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Como vencer a dor da tendinite?

A tendinite é uma das doenças da vida moderna. Causada pela inflamação do tendão, atinge pessoas expostas a movimentos repetitivos. A boa notícia é que ela pode ser prevenida e tratada

Em um mundo cada dia mais digital, fica quase impossível imaginar a vida das pessoas – seja no seu meio profissional ou pessoal – longe de um computador ou smartphone. Horas e mais horas rotineiras e dedicadas a movimentos repetitivos como digitar, por exemplo, podem trazer consequências nada agradáveis para o corpo, especificamente para os tendões das mãos e punhos, aliás, consequência que tem nome: tendinite. Para entender melhor como ela surge é preciso saber que o tendão é uma estrutura fibrosa, como uma corda, que une o músculo ao osso. Quando essa estrutura é exposta a uma rotina de movimentos repetitivos ou de muita intensidade, ela pode inflamar, causando dor e até inchaço no local.

Muito comum no ombro, cotovelo, punho, joelho e tornozelo, a tendinite pode ser aguda (história de dor recente – até 45 dias) ou crônica. “Geralmente, se manifesta pela presença de dor no local, que pode irradiar para toda a musculatura ao redor. A dor pode piorar com o movimento e resultar em diminuição da força. Quando persistente, pode causar atrofia da musculatura. Em muitos casos, há inchaço local e presença de calor e/ou vermelhidão”, explica o médico reumatologista e coordenador da Comissão de Fibromialgia da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), Dr. José Eduardo Martinez. Ele ainda acrescenta que, como o tendão não é tão forte quanto o osso, nem tão elástico quanto o músculo, em caso de sobrecarga, é a estrutura que mais sofre.

Abrangente, a tendinite pode acometer qualquer pessoa e suas causas costumam estar relacionadas, principalmente, a alguns fatores de risco, como falta de alongamento muscular; falta de condicionamento físico em geral; postura inadequada; movimentos repetitivos, principalmente no uso de computadores, tablets ou celulares; carregar peso excessivo; idade do paciente – com o passar dos anos, a circulação sanguínea para o tendão fica deficiente; estresse, pois ocasiona contratura muscular e fadiga, prejudicando os tendões; atividades esportivas em excesso ou com técnica/material inadequado; e doenças autoimunes. “Além de determinadas pessoas que têm predisposição genética e mesmo alterações constitucionais do colágeno, qualquer pessoa que execute movimentos repetitivos, seja em casa ou no trabalho, são as principais vítimas das lesões de partes moles”, comenta o Dr. Martinez.

Tipos e graus de tendinite

  • Entesite: inflamação próxima da região de fixação óssea.
  • Peritendinite: inflamação na região músculo-tendínea.
  • Tenossinovite: inflamação da bainha sinovial (tecido que envolve o tendão para diminuir o atrito entre as estruturas envolvidas).
  • Tendinite ossificante (calcária): cronificação da inflamação com depósito de cristal de hidroxiapatita.
  • Grau 1: apresenta inflamação com sintomas clínicos dolorosos e leve restrição funcional de mobilidade.
  • Grau 2: apresenta sintomas inflamatórios, inclusive em repouso, com limitação funcional e início do processo degenerativo crônico.
  • Grau 3: ruptura do tendão com grande impacto na mobilidade.

Fonte: fisioterapeuta, especialista em Osteopatia e doutor em Anatomia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Dr. Juliano Wada

Pacientes que sofreram traumas e entorses, além de pessoas que realizam trabalhos não ergonômicos, também engrossam a lista de risco para tendinite. “Não há dados transparentes de prevalência da doença na população brasileira, mas de acordo com dados obtidos pela Revista Brasileira de Medicina do Trabalho, cerca de 30% a 40% de todos os atendimentos em ambulatórios e centros de dor se referem a afecções musculoesqueléticas, e as tendinites compõem esses dados”, comenta o fisioterapeuta, especialista em Osteopatia e doutor em Anatomia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Dr. Juliano Wada. Ele alerta para o fato de que a tendinite, quando não tratada, pode evoluir para casos mais graves, como uma tendinose (degeneração) associada a uma inflamação muito intensa que acomete a função, impossibilitando a realização de tarefas simples. “Em quadros mais severos, pode acarretar na ruptura completa do tendão”, diz.

No ombro, a tendinite torna-se mais comum em indivíduos com idade entre 40 e 50 anos. Isso porque, segundo o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia de Mão (SBCM) e chefe do Serviço de Mão do Hospital do Coração (HCor), Dr. Marcelo Rosa de Rezende, ao longo da vida, os indivíduos estão expostos a microtraumas que desencadeiam esses processos inflamatórios. “O componente degenerativo deve ser levado em conta como um fator para o surgimento da tendinite, mas é importante não banalizar o diagnóstico, uma vez que a doença pode estar ligada a aspectos reumatológicos e não necessariamente a movimentos de repetição”, alerta o médico.

Antes de a inflamação chegar

Uma vez classificado no grupo de risco para a doença, o indivíduo pode tomar uma série de precauções para evitar que um dia os sintomas apareçam. “Mudar a forma de trabalhar, alongar e fortalecer os músculos e tendões, corrigir a postura ou os vícios posturais são algumas das ações de prevenção que podem e devem ser tomadas”, recomenda o ortopedista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, Dr. Fabiano Nunes. Para ele, essa revisão na rotina é fundamental para afastar os riscos do problema.

Aliás, a atividade física frequente, com carga adequada, é uma recomendação de todos os especialistas ouvidos nessa reportagem. “É preciso ter cuidado caso a tendinite esteja associada a alguma patologia (reumática, metabólica). Nesse caso, é importante manter o acompanhamento do médico especializado, assim como nos casos de traumas e sobrecargas motoras específicas. Se o problema for de origem ocupacional, é importante a realização de mudanças no turno, na especificidade do trabalho e na ergonomia”, comenta o Dr. Wada.

Tratamento multidisciplinar

O tratamento da tendinite é dividido em medidas para aliviar a dor, atitudes para evitar que a dor volte e tratamento medicamentoso. Segundo o Dr. Wada, ele pode ser dividido de acordo com o grau da doença. “O tratamento para o grau 1 é conservador, com fisioterapia e fortalecimento. Para o grau 2, o tratamento conservador precisa estar associado ao uso de medicações (anti-inflamatórios e analgésico) prescritas pelo médico, e o grau 3 exige cirurgia”, afirma. Ele ainda acrescenta que a fisioterapia, além de ser parte do tratamento, também pode ser usada como prevenção. “Mas até o grau 2 a fisioterapia é imprescindível para a melhora clínica do paciente, inclusive nos casos pós-cirúrgicos causados pela ruptura total do tendão.”

São diversas especialidades da fisioterapia que podem auxiliar no tratamento, como a traumato-ortopédica, fisioterapia manipulativa, cinesioterápica, do esporte, terapia manual, eletrotermofototerapia, hidroterapia e acupuntura. É importante se conscientizar de que o tratamento multidisciplinar é mais eficaz”, diz.

Na fase aguda, pode ser necessário até mesmo restringir os movimentos da área afetada. “Além disso, o uso de anti-inflamatórios hormonais e não hormonais pode ser necessário, lembrando que ainda pode-se lançar mão de medidas como terapia ocupacional e fisioterapia. Em casos mais graves, como na ruptura do tendão, a cirurgia é parte do tratamento”, comenta o Dr. Rezende.

Foto: Shutterstock

O voto da vitória

Edição 311 - 2018-10-01 O voto da vitória

Essa matéria faz parte da Edição 311 da Revista Guia da Farmácia.

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