A importância da continuidade no tratamento para a cura de doenças

Muito se tem discutido sobre a importância da adesão ao tratamento, já que vários pacientes abandonam as recomendações médicas no meio do caminho, por diversos motivos

A Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza a adesão ao tratamento como “o grau em que a conduta de um paciente, em relação à sua tomada de medicamentos, seguimento de uma dieta ou modificações nos seus hábitos de vida, corresponde com as recomendações acordadas com os profissionais de saúde”. A entidade pondera, entretanto, que “pacientes têm dificuldade em seguir o tratamento recomendado”.

Para o efetivo controle de uma doença, especialmente em casos crônicos, é preciso seguir todas as orientações médicas, que incluem, de maneira geral, tomar a medicação prescrita de forma contínua e adotar algumas mudanças no estilo de vida. No entanto, isso é algo que ainda está bem longe da realidade.

“A adesão ao tratamento de longo prazo, em países desenvolvidos, é de, aproximadamente, 50%. Em países em desenvolvimento, como o Brasil, essas taxas são ainda menores, podendo variar de 37% a 57%, dependo da enfermidade, tipo de atendimento de saúde, apoio de equipe multiprofissional e outras variáveis”, constata o coordenador do curso de Farmácia da Universidade Anhembi Morumbi, Geraldo Alécio de Oliveira.

E aderindo ao tratamento, sem dúvida, os pacientes são largamente beneficiados. “Eles passam a ter a sua condição controlada, podendo, na maioria das vezes, manter uma vida normal e economicamente ativa”, comenta Oliveira, salientando que as vantagens se estendem para outras esferas.

 Papel do farmacêutico na adesão

A prática mostra que o acompanhamento farmacêutico ao paciente, certamente, contribui, de forma positiva e eficaz, na continuidade do tratamento. Acompanhe, a seguir, alguns passos importantes nesse processo.

Invista no conhecimento

Estudos relatam que 50% dos pacientes não puderam descrever, corretamente, por quanto tempo deveriam tomar sua medicação; 70% não puderam relatar a frequência de administração; e 23% não puderam identificar o objetivo dos fármacos prescritos. Portanto, deve-se orientar o paciente e ajudá-lo na compreensão da sua doença e da farmacoterapia adequada.

Humanize no atendimento

O farmacêutico deve parar de focar somente no medicamento enquanto produto e passar a ser direcionado ao paciente, com a preocupação de que os riscos inerentes à utilização sejam minimizados. É preciso gerenciar melhor o tempo, diminuir as tarefas administrativas e aumentar as atividades clínicas.

Cultive uma relação próxima

O contato entre o farmacêutico e cliente torna possível traçar o perfil do paciente, permitindo avaliar suas limitações no entendimento da doença; o grau de entendimento que existe sobre o agravo à saúde; as comorbidades presentes; esquemas terapêuticos em uso; relação com o medicamento e comprometimento com a recuperação; rotina de vida e de administração de medicamentos; entre outros temas considerados pertinentes.

Esteja atendo aos polimedicados

O desenvolvimento de mapas de administração de medicamentos são providenciais na orientação ao esquema posológico, especialmente em pacientes que tomam diversos medicamentos.

Alerte sobre situações adversas

O esclarecimento das possíveis reações adversas e deixar claro que, não necessariamente, o paciente vai apresentá-las são aspectos importantes. Também é válido avisá-lo sobre a duração do tratamento.

Avise sobre a responsabilidade do paciente

O farmacêutico tem de orientar quanto à participação ativa do paciente no processo de restabelecimento de saúde. Afinal, sem comprometimento no processo, a recuperação da saúde não acontecerá.

Avalie os resultados

O Teste de Morisky-Green avalia o comportamento do paciente frente ao uso do medicamento, com base nas respostas a quatro perguntas relacionadas a horário, esquecimento, percepção de ausência de sintomas e ausência de efeitos colaterais.

