O fator que pode reduzir a gravidade de quadros da Covid-19

Pessoas que já tiveram PCR positivo para outra doença derivada do vírus correm menos risco de irem a UTI, o que ameniza os quadros da Covid-19

Cientistas do Boston Medical Center acreditam que um fator pode ajudar a reduzir a gravidade de quadros da Covid-19.

Segundo eles, quem já contraiu algum tipo de coronavírus na vida pode ter mais probabilidade de desenvolver casos mais leves ou medianos da doença.

O estudo também aponta que não é porque um indivíduo já foi infectado com um coronavírus que ele não pode contrair o SARS-CoV-2.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores observaram, contudo, informações médicas de indivíduos que fizeram o teste PCR (teste que detecta vários patógenos respiratórios) entre 18 de maio de 2015 e 11 de março de 2020.

Outros dados de pacientes que tiveram Covid-19 entre março e junho deste ano também foram analisados.

Informações dos pesquisadores

O que eles descobriram foi que pessoas que já tiveram um teste PCR positivo para outra doença derivada do coronavírus corriam menos risco de ser internadas na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) e que a chance de sobrevivência era maior entre eles.

“Nossos resultados mostram que pessoas com evidência de uma infecção prévia de uma ‘gripe comum’ de coronavírus tem sintomas menos severos da Covid-19”, afirmou um dos autores do estudo e médico no Boston Medical Center, Manish Sagar.

Apesar de o SARS-CoV-2 ser um patógeno recente, outros tipos de coronavírus (como o MERS, por exemplo) podem ter sequências genéticas em comum com o vírus que causou a pandemia atual.

Dessa maneira, a resposta imune desses coronavírus podem, inclusive, ter uma reação cruzada contra a Covid-19.

“As pessoas são continuamente infectadas com diversas formas do vírus diferentes do atual, e esse estudo pode ajudar a identificar pacientes que têm riscos maiores ou menores de desenvolver complicações”, explica Joseph Mizgerd, coautor do estudo e bioquimíco na Universidade de Boston.

Quem terá prioridade para tomar a vacina?

Os países estão correndo para entender melhor qual será a ordem de prioridade para a população uma vez que a proteção chegar ao mercado.

Um grupo de especialistas nos Estados Unidos, por exemplo, divulgou em setembro uma lista de recomendações que podem dar uma luz a como deve acontecer a campanha de vacinação.

Segundo o relatório dos especialistas americanos (ainda em rascunho), na primeira fase deverão ser vacinados profissionais de alto risco na área da saúde, socorristas, depois pessoas de todas as idades com problemas prévios de saúde e condições que as coloquem em alto risco e idosos que morem em locais lotados.

Na segunda fase, a vacinação deve ocorrer em trabalhadores essenciais com alto risco de exposição à doença, professores e demais profissionais da área de educação.

Pessoas com doenças prévias de risco médio, adultos mais velhos não inclusos na primeira fase, pessoas em situação de rua que passam as noites em abrigos, indivíduos em prisões e profissionais que atuam nas áreas também são incluídos nesta fase.

Já na terceira fase deve ter como foco jovens, crianças e trabalhadores essenciais que não foram incluídos nas duas primeiras. É somente na quarta e última fase que toda a população será vacinada.

E a sua eficácia?

Segundo uma pesquisa publicada no jornal científico American Journal of Preventive Medicine uma vacina precisa ter 80% de eficácia para colocar um ponto final à pandemia.

Contudo, para evitar que outras aconteçam, a prevenção precisa ser 70% eficaz.

Uma vacina com uma taxa de eficácia menor, de 60% a 80% pode, inclusive, reduzir a necessidade por outras medidas para evitar a transmissão do vírus, como o distanciamento social.

Mas não é tão simples assim.

A importância de tomar a vacina

Isso porque a eficácia de uma vacina é, todavia, diretamente proporcional à quantidade de pessoas que a tomam.

Ou seja, se 75% da população for vacinada, a proteção precisa ser 70% capaz de prevenir uma infecção para evitar futuras pandemias e 80% eficaz para acabar com o surto de uma doença.

As perspectivas mudam se apenas 60% das pessoas receberem a vacinação, e a eficácia precisa ser de 100% para conseguir acabar com uma pandemia que já estiver acontecendo — como a da Covid-19.

Rotina normal

Isso indica que a vida pode não voltar ao “normal” assim que, finalmente, uma vacina passar por todas as fases de testes clínicos e for aprovada e pode demorar até que, enfim, 75% da população mundial esteja vacinada.

Os tipos de vacina disponíveis

Alguns tipos de vacina têm sido testados para a luta contra o vírus.

Uma delas é a de vírus inativado, que consiste em uma fabricação menos forte em termos de resposta imunológica, uma vez que nosso sistema imune responde melhor ao vírus ativo.

Por isso, vacinas do tipo têm um tempo de duração um pouco menor do que o restante e, geralmente, uma pessoa que recebe essa proteção precisa de outras doses para se tornar realmente imune às doenças.

É o caso da Vacina Tríplice (DPT), contra difteria, coqueluche e tétano, por exemplo.

