – de 12% a 13%”, afirma o presidente executivo do Sindusfarma, Nelson Mussolini. O panorama dos próximos anos vai depender de o plano econômico do governo criar as condições necessárias para a retomada dos investimentos, por meio de medidas como controle de gastos públicos, redução da carga tributária e melhoria da infraestrutura, alerta Mussolini.

Assim sendo, “acreditamos que o País continuará, por muito tempo, a ser promissor para a indústria farmacêutica e os demais elos da cadeia”, diz Mussolini. “Em linhas gerais, o Brasil é visto pela indústria farmacêutica internacional como um País diferenciado e com dinâmica própria, em virtude do tamanho de sua economia e de sua população e, também, de seu amplo sistema de saúde público-privado”, afirma o executivo, lembrando que em 2014, por exemplo, enquanto os principais mercados farmacêuticos cresceram 1% ou 2%, o faturamento da indústria farmacêutica brasileira aumentou 12%. Além disso, as compras governamentais diretas e os programas de acesso como o “Aqui Tem Farmácia Popular” vêm crescendo ano a ano. “O Brasil deverá continuar a atrair empresas e investidores internacionais interessados em explorar as potencialidades do setor. Ainda mais se a esperada estabilização econômica nos Estados Unidos e na Europa se confirmar, o que poderá canalizar mais recursos para o País”, acredita Mussolini.

Os genéricos mais vendidos
(em unidades)

1. Citrato de Sildenafila (Neo Química)
2. Losartan Potassium (Neo Química)
3. Levotiroxina Sódica (Merck Serono)
4. Citrato de Sildenafila (Eurofarma)
5. Hidroclorotiazi (EMS Pharma)
6. Dipirona Sódica (EMS Pharma)
7. Losartan Potassium (EMS Pharma)
8. Sinvastatina (Sandoz do Brasil)
9. Losartan Potassium (Teuto Brasileiro)
10. Simeticona (Medley)

Os 10 maiores laboratórios
(em faturamento)

1. EMS Pharma
2. Neo Química
3. Aché
4. Eurofarma
5. Medley
6. Sanofi
7. Sandoz do Brasil
8. Novartis
9. Teuto Brasileiro
10. Legrand

Fonte: IMS Health

Parte Importante

Um dos principais responsáveis pelo bom desempenho da indústria farmacêutica brasileira é o segmento de genéricos, que responde por um quarto da receita do setor – encerrou 2014 com faturamento de R$ 16,2 bilhões. O montante foi 18,5% superior aos R$ 13,7 bilhões aferidos em 2013. Em unidades a performance dos genéricos foi ainda mais expressiva, se comparada com a do setor como um todo. Cresceu de 10,6%, ante a uma alta de 7,9% registrada pelo mercado em geral. Ao longo dos 12 meses de 2014, foram comercializadas 871,7 milhões de unidades de medicamentos genéricos contra 788,2 milhões no ano anterior. Os dados são da Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos (Pró Genéricos) com base nos indicadores do IMS Health. “Em um ano marcado pelo fraco desempenho da economia brasileira, o mercado de medicamentos genéricos conseguiu manter crescimento acima da casa dos dois dígitos em unidades, o que é expressivo”, afirma a presidente executiva da Pró Genéricos, Telma Salles. “Com preços, em média, 60% inferiores aos dos produtos de referência, os genéricos ganham ainda mais relevância em cenários de economia estagnada e risco de comprometimento na renda”, acrescenta a executiva, destacando que o desempenho acima da média do setor se dá principalmente pelo amadurecimento dos genéricos como uma política eficiente de saúde pública, aliando em um mesmo produto preço baixo, qualidade, eficácia e segurança. “Conquistamos a confiança do consumidor e dos profissionais da saúde que sabem que podem contar com os genéricos”, analisa.

Para 2015, as perspectivas do segmento mostram-se positivas, segundo Telma, mesmo com o provável acirramento da concorrência com similares, agora também intercambiáveis com os de referência. “Há mercado para todas as categorias e os genéricos seguirão ocupando seu espaço. São os únicos medicamentos que, de saída, já custam 35% a menos que os produtos de referência”, destaca a executiva.