Já o Teste de Batalha consiste na realização de três perguntas em relação ao entendimento da enfermidade que o usuário de medicamento possui. Os profissionais interessados podem buscar mais informações em sites e livros especializados.

Comunique sobre os riscos do abandono

É natural que, ao sentirem melhora, muitos pacientes tendam a achar que estão curados. Assim, é importante alertar que essa atitude pode representar risco à saúde, como o retorno dos sintomas, aparecimento de complicações e, em alguns casos, o surgimento de resistência ao medicamento.

Fontes: farmacêutica responsável pela Farmácia Universitária da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), Maria Aparecida Nicoletti; palestrante e consultor em comportamento do consumidor e marketing de varejo, Messias Cavalcante; e coordenador do curso de Farmácia da Universidade Anhembi Morumbi, Geraldo Alécio de Oliveira

“A família pode se dedicar a outras atividades e deixar de lado seu papel de cuidadora; e o sistema de saúde economiza com a redução de internações emergenciais e intervenções cirúrgicas”, reforça.

A adesão (ou não) do paciente ao seu tratamento também traz reflexos para as farmácias, conforme analisa o palestrante e consultor em comportamento do consumidor e marketing de varejo, Messias Cavalcante.

“No que se refere à farmácia, esse abandono remete à perda de vendas, mas, principalmente, ao distanciamento do paciente. E isso reduz a realização do objetivo primário desses estabelecimentos, que é ser um local de dispensação de medicamentos para a saúde e o bem-estar”, conclui.

Causas diversas

São inúmeros os fatores capazes de influenciar na adesão ao tratamento. Segundo a farmacêutica responsável pela Farmácia Universitária da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), Maria Aparecida Nicoletti, eles podem estar relacionados a fatores externos ao paciente, como regime terapêutico proposto e, dependendo do nível de complexidade, também podem estar relacionados à quantidade de medicamentos a ser administrada e aos tratamentos prescritos (quando apresenta comorbidades).

Também são fatores que influenciam, negativamente na continuidade, a presença de reações adversas, características do medicamento (via de administração, apresentação, sabor e tipo de embalagem), falhas de tratamentos anteriores e a resposta terapêutica não satisfatória para o grau de expectativa presente.

Outro aspecto digno de nota diz respeito aos fatores relacionados à relação profissional de saúde-paciente. “Existe uma correlação positiva entre conhecimento das drogas e adesão. Assim, o bom grau de informação sobre a medicação pode contribuir para prevenir a não adesão do indivíduo”, pondera Maria Aparecida.

A falta de acesso aos medicamentos e também pouca informação são, igualmente, fatores prejudiciais à assiduidade do processo. “Baixo status socioeconômico, pobreza, analfabetismo e baixo nível de educação, desemprego e condição de vida instável, afetam sobremaneira a continuidade do tratamento”, acrescenta a especialista da USP, lembrando que fatores psicológicos, como hipocondria, paranoia, sensação de perda de controle e medo do estigma social por doenças estigmatizadas, depressão e ansiedade também podem ser influenciadores.

Num contraponto, Maria Aparecida lembra que os fortes determinantes de adesão encontram-se na severidade dos sintomas, nível de incapacidade (física, psicológica, social e vocacional), taxa de progressão, severidade da doença e existência de comorbidades.

Alerta aos doentes crônicos

Segundo a OMS, “melhorar a adesão ao tratamento pode ser o melhor investimento para gerenciar as condições crônicas de maneira efetiva”. Mas, na prática, para se alcançar esses objetivos, existem muitas dificuldades.

“O grau de adesão é tipicamente mais elevado em pacientes em condições agudas, quando comparados aos com condições crônicas, algo que se reduz, drasticamente, após os primeiros seis meses de terapia”, adverte a farmacêutica da USP.

Dados da Revista Brasileira de Hipertensão, fornecidos por Cavalcante, mostraram que entre 40% e 60% dos pacientes em tratamento não fazem uso da medicação anti-hipertensiva.