A vacina da Sinovac, por exemplo, segue esse padrão.

Outro tipo de vacina é a de Oxford, feita com base em adenovírus de chimpanzés (grupo de vírus que causam problemas respiratórios), e contendo espículas do novo coronavírus.

As outras vacinas em fases clínicas já avançadas também são baseadas em espículas, mas apresentadas em forma de RNA mensageiro, como as da Pfizer e da Moderna.

10 potenciais vacinas

Sinovac Biotech: a vacina chinesa que começou os testes em fase 3 no Brasil na última segunda-feira, 20, pretende fabricar até 100 milhões de doses anuais.

Por aqui, 9 mil profissionais da área da saúde receberão a vacina.

Sinopharm (Wuhan e Pequim): a vacina com base em vírus inativado, que se mostrou capaz de produzir resposta imune ao vírus, começou as fases 3 de testes neste mês nos Emirados Árabes Unidos.

Cerca de 15 mil voluntários participaram do período de testes e a empresa chinesa acredita que a opção estará disponível para o público já no final do ano.

Oxford e AstraZeneca: os resultados preliminares das fases 1 e 2 da vacina com mais de mil pessoas mostraram que ela foi capaz de induzir uma resposta imune à doença.

As fases dois (que ainda está ocorrendo no Reino Unido) e três de testes (acontecendo no Reino Unido, Brasil e África do Sul) devem garantir a eficácia completa dela. A opção é tida, todavia, como a mais promissora pela OMS.

Moderna: a empresa americana iniciou última fase de testes de sua vacina baseada no RNA mensageiro no dia 27 de julho.

O teste vai incluir 30 mil pessoas nos Estados Unidos e o governo investiu pesado: cerca de 1 bilhão de dólares para apoiar a pesquisa.

A expectativa da empresa é produzir 500 milhões de doses por ano.

Pfizer e BioNTech: a vacina agora também está na fase três de testes e também usa o RNA mensageiro, que tem como objetivo produzir as proteínas antivirais no corpo do indivíduo.

A expectativa é testar a vacina em aproximadamente 30.000 voluntários com idades entre 18 e 85 anos no mundo.

Desse total, 1.000 serão testados no Brasil.

Se tudo der certo, a expectativa é que a eficácia da vacina seja, então, comprovada até o outubro.

A empresa espera, dessa maneira, produzir até 100 milhões de doses até o fim do ano.

Outras 1,3 bilhão de doses podem ser fabricadas no ano que vem.

Instituto Gamaleya: em 11 de agosto a Rússia registrou a primeira vacina do mundo contra a Covid-19.

A vacina russa é baseada no adenovírus humano fundido com a espícula de proteína em formato de coroa que dá nome ao coronavírus.

É, portanto, por meio dessa espícula de proteína que o vírus se prende às células humanas e injeta seu material genético para se replicar até causar a apoptose, a morte celular, e, então, partir para a próxima vítima.

Na última segunda-feira, 31, o país anunciou que o primeiro lote de sua vacina, a “Sputnik V”, estará disponível já neste mês.

Pesquisa aponta que uma vacina precisa ter 80% de eficácia para colocar um ponto final à pandemia.

CanSino: a vacina chinesa usa um vírus inofensivo do resfriado conhecido como adenovírus de tipo 5 (Ad5) para transportar material genético do coronavírus para o corpo.

E, segundo a companhia, conseguiu induzir uma resposta imune nos indivíduos que foram testados.

No começo de agosto, a China concedeu a primeira patente da vacina.

Janssen Pharmaceutical Companies: a vacina, em parceria com a gigante Johnson & Johnson conseguiu induzir imunidade robusta em testes pré-clínicos.

A tecnologia usada para a produção dela é a mesma utilizada no desenvolvimento da vacina do Ebola, que inclui o uso do vírus inativado da gripe comum, incapaz de ser replicado.

Novavax: a companhia (também americana) nunca produziu uma vacina em suas três décadas de existência, e usa as proteínas do próprio vírus para induzir uma resposta imune.

Quais são as fases de uma vacina?

Para uma vacina ou medicação ser aprovada e distribuída, ela precisa passar por três fases de testes.

A fase 1 é a inicial, quando as empresas tentam comprovar a segurança de seus medicamentos em seres humanos; a segunda é a fase que tenta estabelecer que a vacina ou o remédio produz, sim, imunidade contra um vírus, já a fase 3 é a última fase do estudo e tenta demonstrar a eficácia da droga.

Uma vacina é finalmente disponibilizada para a população quando essa fase é finalizada e a proteção recebe, assim, um registro sanitário.

Por fim, na fase 4, a vacina ou o remédio é disponibilizado para a população.

Cuidados preventivos

Com isso, as medidas de proteção, como o uso de máscaras, e o distanciamento social ainda precisam ser mantidas.

A verdadeira comemoração sobre a criação de uma vacina deve ficar para o futuro.

Quando soubermos que a imunidade protetora realmente é desenvolvida após a aplicação de uma vacina.

Até o momento, nenhuma situação do tipo aconteceu.

Foto: Shutterstock

Fonte: Exame

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