Vale observar também que a intensa presença dos genéricos no mercado brasileiro se reflete no peso que alcançaram no faturamento das dez maiores farmacêuticas instaladas no País. Segundo levantamento da Pró Genéricos, entre fevereiro de 2014 e janeiro deste ano, a categoria representou pouco mais de um quarto (25,34%) das receitas das gigantes do setor. Na relação dos dez maiores laboratórios do País em faturamento, ranqueados pelo IMS Health, todos produzem genéricos diretamente ou por meio de subsidiárias. Líder da indústria, a EMS, com faturamento de US$ 5,5 bilhões nos 12 meses pesquisados pela Pró Genéricos, é também a maior vendedora de genéricos, com receitas de US$ 2,084 bilhões, cerca de 38% do total.

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Participações Particulares

A Hypermarcas, dona do laboratório Neo Química – segunda maior farmacêutica no ranking geral com US$ 3,536 bilhões faturados no mesmo intervalo – teve receitas de US$ 830,8 milhões com genéricos. Na terceira do ranking geral do setor, a Aché, os genéricos responderam por 22,45% do faturamento; enquanto na Teuto, nono lugar, o peso foi 37,7%. Em unidades, o levantamento da Pró Genéricos indicou que as empresas do ranking geral da indústria que atuam no mercado de genéricos produziram 775 milhões de unidades entre fevereiro do ano passado até janeiro, com crescimento de 9,93% em comparação com 705 milhões de unidades produzidas um ano antes. Esse volume correspondeu a 88,44% do total de medicamentos produzidos no Brasil no período. Os genéricos encerraram 2014 com 28% de participação de mercado contra 27% registrado no final de 2013; e a expectativa é fechar 2015 com 30% de participação, segundo informa a Pró Genéricos.

Em 2014, segundo o diretor da unidade de negócios de CMCare & General Medicines da Merck Serono, divisão farmacêutica do grupo alemão Merck, Renato Oliveira, apesar das variações do mercado, os genéricos cresceram impulsionados pela chegada de novos produtos. Na Merck Serono, os genéricos representaram 12% do faturamento. “Em 2015, nossa expectativa é de alcançar 22% neste segmento, o que representa o dobro do crescimento estimado para o mercado da categoria. Estão previstos cinco lançamentos da empresa, já em fase de planejamento e avaliação”, revela Oliveira. A fábrica da empresa no Rio de Janeiro está se expandindo e a expectativa é elevar de 10% a 30% a sua capacidade operacional total, conta o executivo. Hoje, são produzidos cerca de 1,2 bilhão de comprimidos por ano, entre medicamentos de referência e genéricos.

Com a previsão de lançar entre três e quatro novos medicamentos genéricos em 2015, a Medquímica está otimista. Em 2014, mesmo tendo sido um ano atípico com Copa do Mundo e eleições, a empresa manteve o crescimento na casa dos dois dígitos. “Para 2015, estamos com perspectiva de crescimento para todas as linhas de produtos”, afirma o diretor industrial da Medquímica, Jadir Vieira Júnior. Segundo o executivo, a empresa tem investido continuamente no lançamento de novos genéricos, pois esse é um ramo farmacêutico em franco crescimento, proporcionando ao laboratório grande visibilidade tanto no mercado público quanto no privado. “Além disso, a Medquímica passou, nos últimos dois anos, por uma total reformulação do parque fabril, com a inauguração, no final de 2013, da nova planta de sólidos, atualmente em total operação, com capacidade instalada de 250 milhões de comprimidos por mês”, completa.