“A porcentagem é maior quando a falta de adesão relaciona-se a estilo de vida, como dieta, atividade física, tabagismo, etilismo, etc.”, comenta. Ele acrescenta, ainda, que a não adesão ao tratamento da hipertensão é o principal fator para a falta de controle da pressão arterial em mais de dois terços dos indivíduos hipertensos*.

Empoderamento do paciente

A Abbott, empresa global de cuidados para a saúde, marca seus 80 anos no Brasil convidando os brasileiros a refletir sobre a importância da conquista e manutenção da sua saúde e seus principais desafios. Para tanto, o laboratório idealizou a pesquisa Empoderamento do Paciente – importância e desafios, conduzida pela Nielsen Shopper Solutions, entre os dias dois e 20 de junho deste ano, com 960 pessoas, entre homens e mulheres, acima de 18 anos de idade, de capitais de todas as regiões brasileiras (Manaus e região metropolitana, Fortaleza, Salvador, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre), diagnosticadas com hipertensão (50%) ou diabetes (50%, sendo que 52% com diabetes tipo I, 33% com diabetes tipo II e 15% não se recordava ou não sabia qual tipo de diabetes possuía).

Patologias de grande incidência

As duas doenças crônicas foram escolhidas devido às altas taxas de incidência e para as quais o envolvimento do paciente no tratamento é fundamental.

Segundo levantamento do Ministério da Saúde (MS), na última década, o número de pessoas diagnosticadas com diabetes cresceu 61,8%. Já os hipertensos aumentaram 14,2%. No Brasil, são mais de 14 milhões de brasileiros com diabetes, um número menor apenas do que em países, como China, Estados Unidos e Índia. Números revelam mais de 30 milhões de hipertensos.

“Esse aumento da prevalência do diabetes e da hipertensão é um fenômeno que acompanha o da expectativa de vida no nosso País e no mundo. A Abbott está atenta a isso e acredita na responsabilidade compartilhada entre pacientes, médicos, governo e a indústria no cuidado da saúde. Ao longo de 80 anos, trabalhamos para que os brasileiros vivam não apenas mais, mas melhor. A pesquisa, ao incitar essa reflexão tão importante, vai ao encontro do nosso propósito, diz o gerente geral da Abbott no Brasil, Juan Carlos Gaona.

Segundo dados do estudo, hoje 54% das pessoas estão satisfeitas com a saúde e 46% insatisfeitas. As satisfeitas afirmam ter apresentado uma postura mais positiva no momento do diagnóstico, com sensações de tranquilidade, autoconfiança e determinação em mudar o rumo de sua vida. E é justamente entre elas que está o maior percentual das que conseguiram inserir em seu estilo de vida cinco importantes hábitos investigados: prática de exercícios físicos (64%), dedicação de mais tempo para si (62%), redução da jornada de trabalho (61%), adoção de uma dieta mais equilibrada (60%) e visita regular ao médico (58%). No outro extremo, o das insatisfeitas, apenas 30% dos pacientes adotaram essa mesma postura.

O estudo revela que 59% das pessoas com hipertensão e diabetes têm na melhoria dos hábitos de saúde a principal chave para se sentir empoderadas; e o principal foco das preocupações tem sido a alimentação diária: 87% tentam realizar as principais refeições; 86% acham importante beber de seis a oito copos de água por dia; e 78% lutam para diminuir o sal. Porém, atualmente, apenas 24% seguem uma dieta com acompanhamento profissional.

É importante destacar que a maioria das pessoas tem no diagnóstico um divisor de águas para uma mudança de vida. Para a maior parte delas (55%), a prática de atividades físicas, por exemplo, só se tornou uma realidade após o diagnóstico. A caminhada foi a escolha da maioria (63%). O estudo mostra também que a forma como a notícia é recebida influencia muito na postura que o paciente adotará dali em diante.

