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Dor tecnológica

Em fevereiro deste ano, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou uma pesquisa mostrando que o Brasil já tem 116 milhões de usuários de internet

Os dados referem-se a uma amostragem feita até o fim de 2016 e revelam ainda que os celulares são os dispositivos preferidos para acessar a internet por 94,6% dos entrevistados.

Ao mesmo tempo em que o maior acesso abre as fronteiras para o conhecimento e o relacionamento profissional e interpessoal, também abre as portas para o agravamento das dores no pescoço.

Segundo o ortopedista da Clínica Ludens de Campinas (SP), Dr. Wilisson Ribeiro Filho, o fato de passar muito tempo usando os aparelhos acaba submetendo as pessoas a posições de desequilíbrio muscular, o que gera dor e desconforto.

“Quando há a flexão da coluna cervical e a cabeça é projetada para frente, o peso da mesma deixa de se apoiar no eixo ósseo da coluna e exige da musculatura da cervical que faça o trabalho de sustentação contra a gravidade. Esses movimentos podem ser feitos; porém, como as pessoas passam horas nestas posições, isso pode gerar fadiga da musculatura e dor”, explica.

A dor pode variar em intensidade e abrangência desde um peso fraco e localizado, com sensação de cansaço, até uma dor mais forte e espalhada para toda região cervical que pode incluir um ou ambos os ombros.

“A dor pode ou não dificultar tarefas e, em alguns casos, impossibilitar a realização das mesmas. Pode mesmo impedir as atividades laborais. Muitos desenvolvem enrijecimento do pescoço e a incapacidade de rotação da cabeça para um ou ambos os lados”, diz o Dr. Oliveira Junior.

Ainda segundo o ortopedista e traumatologista da Clínica Proattiva, Dr. Lucas Alvarez, a característica da dor no pescoço é variável, podendo ser em queimação, sensação de peso, irradiada, cefaleia e até mesmo aguda excruciante, levando o indivíduo a recorrer à analgesia venosa nas emergências médicas.

O ortopedista diz que algumas medidas podem ser tomadas para evitar tal problema. “O primeiro passo é diminuindo o tempo de uso desses aparelhos, que podem trazer repercussões até mesmo que não osteomusculares. Aumentar o intervalo de uso ajuda a relaxar a musculatura que é muito exigida. Também é importante corrigir a posição para diminuir o estresse sobre a coluna cervical, com menos flexão e mantendo a cabeça no mesmo eixo de toda a coluna”, orienta.

“Na fase aguda da dor, é importante lançarmos mão do tratamento medicamentoso com analgésicos, anti-inflamatórios, relaxantes musculares, podendo associar calor e medicamentos tópicos para alcançarmos o alívio dos sintomas e observarmos a necessidade de continuidade da investigação diagnóstica. Caso identificada alguma alteração estrutural, há necessidade de avaliar qual o melhor tratamento a ser seguido”, comenta o Dr. Alvarez.

“No Brasil, o usuário gasta em média 280 minutos (mais de quatro horas e meia) ligado (ou on-line) nos celulares todos os dias”

Vale reforçar que o desconforto doloroso está relacionado à postura do usuário. Boa parte das pessoas passa o dia com a adoção da postura com a cabeça baixa, os olhos fixos no celular e os dedos deslizando sobre a tela, alternando entre os aplicativos e interagindo com as redes sociais, às vezes, até telefonando.

“No equilíbrio, um indivíduo em posição ‘neutra’, o peso da cabeça de uma pessoa adulta equivale a cinco quilos (variando 500 gramas para cima ou para baixo). Quando inclinada para baixo, o pescoço passa a sustentar um peso maior, que pode chegar a valores extremos de 27 quilos”, diz o Dr. Oliveira Junior.

Ele esclarece ainda que, em 2017, GUSTAFSSON* e colaboradores, publicaram dados colhidos, durante cinco anos, de uma população de adultos jovens. O objetivo dos pesquisadores foi avaliar o impacto da digitação em celulares.

“O estudo mostrou que, após um ano de seu início, houve uma grande taxa de queixas de cervicalgia persistente e sensação de dormência em membros superiores. Os sintomas permaneceram durante os cinco anos de acompanhamento”, conta o médico.

Aplicativos instalados nos principais sistemas operacionais permitem mensurar o tempo gasto em cada aplicativo e possibilitam, por acesso direto ao próprio usuário e também por modo remoto (às operadoras e aos fabricantes), a obtenção de informações a respeito.

Cinco dicas para evitar a dor com o uso do smartphone. Oriente os clientes!

1. Usar o aparelho o mais próximo possível da altura dos olhos. Evitar a inclinação da cabeça.
2. Se estiver sentado, apoiar os braços e relaxar também os ombros.
3. Manter a coluna com maior apoio possível.
4. Fazer pausas a cada hora. Evitar a fadiga muscular e dos olhos.
5. Alongar-se pela manhã e no fim do dia. Evitar levar o aparelho para cama. Relaxar!

Fonte: fisioterapeuta da Clínica Ludens de Campinas (SP), Aline Vasconcellos Caporalli

“No Brasil, o usuário gasta em média 280 minutos (mais de quatro horas e meia) ligado (ou on-line) nos celulares todos os dias”, afirma o neurocirurgião.

Além das alterações posturais, o usuário pode ter outros fatores etiológicos ou predisponentes para cervicalgia que, em conjunto, podem interagir e induzir quadros mais graves.

O fisioterapeuta Veraldo José Varsone alerta que as recomendações para uma boa ergonomia da cabeça em relação à visualização das telas, seja de um celular, tablet ou notebook, começam pela distância em que o indivíduo deve estar do aparelho. “Entre a visão e a cabeça, deve haver uma distância de pelo menos 30 centímetros. O correto é estar com a cabeça e coluna eretas e alinhadas, independentemente do indivíduo estar em pé ou sentado. Além disso, o queixo deve estar encaixado e o olhar fixo para frente”, recomenda.

Segundo ele, o ideal é utilizar uma mesa de apoio com 15 graus de inclinação ao usar os eletrônicos. “Esses problemas tornaram-se muito comuns aos jovens que usam eletrônicos de forma exacerbada, e quando as dores começam, se não houver uma mudança no comportamento, o quadro pode evoluir para desde uma hérnia de disco até lesões com sequelas nas mãos, nos punhos, dedos, antebraços e ombros”, alerta Varsone.

Foto: Shutterstock

Terceira idade em destaque

Edição 307 - 2018-06-01 Terceira idade em destaque

Essa matéria faz parte da Edição 307 da Revista Guia da Farmácia.