Em 2014, a Geolab cresceu bem acima do mercado na linha de genéricos, com um faturamento 60,9% superior em relação a 2013. Para 2015, as perspectivas são ainda mais otimistas, segundo a gerente de marketing da empresa, Bibiana Dalla Nora. “Nosso planejamento é crescer na casa dos 80%. Estamos preparados para suprir a demanda comercial planejada para 2015. Investimos na planta industrial no decorrer de 2014, obtendo um ganho significativo em capacidade produtiva”, ressalta. Ainda para o primeiro semestre, está previsto o lançamento de 11 novas apresentações de genéricos, que vão desde moléculas mais tradicionais do Programa Farmácia Popular até produtos semi-exclusivos, como é o caso de alguns colírios genéricos de cadeia fria, pondera a executiva.
“Embora a taxa de crescimento dos genéricos esteja diminuindo ao longo dos anos, esse segmento continua se desenvolvendo a um ritmo superior ao do mercado farmacêutico total. Sabemos que existem muitas oportunidades a serem exploradas nessa categoria de medicamentos”, avalia o gerente de produto da Cimed, Leonardo Silva. “Se compararmos a penetração dos genéricos no Brasil e em mercados mais maduros, como EUA, Alemanha e Japão, as oportunidades ficam ainda mais evidentes”, revela o executivo, lembrando que 2014 foi um ano muito proveitoso para a Cimed, pois a empresa manteve o crescimento de dois dígitos. “Já 2015 é um ano de muitas expectativas, pois teremos lançamentos importantes. Estamos investindo na ampliação da capacidade fabril para atender à crescente demanda por nossos produtos. Pretendemos aumentar o portfólio da empresa, investindo ainda mais em nosso instituto para pesquisa e desenvolvimento de produtos.”

Mesmo com o mercado de genéricos não avançando no ano passado conforme o esperado, a Prati-Donaduzzi continua crescendo, em média, 25% ao ano. A afirmação é do vice-presidente da empresa, Eder Maffissoni. “Para 2015, nossa perspectiva é de avanço no segmento. Acredito que será um período mais difícil, mas os genéricos têm potencial de expansão. Uma das explicações é o preço, que é inferior ao dos produtos de referência”, afirma Maffissoni, destacando as diretrizes da empresa para o ano. “Estamos ampliando a capacidade de produção. Inauguraremos a nova unidade fabril com capacidade produtiva de aproximadamente seis bilhões de doses terapêuticas por ano, aumentando 50% a produção de medicamentos sólidos da Prati-Donaduzzi.” Atualmente, há 77 produtos protocolados para registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No primeiro trimestre do ano, a empresa pretende lançar o genérico da substância cloridrato de metformina de liberação prolongada com 30 comprimidos. O medicamento é um genérico inédito do produto referência Glifage XR, do laboratório Merck, e é indicado para tratar Diabetes tipo 2 em adultos (isolado ou como complemento) e tipo 1 (por complementação à insulina) e, também, para a Síndrome dos Ovários Policísticos. A concentração de 500 mg já está disponível pelo Programa Farmácia Popular.

Reflexos no varejo

Considerando as grandes redes de farmácias, o crescimento da receita em 2014 também foi expressivo, atingindo 12,81% em comparação com o ano anterior, que havia crescido 13,84% em relação a 2012. Ou seja, o varejo farma conseguiu manter as vendas apesar da queda do consumo no País. O faturamento do varejo farmacêutico cravou R$ 32,39 bilhões ante a receita bruta de R$ 28,7 bilhões obtida em 2013, segundo a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), com base em levantamento da Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo (FIA-USP). A Abrafarma reúne as 29 maiores redes de farmácias, as quais representam cerca de 40% das vendas de medicamentos no País. Já no radar da Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (Febrafar), que reúne as drogarias independentes, os genéricos têm aumentado participação nas vendas. Somente no segundo semestre de 2014, os genéricos encerraram com fatia de 25,6% das vendas, considerando apenas medicamentos. Para o presidente da Febrafar, Edison Tamascia, a intercambialidade dos similares não deve modificar o quadro atual de vendas dos genéricos. “Em princípio, acredito que não haverá mudanças significativas. É óbvio que a entrada em vigor da nova lei criou uma expectativa muito grande, mas, na prática, não estamos observando uma movimentação que possa mudar a dinâmica do mercado”, acredita.

 

Por Marcelo de Valécio

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