Responsabilidade individual

A pesquisa mostra que, de modo geral, as pessoas consultadas se julgam autorresponsáveis por sua saúde. Entretanto, ainda é grande  (mais de 40%) o índice de brasileiros com diabetes e hipertensão que interromperam o tratamento ao menos uma vez nos últimos cinco anos por indisciplina ou depois que os sintomas desapareceram. Um dado que requer atenção é o percentual daqueles que, apesar de saberem que têm diabetes ou hipertensão, ainda não iniciaram um tratamento médico por considerarem que a doença não é grave o suficiente: 15% das pessoas com diabetes e 12% das que apresentam hipertensão.

A busca por informação também é outra ferramenta fundamental para o empoderamento das pessoas com diabetes ou hipertensão: 40% acessam sites de buscas e 28% procuram em sites específicos informações sobre a doença, prevenção, tratamento, medicamentos e profissionais de saúde. Mas a consulta na internet tem apenas caráter complementar, já que não substitui o contato com o médico.

Grande parte dos entrevistados (92%) faz tratamento com acompanhamento médico e 85% confiam nos profissionais de saúde. Segundo a pesquisa, as principais barreiras para um tratamento ideal estão ligadas a recursos financeiros (59%).

A maior parte dos entrevistados convive com o diagnóstico entre um e cinco anos. As pessoas com diabetes receberam seu diagnóstico quando tinham em média 25 anos de idade e os hipertensos em torno dos 35 anos.

Notou-se que a descoberta das doenças acontece em sua maioria durante checkups regulares, principalmente nas cidades de Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Enquanto hipertensos em São Paulo, metade dos entrevistados descobriram após ter algum sintoma da doença.

A grande maioria faz o tratamento, porém, identificou-se que uma das barreiras para continuar com o tratamento de diabetes é a disciplina que o paciente necessita ter e para o hipertenso é a ausência de sintomas.

 Prejuízos à saúde pública

Estudos econômicos, considerando diabetes, hipertensão e asma, evidenciam que o agravamento das enfermidades e as comorbidades advindas de uma baixa adesão aumentam, de forma significativa, os gastos com os serviços de saúde.

A baixa adesão à medicação entre pacientes idosos com asma moderada a severa foi associada com um aumento de 5% nas consultas médicas anuais, enquanto que uma melhor adesão foi associada com 20% de redução nas internações hospitalares anuais.

Fonte: farmacêutica responsável pela Farmácia Universitária da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), Maria Aparecida Nicoletti

Para ambas as doenças, a medicação mais tomada é oral. Tanto para diabetes quanto para hipertensão, equipamentos capazes de realizar a medição são relevantes para os pacientes. Há o costume de complementar o tratamento com outros métodos mais naturais, como homeopatia e suplementação alimentar. O ato de tomar a medicação é tido como uma responsabilidade do próprio paciente, ou seja, ele não responsabiliza terceiros por algo que ele deve fazer. Por isso, utiliza ferramentas para auxiliar a lembrança em tomar a medicação, como aplicativos e alarmes em celulares.

Eles acreditam que se tivessem maiores recursos financeiros para ter um plano de saúde, comprar melhores medicamentos e equipamentos mais modernos, poderiam ter um tratamentos de saúde melhor.

A figura dos farmacêuticos também é positiva e relevante, principalmente para as classes sociais mais baixas. Por exemplo: 64% dos hipertensos em Fortaleza buscam referências entre esses profissionais.

Pode-se concluir que grande parte dos pacientes sente-se empoderada para cuidar da sua saúde, o que é bastante positivo. Mas ainda há oportunidades para o desenvolvimento de soluções que vão ao encontro das necessidade dos brasileiros, bem como é fundamental que seja oferecida ainda mais informação de qualidade e mecanismos para facilitar a adesão ao tratamento. 

Foto: Shutterstock

Indique para um amigo ... Share on Facebook
Facebook
Tweet about this on Twitter
Twitter
Share on LinkedIn
Linkedin
Email this to someone
email
Print this page
Print
As farmácias na adesão ao tratamento

Edição 298 - 2017-09-01 As farmácias na adesão ao tratamento

Essa matéria faz parte da Edição 298 da Revista Guia da Farmácia.

Deixe um comentário